A Indonésia integra o BRICS – um passo em frente para o Sul Global, um retrocesso para os Estados Unidos?
Mariana Nicolau* | Visão | opinião
A Indonésia junta-se ao BRICS, desafiando o equilíbrio de poderes global. Esta decisão poderá redefinir o papel do Sul Global e as relações com o Ocidente. Serão aliados ou oponentes?
A 6 de janeiro, a Indonésia formalizou a sua integração no BRICS, inicialmente formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, aos quais se juntaram Egito, Etiópia, Irão e Emirados Árabes Unidos em 2024. O bloco representa 40% da população global e 35% do PIB mundial.
Enquanto Widodo, o antigo presidente, considerou a decisão arriscada por colocar em causa a relação com o Ocidente, Subianto, Presidente desde 2024, não teve as mesmas preocupações. Após a integração, o ministro dos Negócios Estrangeiros reforçou a importância de dar voz aos países do Sul Global para equilibrar a balança de poderes e projetar a Indonésia no palco da diplomacia mundial enquanto economia emergente.
Apesar das intenções neutras da Indonésia, a sua integração numa organização fortemente influenciada pela China e pela Rússia poderá ter implicações diplomáticas com o Ocidente. Este artigo analisa as causas políticas que levaram a esta decisão fragmentária com a tradição diplomática da Indonésia, as suas implicações no palco das Relações Internacionais e no futuro do Sul Global.
Desde a sua formação como Estado independente nos anos 50 e após ter sido palco de disputas entre a União Soviética e o Ocidente aquando da Guerra Fria, a Indonésia tem-se apresentado como membro não-alinhado, relativamente neutro aos dois blocos. No entanto, o seu posicionamento anticomunista durante a ditadura de Sukarno, que encabeçou purgas violentas contra a ideologia vigente na China e URSS, aproximava o país dos objetivos dos Estados Unidos. Por essa razão, o país era apontado como um silencioso aliado do Ocidente, enquanto escondia antigas contendas com a China, identificada como culpada pelo crescimento do comunismo no país. A Indonésia tem-se mantido vigilante do extremismo islâmico, bem como de ideologias de esquerda, conservando uma posição nacionalista de direita há mais de meio século.
O panorama diplomático alterou-se significativamente com a subida de Yudhoyono ao poder em 2004 sob o lema “mil amigos e zero inimigos”. No entanto, a China nunca foi considerada aliada, principalmente em 2016, quando as disputas territoriais no Mar do Sul da China deterioraram as relações com Beijing.
Com a eleição de Subianto, mais nacionalista e pró-militarização que Jokowi, a já há muito discutida integração no BRICS formalizou-se. Com a polarização crescente entre os dois eixos e o isolamento dos Estados Unidos, reforçado pela tomada de poder de Donald Trump, a Indonésia ficaria associada ao eixo Rússia-China, opondo-se ao seu tradicional posicionamento diplomático.
Mas porque poderá a integração nos BRICS afastar a Indonésia do Ocidente? A resposta está nas intenções de desdolarização da economia e eventual criação de uma moeda única para a organização, ideia que não agradou aos Estados Unidos. Na verdade, a organização quer independentizar-se do eixo Ocidental e apresentar-se como uma alternativa ao clássico G7. Como primeiro país do Sudeste Asiático a juntar-se ao BRICS, a Indonésia pode abrir caminho a outros países outrora pró Ocidente, como a Tailândia e a Malásia.
Sob outra perspetiva, este passo significa um aproximar do Global South, anteriormente não-alinhado, à Rússia e à China. Reforça que, apesar das sanções do Ocidente, a Rússia continua a ter valiosos aliados. Isto não significa que o BRICS seja um “clube anti-Ocidente”. No entanto, o conflito na Ucrânia desenhou dois lados distintos – os que apoiam e os que sancionam a Rússia.
Existe ainda uma terceira perspetiva – a do mundo islâmico. A Indonésia, a mais populosa democracia islâmica do mundo, junta-se agora ao Egito e aos UAE. Com o apoio dos Estados Unidos a Israel durante o conflito na Palestina, vários países islâmicos, incluindo a Indonésia, interpelaram o Ocidente para que reconheça a Palestina e para que cesse o apoio a Israel – o que reforça o afastamento dos Estados Unidos.
Em conclusão, esta notícia significa um fortalecimento para o Sul Global enquanto atores essenciais no palco mundial e um possível crescimento do apoio à China e à Rússia. Quanto ao Ocidente, o risco de perder aliados valiosos no Sudeste Asiático é iminente e tem tendência a piorar com as atitudes irracionais de Trump no futuro. Foque-se o seguinte: o Sul Global deve ser tomado em conta, o seu apoio deve ser procurado, e o seu papel no equilíbrio East – West não deve ser menosprezado, partindo a velha muralha entre “mundo desenvolvido” e “em desenvolvimento”.
* Mariana Nicolau - Historiadora e investigadora especializada
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