domingo, 17 de janeiro de 2016

O AMOR RIGOROSO QUE FAZ REMOVER MONTANHAS




1 – Na luta contra o colonialismo do Estado Novo em Angola, precisamente por causa das imensas riquezas do país, houve várias questões que diziam já respeito às convicções que estavam presentes no tabuleiro africano e deixou muitas vezes confundida a própria OUA, entre elas o que dizia respeito efectivamente ao Movimento de Libertação e o que ficava preso ao etno-nacionalismo.

Foi por isso muito mais difícil à OUA compreender o que se passava em Angola, do que compreender o que se passava na Guiné Bissau, em Moçambique, em Cabo Verde ou em São Tomé e Príncipe.

A incessante busca pela unidade e coesão era uma questão fulcral para o Movimento de Libertação e continua a sê-lo hoje, devido às dificuldades em criar a identidade nacional, apesar de Angola nesse aspecto ter condições humanas distintas em relação ao continente, que uma vez mais se revelaram com o Censo Populacional e Habitacional realizado em 2014: a esmagadora maioria de sua população vive longe das fronteiras!

Essa busca pela unidade e coesão, era já uma medida prática de contra inteligência que entidades eventualmente agenciadas pelos serviços de inteligência dos estados retrógrados tinham muita dificuldade em enfrentar.

A presença de etno nacionalismos em Angola, ao contrário das outras colónias como a Guiné Bissau e Moçambique, possibilitou a superação do Movimento de Libertação em termos de unidade e coesão em torno do líder, uma dificuldade maior dos serviços de inteligência dos países retrógrados, pois não o conseguirem abater como aconteceu com Eduardo Mondlane (3 de Fevereiro de 1969) líder da FRELIMO, Amílcar Cabral (20 de Janeiro de 1973) líder do PAIGC e, mais tarde, em outras circunstâncias e com outros meios, Samora Machel (9 de Outubro de 1986) Presidente de Moçambique!

Podiam ir tentando dividir, podiam até provocar revoltas (como a “Revolta Activa”, ou a “Revolta do Leste”), mas a unidade e coesão em torno do líder foi garantida pelo Presidente Agostinho Neto no tempo das guerrilhas e depois da independência proclamada, no seu entorno e é isso que se tem de procurar garantir com o Presidente José Eduardo dos Santos, mais ainda agora com a construção da paz, a possibilidade do aprofundamento da democracia e a necessidade de luta contra o subdesenvolvimento, apesar dos impactos nefastos do capitalismo neo liberal e das políticas de ingerência e manipuladoras levadas a cabo pela potências e entidades multinacionais que alinham no quadro da hegemonia unipolar.

A descolonização de Angola foi assim um processo turbulento em 1975 que se arrasta afinal até aos nossos dias com guerra ou com paz, algo que ainda se prolongará e não se reduz às formalidades, antes passa pela amplitude da antropologia cultural com que se debate Angola, África e a humanidade, onde o vigor da luta contra o subdesenvolvimento está hoje efectivamente à prova enquanto prioridade e é parte integrante da lógica com sentido de vida, por que razões de sobrevivência colocam-se ainda a todos os países que compõem a cauda dos Índices de Desenvolvimento Humano, maioritariamente africanos, Angola incluída!

Na situação de paz, de aprofundamento da democracia e de luta contra o subdesenvolvimento, inventariarem-se e entenderem-se as razões profundas da guerra e da paz, do rumo que o Movimento de Libertação em África transmite hoje a Angola e a África por via da lógica com sentido de vida, bem como das causas profundas que animaram os mentores das correntes mais retrógradas e de como eles o fizeram, torna-se um interesse de primeiro plano, para a salvaguarda das conquistas que podem possibilitar o renascimento africano!
  
2 – No período colonial os aliados dos angolanos do Movimento de Libertação em África distendiam-se, desde os países socialistas, aos comités de apoio disseminados por todo o mundo, às entidades mais progressistas do continente.

Em África foi um Presidente como Julius Nyerere que mais se distinguiu na percepção da luta armada que se havia de travar contra o colonialismo e o neo colonialismo e não é por acaso a sua experiência socializante na Tanzânia, nem o prestígio enquanto alfobre progressista da Universidade de Dar es Salam, nem o facto da efémera guerrilha do Che no Congo, entendido como o fulcro de África, ter partido do leste do Lago Tanganika!

O Che experimentou no Congo o que era um etno nacionalismo, mas essa experiência traumática possibilitou a Cuba Revolucionária, através da IIª coluna do Che (em Brazzaville), reforçar o Movimento de Libertação em África e multiplicar os Vietnames heróicos que fizeram face ao colonialismo, ao “apartheid” e às suas sequelas.

