domingo, 6 de maio de 2018

200 ANOS DE KARL MARX | "Karl Marx se mantém extremamente atual"

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Duzentos anos após seu nascimento e várias revoluções mais tarde, até que ponto permanecem válidas as ideias do pensador alemão? Para o sociólogo Martin Endress, hoje uma análise mais objetiva é possível.

O que Karl Marx tem a ver com o marxismo, leninismo, stalinismo? Até que ponto ele é responsável pela ascensão ou a queda da União Soviética? O nome do filósofo alemão nascido em 1818 e sua obra têm sido repetidamente evocados por revolucionários e ditadores, geralmente de forma muito seletiva.

Segundo o sociólogo Martin Endress, o olhar sobre Marx foi, durante muito tempo, limitado, e só recentemente é possível avaliar sua obra de forma mais objetiva. E é praticamente impossível ignorar quanto suas análises dos sistemas de exploração do trabalho na Europa do século 19 agora se aplicam em escala global.

"O trabalho infantil, que Marx condenava e lutava para que fosse abolido, é algo que conhecemos também hoje em dia, como no caso de empresas têxteis de âmbito global na Ásia ou no Sudeste Asiático. Ali vemos um deslocamento que Marx analisou com precisão em relação ao Ocidente."

Endress é sociólogo na Universidade de Trier. Entre seus interesses de pesquisa estão teoria sociológica, teoria da sociedade, sociologia da confiança e pesquisa da resiliência. Ele é um dos organizadores do Congresso Karl Marx 1818 – 2018. Constelações, transformações, perspectivas, realizado de 23 a 25 de maio de 2018 na Universidade de Trier.

DW: Há quase 30 anos a União Soviética não existe mais. Seus líderes invocavam Karl Marx repetidamente. Com razão?

Martin Endress: Depois de 1989, a "era dos extremos" – como o século 20 foi denominado pelo historiador Eric Hobsbawm – novamente liberou um pouco a nossa visão sobre Marx. Desde então o exame do potencial analítico dessa obra deixou de ser limitado pela até então dominante concorrência de sistemas. Com isso, não estamos acima de toda instrumentalização política das análises de Marx, mas pelo menos é possível evitar o pré-julgamento unidimensional de sua obra. Pois este se baseia essencialmente no que o marxismo, leninismo, stalinismo. e outros totalitarismos como o maoísmo. fizeram de sua obra.

Então, um abuso completo de sua obra?

Claro que há partes difíceis nos escritos de Marx, sem dúvida. No entanto precisamos considerar que, em vida, apenas uma pequena parcela de sua obra foi publicada, e que se lidou com ela de forma intencionalmente seletiva. Hoje sabemos que Friedrich Engels teve uma participação significativa na reformulação dessa obra, especialmente dos trabalhos mais tardios. Mas sobretudo foi aquela primeira geração que – de Karl Kautsky, passando por Rosa Luxemburg, até Lênin – gerou e construiu aquilo que mais tarde, sob o nome de marxismo, numa alusão a posteriori a Marx, provocou distorções políticas do sistema.

A obra de Karl Marx ainda serve para analisar as circunstâncias atuais?

Há dois aspectos que mantêm uma atualidade ininterrupta. Primeiro, a obra de Marx é única na análise das condições de desigualdade social. Se a essa análise se aplica uma terminologia de classes, é, a princípio, totalmente secundário. Marx chamou a atenção, de forma inigualável, para a distribuição desigual das oportunidades e condições de vida.

Em segundo lugar, vivenciamos atualmente formas bem específicas de uma "economização" de nossas relações sociais; uma certa dinâmica do capitalismo que Marx não tinha em mente, mas que pelo efeito penetrante em todas as esferas da vida, se pode analisar de modo bem semelhante ao que Marx fez em sua época.

Uma das frases mais famosas de Marx se encontra noManifesto do Partido Comunista. Ele descreve o processo da evolução capitalista, que na época provocou uma tremenda dinamização das condições de vida. Marx escreveu a respeito: "Tudo o que se referia às ordens sociais e era estável se volatiliza, tudo o que era sagrado é dessacralizado, e os homens são finalmente obrigados a encarar com olhos sóbrios sua situação de vida e suas relações recíprocas. " O senhor vê na palavra "finalmente" (endlich) uma alegria secreta em relação a esse desdobramento?

Há um problema na formulação da palavra "endlich". Eu a interpretaria no sentido de "por fim". Marx percebe em torno de si, não tanto na Alemanha, mas sobretudo na Inglaterra, um ritmo de mudança social que ele considera fora do comum e sem precedentes. Por isso, vê que os percursos até então calmos de uma ordem social baseada por condições de vida marcadas por estratos sociais, privilégios de nascença, relações familiares bem definidas, continuariam a se romper. Seus contemporâneos eram confrontados com uma realidade que, por assim dizer, lhes tirava o chão de sob os pés.

Talvez o Manifesto Comunista  possa ser interpretado como uma espécie de atestado da globalização, ou pelo menos de uma confluência europeia. Ele descreve como a tecnologia se desenvolvia, como, por exemplo, ferrovias e redes de navegação se alastravam cada vez mais.

Certo. No entanto o próprio Marx tinha uma consciência muito clara da limitação de suas análises. Há cartas tardias, endereçadas a ativistas russos, onde ele enfatiza que suas análises foram escritas tendo em vista a Europa Ocidental. Marx era absolutamente consciente da complexidade do mundo e, por conseguinte, das limitações de sua própria vivência. Mesmo na Europa, os desdobramentos que ele descrevia eram altamente solitários. Manchester foi tomada como exemplo para a Inglaterra, mas isso era naturalmente um completo exagero. Na época, Manchester era, com sua produção têxtil, um cosmos relativamente solitário na Inglaterra. A Alemanha, de todo modo, estava bem atrasada em relação a essas condições.

E no entanto parece que ele captou bem cedo uma dinâmica que pode ser observada hoje no mundo inteiro.

O trabalho infantil, que Marx condenava e lutava para que fosse abolido, é algo que conhecemos também hoje em dia, como no caso de empresas têxteis de âmbito global na Ásia ou no Sudeste Asiático. Ali vemos um deslocamento que Marx analisou com precisão em relação ao Ocidente. Primeiro, a produção barata é transferida. Depois se desenvolvem ali, como acontece agora na China, polos de produção de maior qualidade, resultando num aumento do nível salarial.

A produção barata então emigra novamente para outras regiões do mundo, ainda mais pobres. Isto é, podemos perfeitamente observar a elevação relativa do padrão de vida enquanto a exploração permanece constante – para usar os termos de Marx. E isso já permite questionar se aquilo que Marx analisou para a Europa Ocidental não pode também ser universalizado em aspectos marcantes, ou seja, se mostra sua relevância numa perspectiva global.

Kersten Knipp (sc) | Deutsche Welle

Foto: Dupla estátua de Marx e Engels em parque em Xangai, China
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