quarta-feira, 10 de agosto de 2016

FOGOS, QUEDAS, PORTAS. E YUSRA



Miguel Guedes – Jornal de Notícias, opinião

A metáfora ideal dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro é uma dura realidade. Em Agosto de 2015, a atleta síria Yusra Mardini ainda não trazia consigo a maioridade dos seus 18 anos de águas de Março quando o motor do barco de refugiados em que fazia a travessia entre a Turquia e a ilha grega de Lesbos, parou. Com a sua irmã, saltou para a água, nadando durante mais de três horas num braço. Arrastou a embarcação para terra e cumpriu, antes do tempo e por uns meses, a jura de maioridade das águas de Jobim com "a promessa de vida no teu coração". Mas há muito que Yusra, em terra firme, crescera adulta antes do tempo.

A guerra na Síria encarregou-se de não poupar a vida da sua família, ceifar-lhe os amigos. Tratou de lhe destruir a casa, colocando-a a fugir da morte com a sua irmã e mais dezoito pessoas num barco feito grego. Após fugir para o Líbano, atravessada a Turquia, chega à Grécia muito longe da última paragem. Ainda faltava muita Europa até à Alemanha. E de Berlim ao Rio, um oceano. Yusra compete hoje nos 100 metros livres, às 17 h, pela bandeira de cinco anéis do Comité Olímpico Internacional, após a sua estreia nos 100 metros mariposa no primeiro dia dos Jogos. E não consigo imaginar melhor metáfora feita realidade para uns Jogos que, também eles, são uma dura realidade feita metáfora para tantos brasileiros. Vou parar para ver.

Sem parar para ver, assistimos imóveis às três realidades típicas de verão. E com tamanha repetição são já mais pleonasmos do que metáforas: fogos, derrocadas e portas giratórias. É difícil aceitar que todos os anos nos sejam servidas as mesmas estórias, os mesmo problemas, a mesma vergonha. A realidade não muda e a resposta não se adequa. E todos os anos, sentamos à espera pela certeza de que o calor aquece e a loucura acende, que a rocha cede pelo desgaste e de que há ex-políticos ou políticos em trânsito permanente.

Centenas de hectares de floresta ardem todos os anos (2,2% da nossa floresta, anualmente), o pior indicador a nível europeu, mas continuamos a açucarar a realidade com a indesmentível coragem dos bombeiros e os singulares actos de heroísmo civil. Entre Julho do ano passado e Junho deste ano, contam-se 21 desmoronamentos de arribas no litoral do Algarve (quase o dobro da média dos 12 registados nos últimos 10 anos) mas insistimos - turístico sol - em analisar a qualidade da água em detrimento da solidez da rocha que ceifa vidas de supetão. Depois da Mota-Engil, as portas de Portas giraram para a mexicana Pemex lembrando a "missão e peras" de uma das duas visitas do então ministro dos Negócios Estrangeiros ao México, em Junho de 2014, quando a empresa terá assinado um memorando de entendimento com a Galp. A metáfora ideal para os dias de verão é um enorme déjà-vu.

*Músico e advogado - O autor escreve segundo a antiga ortografia

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