sábado, 31 de março de 2018

COREIA DO NORTE/CHINA | Grande palco para Kim Jong-un

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Alexander Freund* | opinião

Visita do ditador norte-coreano ao presidente chinês Xi foi golpe de mestre, pois ele sai fortalecido para negociações entre a Coreia do Sul e os EUA. Mas ainda faltam resultados concretos, opina Alexander Freund.

A breve visita de Kim Jung-un a Pequim pode ser considerada um sucesso para o jovem governante norte-coreano: para ele foi preparada uma grande recepção. Ele ganhou a oportunidade de envolver o seu irmão mais velho, a China, em um estágio inicial, mesmo antes de qualquer negociação direta com a Coreia do Sul e, em seguida, com os EUA – se tudo correr bem.

Com o apoio chinês, Kim Jung-un sai agora fortalecido para as negociações. Graças à ameaça de seus cenários nucleares e à aliança demonstrativa com a China, ele pode agora sentar-se mais confiante à mesa de negociações. Ele irá negociar de igual para igual, não como um solicitante forçado a se ajoelhar pelas sanções.

Para uma possível desnuclearização, Kim espera "uma atmosfera de estabilidade e paz" dos EUA e Coreia do Sul. Em outras palavras, isso provavelmente significa que ele e seu círculo de poder obtenham garantias de segurança e que também o sul seja desarmado militarmente.

Com os testes de mísseis e as ambições nucleares da Coreia do Norte minando a autoridade da China como potência protetora, a visita inaugural de Kim ao homem forte chinês já deveria ter acontecido há muito. Por bastante tempo, a China se esforçou sem sucesso por uma solução diplomática nas chamadas "conversas de seis partes".

O fato de Pyongyang não apenas ter tensionado as relações tradicionalmente próximas, mas também ter ido longe demais, ficou claro no mais tardar quando Pequim também apoiou as sanções da ONU contra o país isolado.

O fato de Kim primeiro pedir o apoio da China antes de qualquer negociação pode ser visto por Pequim como um grande sucesso. Porque sem os chineses, não haverá solução para o conflito coreano.

A forma como Pequim encenou toda a cobertura midiática sobre a misteriosa viagem de trem de Kim e celebra o papel de liderança de Xi na visita mostra a importância dessa autoridade para os chineses.

Xi Jinping pode se intitular vitorioso – a autoridade do poder protetor parece ter sido restaurada por enquanto. Não importa o que Kim discuta com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, ou com o presidente dos EUA, Donald Trump, não será possível uma decisão sem Xi.

No entanto, o presidente dos EUA também se vê vitorioso, porque, com sua atitude dura, aumentou tanto a pressão sobre a Coreia do Norte que Pyongyang teve que se mexer. Trump vai reclamar para si o êxito de finalmente haver movimento no conflito da Coreia. Se, nesse contexto, ele conseguir negociar um acordo aceitável para os EUA, como a desnuclearização da península coreana e o abandono dos testes de mísseis direcionados para os EUA, então esse seria realmente um mérito seu. Ainda não se sabe que concessões Trump estaria disposto a fazer.

Ele provavelmente poderia renunciar às manobras conjuntas com os sul-coreanos ou à instalação do sistema antimísseis THAAD, mas dificilmente Trump concordaria com uma retirada das tropas americanas da Coreia do Sul. Além disso, para Kim, uma "desnuclearização da península coreana" também envolve a retirada de armas nucleares táticas dos EUA, por exemplo, de submarinos da região.

O presidente sul-coreano, Moon, também não pode faltar nesse rol de vencedores, mesmo que ele seja o de menor destaque entre todos esses machos alfa. Suas políticas orientadas ao diálogo criaram no momento exato uma atmosfera de confiança, que foi felizmente aproveitada pelo governante da Coreia do Norte.

Como se sabe, o sucesso tem muitos pais. Isso se demonstra mais uma vez aqui. E quando muitos se veem como vencedores, então as chances de êxito também aumentam. No entanto, também deve ficar claro para todos os supostos ganhadores que, em última instância, nada ainda foi alcançado. Porque as verdadeiras negociações ainda estão pendentes.

As diferenças e a desconfiança mútua são compreensivelmente grandes. Mas, finalmente, há ao menos uma esperança realista com vista a uma solução negociada. Esse é realmente um verdadeiro sucesso comparado com a retórica belicista dos últimos meses.

*Deutsche Welle
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