quinta-feira, 18 de abril de 2019

Assange é um traidor? E as redes sociais?


Os mesmos que se escandalizam com as brechas de segurança de Assange são os que permitem que dados de cidadãos comuns sejam usados, vendidos, trocados pelas plataformas e redes sociais.

Catarina Carvalho | Diário de Notícias | opinião

Julian Assange está nas mãos da justiça britânica. Nesta semana vimos fotos dele a ser preso em Londres, onde estava exilado na Embaixada do Equador. A sua cara mais arredondada, barba grande, espreitando pelo vidro baço de humidade do carro em que o transportaram, o ar desmazelado, tudo o que hoje sabemos dele, as suspeitas de chantagem, as simpatias por determinadas fações ou poderes externos... e parecia que tínhamos dado um salto anacrónico.

Um traidor é um traidor? Depende do ângulo de onde se observa. Assange será assim sempre considerado pelos Estados Unidos - pelas vidas que pôs em risco com as informações que divulgou. Informações militares obtidas através do conluio com uma hacker com acesso ao sistema - Chelsea Manning. No mundo, há quem se divida sobre o assunto, até porque foram reveladas práticas controversas em algumas operações especiais.

O que Assange ajudou a revelar foi importante, e essa revelação não pode ser criminalizada. É para isso que o bom jornalismo serve, para avaliar se os cidadãos precisam de conhecer segredos (ou se os Estados abusam dele). Também por isso o processo contra Assange está a ser firmemente informado - para que não toque na questão da liberdade de informação nem no ataque ao jornalismo livre (que tantas vezes se usou de denunciantes para operar verdadeiras transformações na sociedade).


Mas tanto aconteceu depois de Assange, tanto que alguns dos crimes de que está acusado parecem hoje notas de rodapé na triste história, quase uma tragédia, dos dados pessoais, da privacidade, dos cibercrimes que os expõem. No tempo em que Assange foi preso, todos acreditávamos estar mais seguros do que ele nos começou a mostrar que estávamos. Depois dele, percebemos em catadupa e com muito mais profundidade o perigo que todos corríamos - e corremos. Não apenas por razões militares. O grau de vigilância a que estamos sujeitos na nossa vida privada é muito maior do que alguma vez julgávamos possível, sem que a nossa sociedade passasse a ser uma distopia. Ou será que já é? Pior, visto neste túnel do tempo, a NSA estará longe de ser o mais perigoso dos nossos vigilantes.

É curioso verificar como o próprio Assange terá evoluído na sua luta - há suspeitas de que terá interferido nas eleições americanas, por exemplo, entrado nos servidores de uma coligação anti-Trump, tendo partilhado a password com a campanha do candidato eleito, que terá praticado extorsão, no Equador, e que ter-se-á aliado a potências estrangeiras. Tudo pormenores que não o qualificam como um paladino da liberdade nem tão-pouco da liberdade de expressão. Muito pelo contrário.

Não pode haver hoje dúvida absolutamente nenhuma de que as ações de Assange não tiveram, nem de longe nem de perto, efeito semelhante ao que assistimos nas redes sociais. Ou na internet 2.0, a que potencia a interatividade e traz para dentro do mundo cibernético uma grande fatia da nossa vida social.

Ainda nesta semana foram revelados dados que indicam que milhares de utilizadores dos smart speakers da Amazon tiveram a possibilidade de ter as suas conversas mais íntimas escutadas, nas suas próprias casas, por funcionários daquela empresa que lhes fornece mais este "periférico" tecnológico das suas vidas.

Na guerra das informações, é natural que os Estados tenham segredos - até para proteger os seus. Mas não é nada natural que governos de democracias modernas reajam de forma tão violenta contra alguém e de forma tão branda para com essas plataformas de uso de dados pessoais. Os Estados precisam de segredos como os cidadãos de privacidade. Sem uns e sem os outros é possível que as democracias como as conhecemos não tenham, afinal, assim tanto futuro. E é a esta luz que, de ambos os lados, devemos olhar para Assange.

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