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terça-feira, 16 de maio de 2017

Salvador Sobral | PEQUENOS GESTOS QUE INTERPELAM GRANDES ESCOLHAS


Mariana Mortágua* | Jornal de Notícias | opinião

Portugal ganhou a Eurovisão, e o país emocionou-se. É compreensível que assim seja. Mas também é justo pedir que não percamos o pé, a noção precisa do Mundo que avança apesar do nosso alheamento. Pelo menos em teoria, a Eurovisão pretende celebrar e evocar princípios de tolerância, de encontro de nações e culturas de dentro e fora da Europa. É difícil por isso compreender que essa celebração possa ser tão asséptica, tão artificialmente alienada da violência que, de tão banalizada, já não merece especial atenção.

Ficámos a saber na semana passada que as autoridades italianas deixaram morrer 268 pessoas, entre elas 60 crianças, que fugiam da guerra pela Líbia. E a palavra "deixaram" neste contexto não é simbólica. A guarda costeira italiana esteve ao telefone durante cinco horas com um médico sírio que implorava ajuda enquanto afundava com os restantes 267 refugiados perto de Lampedusa, e nada fez. São só mais algumas centenas a juntar aos milhares que já perderam a vida a tentar atravessar o mar que não é mais que um muro que a Europa mantém guardado e armado para impedir uma passagem segura.

Pode a Eurovisão resolver um problema político e humanitário desta dimensão? Certamente que não. Mas isso não quer dizer que lhe deva ficar indiferente. E teria ficado, não fosse o gesto de Salvador Sobral. Com a naturalidade de quem só está a fazer a coisa certa, o candidato português escolheu usar a sua visibilidade para revelar o drama de outros, de todos na verdade.

Tenho o maior respeito pelo pequeno gesto de Salvador Sobral porque sei que ele é muito importante, e que o mais fácil é sempre ficar na redoma esterilizada da indiferença. Mas sair dela requer, para além de gestos individuais solidários e generosos, como este, assumir que este é um problema político de enormes proporções.

Discutir a "crise dos refugiados" passa por encontrar as melhores formas de acolher quem consegue chegar, mas também compreender porque se rejeita aos restantes a hipótese de uma vida. Implica questionar e rejeitar a política de militarização das fronteiras europeias, os campos de detenção temporária ou os pagamentos à Turquia para servir de tampão a esta vaga de gente que foge à morte. É da solidariedade e do humanismo, mas também da posição política de cada país sobre todas estas matérias, que se forjarão as mudanças que de facto podem fazer a diferença.

Obrigada ao Salvador, pelo pequeno gesto que nos orgulhou e que nos interpela para as grandes escolhas, e parabéns.

* Deputada do BE

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