segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Portugal. À ESPERA DO CAMELO



Afonso Camões* – Jornal de Notícias, opinião

Há fogo? Valham-nos os bombeiros, que o resto é fastio. Tal como no futebol, onde abundam os treinadores de bancada, a época de incêndios revela-nos um enorme potencial encoberto, o desses sapadores de sofá e ar condicionado que, se fossem mobilizados, até as labaredas extinguiam com o bafo de tão doutas táticas sobre um mundo rural que desprezam e desconhecem.

Com as matas carregadas de matéria combustível, a má notícia é que ainda vamos a meio de agosto, e este verão ameaça pior, em resultado da terrível conjugação de incúria, altas temperaturas, vento e a mão descuidada ou criminosa de alguns.

Incendeia-se-nos a sensibilidade quando o terror engole habitações e mata pessoas e animais, ou quando bombeiros sucumbem cercados pelas chamas, ou ainda quando uma extensa área de alto valor ambiental é reduzida a um manto negro de cinzas.

O maior problema não está, porém, no combate onde se gasta cada ano quase 100 milhões de euros, cinco vezes mais o que se investe em prevenção. A natureza permite-se certas liberdades, entre elas, a menos comedida é que a floresta arde independentemente de quem governa. O problema é que sobre as cinzas de cada ano vinga a visão de curto prazo e prospera a economia do fogo, que prefere pagar mais em meios de combate do que investir na defesa. Ora, o consenso político deveria passar por aqui: elevar a prevenção ao posto de comando e assumir que o primeiro corta-fogo está nas políticas e em quem as lidera.

Depois de cada tragédia, reclamamos mão dura sobre o crime. Mas, mais importante, é preciso ativar, definitivamente, uma política integrada para os dois terços do chão nosso, o interior rural, e uma gestão da floresta que a valorize como património coletivo, fonte de riqueza tão menosprezada pela ignorante modernidade urbanita.

Mangas arregaçadas e de todas as cores, os políticos de turno gostam de aparecer nos "teatros de operações", como agora lhe chamam, e derramar palavras nos muros da desgraça, jornais, rádios e televisões. Nada, porém, que mude o essencial. Porque insistimos em ignorar que os incêndios de verão se combatem no inverno.

É bom saber que o Governo vai criar um grupo de trabalho interministerial para (agora é que vai ser!) a reforma da floresta. Um velho político, que aliás terminou a carreira perdendo eleições, achava que a melhor maneira de adiar uma decisão é criar um grupo de trabalho. O último Governo, aliás, especializou-se nisso, criou dezenas. Oxalá este nos surpreenda, porque o mesmo político também dizia que um camelo é um cavalo desenhado por uma comissão. Mas ao menos que haja camelo.

*Diretor

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