domingo, 4 de dezembro de 2011

EUA: MOVIMENTO “OCCUPY” VOLTA-SE PARA PROBLEMAS LOCAIS





Ativistas diversificam reivindicações nas manifestações "Occupy" em Nova York, protestando contra a segurança pública e estratégias da polícia local.

Quando começou o inverno e os manifestantes do movimento "Occupy" surgiram de seus acampamentos nos Estados Unidos, muita gente se perguntou o que estava por trás deste movimento sem base geográfica definida, líderes ou demandas concretas. Se Nova York, onde o "Occupy" começou, serve de indicador neste sentido, o movimento deverá, no futuro, se voltar mais para questões relacionadas à justiça social em âmbito local e específico, com demandas ligadas à causa defendida pelo movimento, ou seja, a de uma sociedade mais igualitária.

Desde outubro último, uma mistura eclética de manifestantes de todas as idades e origens étnicas tem ocupado os acessos às delegacias de polícia em Manhattan, Brooklyn e Queens. Eles reivindicam o fim da prática de "parar e revistar" do Departamento de Polícia de Nova York. Pela lei, se um policial tem suspeitas razoáveis de que alguém cometeu algum crime ou está prestes a fazê-lo, pode parar a pessoa e interrogá-la. Se o policial suspeita que a pessoa está armada, pode também revistá-la.

Prática controversa

A prática, porém, tem sido posta em xeque desde que o número de abordagens policiais começou a crescer de forma considerável - de menos de 100 mil, em 2002, para mais de 600 mil no último ano. Aproximadamente 85% das pessoas abordadas são de origem negra ou latina, apesar de estes grupos étnicos constituírem 52% da população da cidade.

O Departamento de Polícia nova-iorquino não quis conceder entrevistas, mas argumentou que a ação é uma ferramenta essencial de segurança pública, que mantém as armas fora das ruas e contribui para a redução da criminalidade na cidade. A polícia rejeita as insinuações sobre o perfil racial dos abordados, que indicam que a prática ocorre em áreas onde as comunidades negras ou latinas são predominantes. A explicação, conforme o Departamento, é a de que a polícia concentra seus esforços onde os índices de criminalidade são mais altos

Mesmo assim, a prática se mostra bastante controversa, sendo a principal causa de reclamações contra os policiais. Eric Adams, senador do Estado de Nova York e ex-capitão da polícia, e o presidente da comunidade de Manhattan, Scott Stringer, têm solicitado que os atos da polícia sejam investigados pelo Departamento de Justiça.

Em 2008, o Centro de Direito Constitucional cumpriu uma ação judicial de nível federal contra o Departamento de Polícia de Nova York. Até setembro, porém, não ocorriam concentrações de ativistas nas unidades policiais. O "Occupy Wall Street" mudou isso. Em 21 de outubro, manifestantes cruzaram os braços em um protesto pacífico em frente ao 28° distrito policial do Harlem. Cerca de 30 pessoas foram presas, entre elas um jornalista e Cornel West, professor da Universidade de Princeton.

"Occupy Wall Street" chega ao Brooklyn

Dez dias depois, cerca de 125 manifestantes marcharam para o Fort Plaza, em Brownsville, no Brooklyn, a área do 73° distrito policial, que fica entre uma casa de detenção de jovens e um dos vários conjuntos habitacionais espalhados pelo bairro.

A diversidade de manifestantes foi marcante, em uma vizinhança composta por 95% da população de origem negra e latina. O protesto contou com jovens de "colégios brancos", como Sherrod Hays, que nunca havia participado anteriormente de protestos junto a habitantes de Brownsville. O estudante Hays considera que protestos contra a prática de "parar e revistar" já deveriam há muito ter sido cessados. "Todo dia estamos sendo interpelados", disse.

Nos protestos de rua, a marca do movimento "Occupy" podia ser vista em toda parte. Eram desde evocações sobre o "99%" ("We are 99%", um dos slogans do Occupy Wall Street) até o uso do chamado "microfone humano", quando manifestantes repetem o que uma pessoa fala, para amplificar a mensagem. Segundo Debra Sweet, diretora-executiva do movimento "The world can't wait", é legítimo apoiar os direitos de 99% que se mantêm excluídos. Brownsville quase nunca tem contato com manifestantes brancos de classe média", ressalta Sweet.

Projetando o futuro

Os protestos lembram um movimento anterior, que, como as manifestações contra o "Pare e Reviste", estava relacionado com justiça racial: os protestos pelos direitos civis, realizados nos anos 1960 nos Estados Unidos. "Dizemos 'não' ao novo Jim Crow", gritavam os manifestantes, referindo-se ao sistema de segregação legal no Sul dos Estados Unidos, derrubado pelo movimento dos direitos civis.

Tal inspiração também fica evidente nas táticas pacíficas de desobediência civil e na forma através da qual os manifestantes delegam a si próprios o título de "nova geração de cavaleiros da liberdade".

Dan Craig, um pastor da região de Brownsville, lembra do movimento pelos direitos civis. Ele cresceu em Selma, Alabama, onde Martin Luther King Jr. liderou uma marcha histórica para Montgomery, reivindicando o direito do voto para os negros. Quando, porém, os manifestantes em Brownsville iniciaram a marcha, ele estava com um grupo de clérigos locais que apoiavam a polícia.

Craig disse que, na verdade, concordava com as acusações dos ativistas acerca da seleção racial das abordagens policiais. "Mas esta seleção não é um produto da polícia de Nova York, mas sim dos Estados Unidos da América", reclamou Craig, membro de uma força-tarefa de clérigos que trabalha para melhorar as relações entre a polícia e a comunidade. Segundo ele, as coisas estão melhorando.

Os manifestantes, por outro lado, estão dispostos a levar adiante a campanha de desobediência civil até que o Departamento de Polícia de Nova York cesse suas abordagens generalizadas. O número deste neste ano já chega a 700 mil, o quarto recorde consecutivo dos últimos anos.

Autor: Jonah Engle (mp) - Revisão: Soraia Vilela

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