quarta-feira, 30 de maio de 2018

DECAPITADOS | Continua perseguição de suspeitos de ataque no norte de Moçambique

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Polícia moçambicana persegue suspeitos de terem decapitado 10 pessoas, no norte do país, e que serão membros de um grupo com ligações ao radicalismo islâmico.

"Foram 10 concidadãos que perderam a vida" depois de terem sido atacados com catanas, perto da localidade de Olumbi, a 45 quilómetros da sede do distrito de Palma, referiu Inácio Dina, porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM), em conferência de imprensa esta terça-feira (29.05), em Maputo.

Os crimes aconteceram em povoações situadas no meio rural, no meio do mato, sem eletricidade nem outras infraestruturas e em dois momentos distintos.

Primeiro, ao nascer do dia, na aldeia de 25 de Junho, o grupo cruzou-se com dois adolescentes, de 15 e 16 anos. Os dois residentes seguiam a rotina e dirigiam-se para a caça de pequenos animais, para alimentação, quando morreram depois de terem sido intercetados pelos agressores. Na mesma aldeia, o grupo, em número e com características não especificadas pela PRM, decapitou três adultos, referiu Inácio Dina. Ao cair da noite, e numa altura em que a população da zona já estava em alerta, o grupo decapitou outras cinco pessoas residente na aldeia de Monjane, acrescentou.

Ataques em aldeias do meio rural

Segundo o porta-voz, os indícios apontam para que os agressores façam parte do mesmo grupo que matou agentes da polícia com metralhadoras e sitiou a vila de Mocímboa da Praia durante dois dias em outubro de 2017 e que desde então tem feito ataques esporádicos em aldeias do meio rural da região.

"Este é um grupo que foi amplamente fragilizado", referiu Inácio Dina, numa alusão à ação das forças de defesa e segurança naquela zona. 

Os crimes ocorridos no último domingo (27.05) representam "um total desespero, em tentar buscar algum protagonismo", acrescentou, contrariando a ideia de que esta escalada de violência signifique um aumento da ameaça à segurança em Cabo Delgado. Pelo contrário, refere, os agressores procuram "fazer vincar que este grupo ainda existe", fazendo crer que "tem uma musculatura" que, segundo a PRM, não tem.

Nenhuma detenção até agora

A polícia e outras forças posicionadas no terreno iniciaram a perseguição ao grupo logo que tomaram conhecimento do sucedido, conforme indicou Inácio Dina. Ainda não foi feita qualquer detenção. "Tudo quanto está a ser feito é encontrar estes indivíduos para os colocar na prisão para a devida responsabilização de forma copiosa como tantos outros já os colocamos a barra do tribunal para serem responsabilizados".

Questionado sobre o ambiente que se vive neste momento nas duas aldeias atacadas no último domingo Inácio Dina afirmou que "neste momento o ambiente nós descrevemos como estacionário, as pessoas estão a voltar normalmente a consciência e a voltar as suas vidas". O porta-voz da Polícia revelou que em ligação com os ataques levados a cabo na província de Cabo Delgado, desde outubro ultimo a polícia já deteve cerca de 300 pessoas entre moçambicanos e estrangeiros, dentro e fora do país.
Violência politicamente motivada?

Para o docente de estudos de paz e conflitos e estudos de segurança internacional, Calton Cadeado, a principal coisa que todos querem perceber neste momento é se os recentes ataques, que descreveu como um ato bárbaro, têm algo a ver com violência politicamente motivada.

A DW África pediu a opinião do académico em relação ao fenómeno de decapitação usado pelos atacantes no último domingo.

Calton Cadeado observa que o modus operandi do crime ainda é pouco esclarecedor uma vez que as informações disponíveis são escassas, mas considera que apesar de várias pessoas associarem o acto a violência politicamente motivada no âmbito do terrorismo, ele tem cautelas em correr para essa definição. E explica porquê:

"É importante pegarmos estes factos de outubro a esta parte, é importante pegarmos as alegações que se tentam fazer de associação ao terrorismo mas esta ligação tem que ser feita com muita cautela porque ainda é uma coisa nova na nossa realidade em Moçambique e não podemos descurar que já houve outros casos de decapitação de pessoas (no passado em Moçambique durante o conflito armado). Então é preciso juntarmos muitas peças para percebermos esta realidade".

O académico Calton Cadeado antevê vários cenários nomeadamente um aumento da vigilância popular que providencie ao Estado informação para chegar a estas pessoas que protagonizam os ataques e até agora são desconhecidas. Um outro cenário é o aumento deste tipo de ataques caso a opção pelo aumento da vigilância popular não funcione. Mas admite também um cenário ideal em que com a vigilância popular.

"Vai-se apertar o cerco a estas pessoas desconhecidas e provavelmente daqui a curto e médio prazo estas acções podem ser diminuídas até porque este tipo de crimes vai aumentar a condenação social de qualquer grupo que queira se implantar na zona".

Destabilização feitas por células dispersas

Uma investigação baseada em 125 entrevistas em Cabo Delgado, divulgada na última semana, concluiu que a destabilização é feita por células dispersas que usam o radicalismo islâmico para atrair seguidores, aos quais pagam rendimentos acima da média, financiados por rotas de comércio ilegal de madeira, rubis, carvão e marfim, daquela região para o estrangeiro.

Estes grupos incluem membros de movimentos radicais que têm sido perseguidos a norte pelas autoridades do Quénia e Tanzânia, refere o mesmo estudo, segundo o qual alguns elementos terão sido treinados por milícias da região dos Grandes Lagos que por sua vez também têm ligações ao grupo terrorista al-Shabaab, na Somália.

Os ataques surgiram numa altura em que estão a avançar os investimentos no terreno para exploração de gás natural em Cabo Delgado, prevendo-se que a produção arranque dentro de cinco a seis anos, no mar e em terra, com o envolvimento de algumas das grandes petrolíferas mundiais.

Leonel Matias (Maputo), Agência Lusa | em Deutsche Welle | Foto: Cidade de Pemba, Cabo Delgado
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