domingo, 6 de outubro de 2019

Reflexões em dia de eleições em Portugal e a pensar em Angola


António Jorge* | opinião

Pela boca morre o peixe!

Se a nossa língua é a pátria... mais que a própria geografia do país onde nascemos ou vivemos...

- Se assim é... como é que a África e os países e povos africanos que tem uma língua oficial estrangeira... geralmente acessível apenas às elites e assimilados... e que foi imposta pelo colonialismo... responsável por séculos de escravatura.. como idioma exclusivo ou oficial... se podem libertar algum dia?

- E se a este facto juntarmos a discriminação e desvalorização que é feita às línguas africanas... onde milhões de crianças, (a maioria) por não falarem a língua adoptada como oficial, estão afastadas do sistema de ensino... e crescerem sem puderem ter acesso aos conhecimentos elementares... e que vivem na pobreza e nunca terão uma profissão condigna... transformados apenas... em biscateiros, varredores, lavadores de carros, carregadores, aguadeiros, catadores de lixo, vendedores de rua... prostitutas, traficantes ou como bandidos para sobreviverem e encherem as cadeias.

Como podem os Não alfabetizados no idioma oficial compreender e participar da vida colectiva de um país... como Angola que eu conheço.

- Ser um ser normal, numa escola, ter uma profissão, ter esperança e ter futuro?

Houve devido às várias guerras no passado em Angola, e por razões de sobrevivência também, um êxodo... milhões de pessoas que fugiram das suas terras para as cidades... principalmente para Luanda... hoje com mais de oito milhões de habitantes... e que pela aculturação e urbanização... muitos hoje comunicam em português... claro que deficientemente, por conhecerem apenas alguns dos vocábulos da língua de Camões... e de Fernando Pessoa... que afirmou certa vez... "a minha pátria é a língua portuguesa"... e sabemos que é assim, nomeadamente quando nos encontramos na diáspora.

Esta dependência da língua portuguesa continuará a fazer com que... a libertação seja uma miragem... já que a aculturação continua a ser feita neste idioma... e agora de forma massiva e geral na sociedade angolana... e reforçada ainda pelos meios de comunicação em massa... nacionais e estrangeiros.

- Angola deveria ser constitucionalmente... no mínimo um país bilingue... e ter um sistema de ensino universal para todos, (como se comprometeu nas Nações Unidas) com a criação de escolas primárias e professores em línguas nacionais para as crianças nascidas e criadas nas línguas maternas, como transição para a língua oficial, de acordo com as principais línguas de Angola sem prejuízo e do aproveitamento das capacidades cognitivas das crianças, da sua cultura antropológica e como processo de extrapolação de um sentimento nacional abrangente e único.

*António Jorge - editor e livreiro em Angola

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