quarta-feira, 1 de junho de 2011

A DEMOCRACIA EM ANGOLA, UMA ILUSÃO





“Neste artigo, Newman debate a convençaõ de chamarmos o governo angolano de uma democracia, pois isso não passa de uma falácia político e partidária. O que há em Angola é uma impunidade que é aprovada pelas instâncias políticas tanto nacionais quanto internacionais, gerando aquilo que o autor denomina de endocolonialismo. O povo angolano continua sofrendo, pois, com a ditadura de Eduardo dos Santos e a conveniência de seus partidários”

A ditadura de JES/MPLA não pode continuar a ser disfarçada de “democracia” eternamente com a impunidade interna e internacional de que vem gozando sob pena de estar-se assim a engendrar turbulência com que, mais dia menos dia, as cidadãs e cidadãos, reagirão a esse regime. A percepção realista pelo povo das circunstancias políticas que nos vêm sendo impostas como sendo as dum endocolonialismo já é mais abrangente do que parece e ou o regime quer fazer parecer. É essa percepção realista da situação o que vai operar a mudança qualitativa na atitude das cidadãs e cidadãos, e que já é o processo que á está a gerar a democracia em luta contra a “democracia” de JES/MPLA. Nota do angolaresistente

De passagem em Luanda, há duas semanas, tive a possibilidade de encontrar o meu amigo Kibuba, antigo membro da ODP, um homem clarividente com uma grande capacidade de análise. Enquanto falávamos da situação política do nosso país, o meu amigo fez-me uma confidência.Segundo ele, “explicar não é justificar” e que qualquer comportamento, tão incôngruo que seja, tem sempre uma explicação. Mas, acrescentou, explicar um comportamento não o justifica para tanto.

Queria fazer referência às explicações fornecidas pelo camarada Presidente da republíca a respeito da pobreza e das suas contas nos bancos estrangeiros. Esta afirmação do meu kamba Kibuba, que qualquer pessoa de bom senso é suposta compreender, interpelou a minha inteligência ao ponto de interrogar-me sobre a maneira como a democracia é construída no nosso país.

Esforços, embora tímidos, são fornecidos pela classe política para conceder ao povo a possibilidade de exercer plenamente a sua soberania, mas ao visto dos resultados, não são suficientes para responder às esperas da população. Então, pergunto-me porque os movimentos de liberação que se converteram em partidos políticos têm problemas com a democracia quando estâo no poder?

A minha interrogação não se limita apenas à Angola. Na maioria dos países africanos cujos povos foram libertados do colonialismo ou de qualquer ditadura pela força das armas, a situação é similar. Observamos que o movimento de libertação libera o povo e, imediatamente, sem consultar este mesmo povo, toma o lugar do antigo mestre e todos privilégios esquecendo as razôes que motivaram a sua luta.

No início, na euforia da libertação, o povo não faz muito atenção ao comportamento dos novos mestres. É subjugado pelo acto patriótico realizado pelos libertadores. É após muitos anos que começa a notar as semelhanças com o antigo mestre. Então pergunta-se se não valeu a pena permanecer com os antigos mestres.

O meu amigo Kibuba, aquele kota clarividente, explica esta atitude pelo fato que os movimentos de liberação, qualquer que seja a sua natureza, não têm, na maioria dos casos, uma cultura da democracia. Pelo seu funcionamento, são estruturas submetidas a um certo rigor. O chefe não tolera nenhuma contestação e o debate não tem espaço dentro do movimento de liberação. Quando chegam ao poder após vários anos de uma vida de clandestinadade, são incapazes mudar, evoluir.

Permanecem, por razões que lhes estão próprias, fechados muito tempo, numa lógica de predominância. São eles os libertadores. Sacrificaram a sua juventude, consentiram sacrifícios de modo que o país acedesse à independência. É normal, de acordo com a sua lógica, que o poder seja a sua recompensa. Então, arrogam-se o direito de vida e de morte sobre o resto da população.

Mas dado que a opinião internacional vigia, procuram dar a impressão que são democratas, organizando, ocasionalmente, congressos que não trazem nada de novo, eleições que são sempre fraudulentas ou fazem reformas que beneficiam apenas à eles mesmos.

O Zanu no Zimbabwe, o Mpla em Angola, o Afdl em Rdc, o Fpr no Ruanda ou o Mpo no Uganda são exemplos entre outros que ilustram as explicações do meu kamba Kibuba. Nestes países dirigidos por movimentos de liberação que converteram-se em partidos políticos, o chefe acredita ser investido de um poder de Deus. Ele é imutável. Se for necessário, confecciona-se uma constituição à sua medida. É ele, o libertador.

Em Angola, 20 anos após as primeiras eleições legislativas, o Mpla continua a comportar-se, perante o seu povo, como um movimento de liberação. Uma atitude que ainda se reforçou com a sua vitória sobre as forças da Unita em 2002. Para os camaradas, o povo angolano é endividado ao Mpla. Uma eventual mudança de comportamento só será possível quando a geraçâo daqueles que estiveram no mato durante a luta de libertaçâo desaparecer.

Do vosso ponto de vista, achais que as explicações do meu kamba Kibuba justificam o comportamento do partido governante em Angola?

Fonte: http://www.pambazuka.org

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