terça-feira, 8 de outubro de 2013

Criminalização do imigrante produziu tragédia em Lampedusa, diz sacerdote italiano

 


Giorgio Trucchi, Manágua – Opera Mundi
 
Don Virginio Colmegna, da fundação italiana Casa della Carità, também condenou desinteresse dos países europeus não diretamente afetados pelo problema
 
O drama vivido na pequena ilha de Lampedusa, em território italiano, a 205 quilômetros da ilha da Sicília e a 113 da costa da Tunísia, é algo que beira o inimaginável. Segundo números das forças de resgate italianas, o naufrágio nesta quinta-feira (03/10) de um barco que transportava 500 imigrantes deixou até o momento 111 mortos – a grande maioria mulheres e crianças. Mais de 200 pessoas continuam desaparecidas, provavelmente ainda presas aos restos da embarcação no fundo do mar. Cento e cinquenta pessoas foram resgatadas com vida.
 
De acordo com a OIM (Organização Internacional para as Migrações), cerca de 25 mil pessoas morreram nas últimas duas décadas tentando cruzar o Mar Mediterrâneo a partir do Norte da África. O recente ato dessa tragédia anunciada que se repete sem parar desencadeou novas e fortes polêmicas, com ataques crescentes à legislação imigratória italiana, que criminaliza e persegue esses estrangeiros.

Don Virginio Colmegna, sacerdote e presidente da fundação italiana Casa della Carità, que atua em Lampedusa, comentou em entrevista a Opera Mundi o naufrágio dessa semana e ressaltou que, em sua opinião, já não se pode falar de uma tragédia, mas de uma “arrepiante normalidade”, feita de “leis equivocadas, medidas repressivas frente ao fenômeno imigratório e desinteresse dos países europeus não diretamente afetados pela chegada de milhares de imigrantes”.

Opera Mundi: Qual é a raiz desse novo drama humano?

Virginio Colmegna: Está em situações muitos complexas, que têm a ver com a situação dramática que vivem países sacudido por fortes conflitos internos, que levam famílias inteiras a viajar em condições desumanas para sair dessa condição e consequentemente se tornando presas de redes criminosas. Além disso, há também as políticas e legislações nacionais e europeias, marcadas pelo medo, a falta de abertura e a criminalização do imigrante.

O drama humano que estamos vivendo hoje não é, nem será, o último. Se a política não começar a enfrentar esse problema, a assumi-lo como parte de uma dimensão humanitária, que posteriormente será ampliada para a política, teremos novas e sempre mais dramáticas tragédias anunciadas, que já se tornaram uma arrepiante realidade.

OM: Laura Boldrini, presidente da Câmara de Deputados, disse que depois desse naufrágio, “nada será como antes”. O que o senhor acha dessa afirmação?

VC: Entendo sua reação e compartilho dessa impressão, mas, para que isso se torne uma verdade, é preciso agir imediatamente a nível legislativo e cultural. Nesse momento, por exemplo, estamos vivendo uma situação totalmente surreal, um paradoxo, onde, graças à Lei Bossi-Fini, os 155 sobreviventes podem ser investigados, acusados pelo delito de “imigração ilegal” e sujeitas a pagar uma alta multa antes de serem expulsas.

Além disso, a legislação italiana complicou os trâmites e restringiu a aceitação dos pedidos de asilo, obrigando grandes quantidades de pessoas perseguidas em seus países e que nada têm a ver com o fenômeno imigratório clássico, a entrar num espiral de ilegalidade. Definitivamente, temos uma legislação que gera ilegalidade, confusão, paradoxos e a criminalização do imigrante. Os criminosos se aproveitam disso.
 
OM: As autoridades italianas foram a Lampedusa e expressaram seus pêsames pela tragédia. Qual é a sua impressão sobre isso?

VC: Penso nas palavras do Papa Francisco durante sua visita a Lampedusa, quando falou da “globalização da indiferença”. Se o problema é principalmente político, é preciso começar a fazer gestos concretos, e não ficar somente na especulação e no debate, que servem para criar o consenso o contrassenso eleitoral.

Temos mortos, dramas humanos, uma verdadeira hecatombe. O Mar Mediterrâneo se tornou um cemitério. Não podemos nos calar, senão a “globalização da indiferença” irá se transformar em uma “globalização das responsabilidades”.
 
OM: Como o senhor define a atitude da Liga Norte, que acusou Boldrini e a ministra Cécile Kyenge, de origem congolesa, de serem corresponsáveis por essa tragédia?
 
VC: Nem vale a pena falar deles. É uma vergonhosa manobra em busca de ganhos políticos. Não levam em conta a realidade desse drama humano, dessa crise da nossa civilização. Há mulheres com crianças que sofreram muito, cujos olhos refletem o horror vivido nesses países. Pessoas que agora serão fagocitadas pelo sistema repressivo imigratório, trancadas em Centros de Identificação e Expulsão. É preciso fazer algo.

OM: Quais são os passos mais urgentes a serem tomados para mudar essa dinâmica que produz tantas vítimas?

VC: É preciso criar de imediato um “corredor humanitário”, para tirar as famílias das garras dos grupos criminosos que lucram com esse mortal negócio. Também, “esvaziar” Lampedusa, com projetos sérios para que todo o país assuma a presença dessas pessoas, as acompanhando com uma mensagem de civilidade, educação e disponibilidade. Finalmente, é necessária uma profunda mudança da legislação imigratória nacional e das políticas europeias.
 
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