sábado, 17 de setembro de 2016

Angola. DESCULPAS DE MAUS PERDEDORES



Victor de Carvalho – Jornal de Angola, opinião

Ainda o registo eleitoral não havia arrancado e já o país assistia, surpreendido, à tomada de posições por parte de alguns partidos e dirigentes políticos que deixavam perceber a sua intenção de tudo fazer para beliscar todo o processo que irá conduzir à realização de eleições em 2017.

Primeiro foi a multiplicação de declarações a darem conta da existência de uma cabala urdida entre o governo e o partido maioritário, com a “cumplicidade” sempre oportuna dos órgãos que regem a preparação do pleito, para que as eleições não se viessem a realizar no prazo previsto.

Qualquer oportunidade foi boa para que alguns responsáveis políticos, muitos deles até com lugar no Parlamento, viessem a público passar a ideia de que as eleições não seriam realizadas em 2017, esgrimindo para isso os mais desencontrados e coloridos argumentos.

A fase seguinte dos desvarios surgiu quando a Assembleia Nacional recebeu e discutiu a série de diplomas que conformam a lei pela qual se está já a reger todo o processo de preparação das eleições.

Sem força legal para darem sustentação aos seus argumentos, esses mesmos partidos políticos decidiram a determinada altura virar mesmo as costas à democracia, abandonando o hemiciclo numa altura em que, sintomaticamente, estava em discussão uma proposta de alteração a esse pacote legislativo que eles mesmos haviam decidido apresentar.

Quando se aperceberam que 2017 continuava a ser o ponto de referência para a ida às urnas, entraram na fase do ataque à Comissão Nacional Eleitoral. Umas vezes pelo que ela fez, outras pelo que, no seu entender, deveria ter feito e não fez.

Durante este período assistiu-se a um verdadeiro ataque ao carácter e à honra de alguns dos membros da Comissão Nacional Eleitoral, naquilo que constituiu uma demonstração de falta de decoro própria de quem não sabe o que diz e muito menos o que fazer para manter de pé um objectivo cada vez mais difícil.

Neste momento, o alvo que essas mesmas forças querem travar é o processo de registo eleitoral, que ao fim de suas semanas tem uma adesão popular que já ultrapassou as perspectivas mais optimistas.

Nesta fase, curiosamente, começa já a perceber-se algum desnorte nas fileiras desses partidos políticos, havendo elementos que teimam em considerar que está tudo mal e ferido de legalidade e outros que, perante a evidência dos factos, já se renderam e elogiam os métodos usados no registo eleitoral, considerando-os mesmo acima de qualquer suspeita.

Qualquer situação de desnorte, como esta, é propícia a que quem por ele seja possuído à tomada de algumas atitudes que uns consideram menos elaboradas, ou felizes, mas que outros preferem interpretar como reveladoras daquilo que na verdade são capazes.

Neste âmbito, a semana que agora acaba revelou dois episódios que demonstram a confusão que se apossou de alguns intérpretes e formações políticas na sua ânsia de desafiar a lei e a urbanidade para encontrar aí argumento de fuga às suas responsabilidades para com as eleições.

Primeiro foi o deputado da UNITA, Pedro Katchiungo, a aproveitar a sua presença num debate organizado pela Rádio Nacional de Angola para evidenciar o seu sentimento democrático ao mandar calar os seus atónitos colegas de programa quando estes apresentavam argumentos que ele não sabia como contrariar.

Depois é a rábula em redor do surgimento de um novo partido político do seio daquilo que ainda é uma coligação eleitoral com pretensões a entrar no eixo da governação.

Dando de barato a peregrina ideia democrática de eleger o presidente de um partido antes mesmo deste estar constituído, existem factos constitucionais que deixam perceber estar a CASA-CE a jogar uma cartada perigosa, uma vez que perante a lei ficará difícil explicar como, mesmo depois de extinta, pode manter deputados no Parlamento a defenderem uma formação que não foi sufragada nas anteriores eleições.

Não querendo acreditar em coincidências, que em política são meras balelas, estamos mais em crer que todo este folclore tem apenas como único objectivo conspurcar todo o processo de preparação das eleições, tentando que estas não se realizem em 2017, seja porque para elas não estão preparados ou simplesmente para que depois possam acusar o Executivo de se querer manter no poder a todo o custo.

No caso da UNITA, através de sucessivos ataques à democracia perpetrados pelos seus líderes mais destacados, seja na imprensa ou nos órgãos do Estado onde estão integrados. No que toca à CASA-CE, com esta rábula do partido, a ideia que fica é a de que está a tentar criar uma situação política que a possa colocar à margem das eleições.

Se mesmo assim não conseguirem criar factos suficientes que justifiquem a sua auto-exclusão do processo eleitoral, resta-lhes ainda a possibilidade de jogarem uma última cartada, pedindo, em uníssono, a impugnação do processo de registo eleitoral, fazendo com que tudo volte à estaca zero.

Aliás, este é um cenário entreaberto já por alguns responsáveis políticos menos familiarizados com processos democráticos e temerosos daquela que irá mais uma vez ser a manifestação clara e livre da soberana vontade do povo.

Quem assim procede não acredita nas suas potencialidades políticas nem respeita as regras da democracia. São aqueles que, nos rescaldos de anteriores pleitos, foram férteis em apresentar desculpas de maus perdedores.

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