O Presidente Julius Nyerere conseguiu perceber o jogo das inteligências das potências, colectar aliados para a causa da Libertação em África e alimentar correntes progressistas pelo menos no continente, na América Latina e na Europa!

Foi por vezes um advogado solitário do Movimento de Libertação em África, um advogado que teve a persistência e a paciência de esperar por outros que só depois chegariam ao nível de sua consciência, compreensão e dimensão progressista.

3 – A revolução cubana por seu turno, que tanto bebeu em sua história de ensinamentos do que à escravatura, colonialismo e neocolonialismo dizem respeito, foi a partir de fora do continente a aliada principal do Movimento de Libertação em África, a ponto do Che, que mantinha a necessidade da luta por via do fulcro (de acordo inclusive com o contacto tido com o MPLA a 2 de Janeiro de 1965, fez agora 51 anos), ser afinal também um dos maiores expoentes da Tricontinental!

Criar “dois, três Vietnames”, proclamava ele com toda a legitimidade de quem se identificava com os povos oprimidos de todo o Mundo.

Em África, em relação ao colonialismo e ao “apartheid” foi com os “Vietnames” que o anacronismo retrógrado e fascizante foi derrotado, quanto mais não fosse em função do “síndroma do Vietname”que teve efervescência nas sociedades sujeitas aos poderes mais teimosos e despóticos, assim como por dentro até dos seus instrumentos mais perversos de poder!

A Revolução Cubana, que foi isolada na América Latina face à Operação Condor e à emergência das ditaduras e das oligarquias agenciadas pelo império, encontrou nos anos decisivos da década de 70 e 80 do século passado e em África, uma das expressões mais convincentes de sua inteligência, solidariedade e internacionalismo!

Nem Salazar (depois Marcelo Caetano), nem Ian Smith, nem os Botha, nem Mobutu, nem Savimbi, cada um a seu modo, foi invulnerável ao “síndroma do Vietname” nos respectivos espaços geo-sócio-políticos e isso deveu-se imenso à aliança, que soube cultivar unidade e coesão, do Movimento de Libertação em África e da Revolução Cubana, o mais activo dos Não-Alinhados em relação ao continente-berço!
  
4 – Em Portugal foi assim com o 25 de abril de 1974 e o Movimento das Forças Armadas, cujos membros, duma forma geral, acabaram por perceber o que dizia respeito ao Movimento de Libertação em África e o que dizia respeito ao etno nacionalismo, especialmente no caso angolano, até pela leitura interna que tiveram de fazer em relação à evolução da situação em Portugal, a ponto de terem de afastar o General Spínola dos mecanismos de poder!

 A derrota do General Spínola foi nesse sentido uma expressiva vitória (ainda que efémera) das forças progressistas do MFA e da sua clarividência no ambiente sócio-político português da época!

Por outro lado, o Movimento das Forças Armadas Portuguesas, percebeu também que as doutrinas de contra insurreição resultantes de abordagens estruturalistas dos fenómenos, ao não levarem em consideração a dialéctica inerente às sociedades humanas, faziam parte da decadência dos conceitos retrógrados e residuais, na Europa e em África, do fascismo, do colonialismo, do“apartheid” e de suas sequelas.

Na América Latina, com a avaliação séria da Operação Condor e do carácter das ditaduras disseminadas nas décadas de 70 e 80 do século passado, os progressistas identificaram e isolarem as doutrinas, as ideologias e as práticas ultra conservadoras de que faziam uso o império e as oligarquias agenciadas, contrapondo por dentro da Igreja Católica e Apostólica Romana a Teologia da Libertação, que hoje se faz sentir como um potencial de renascimento das amplas capacidades progressistas na América Latina e do próprio Vaticano, conforme ao Papa Francisco, originário da Argentina, a mesma pátria do Che!

Essa possibilidade foi entendida pela vanguarda revolucionária cubana sob a direcção do Comandante Fidel (que tirou sabiamente muitas lições do empenho internacionalista em África), assim como pelo esclarecido líder Comandante Hugo Chavez, criador do Partido Socialista Unificado da Venezuela numa plataforma que aproveitou coligações com sectores marxistas do país, um dos criadores da integração progressista na América Latina e um dos impulsionadores da Revolução Bolivariana! 

Fotos:
- Ainda sob os olhos silenciosos de Agostinho Neto;
- General Giap e Ho Chi Min, heróis da humanidade;
- O Comandante Fidel bebeu no Vietname a sabedoria pela Libertação dos Povos, no ambiente conturbado da Guerra Fria.

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