segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A LAGOSTA E A MANDIOCA, A ELITE E O POVO

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ORLANDO CASTRO*, jornalista – ALTO HAMA*

Isaías Samakuva vai derrotar José Pedro Cachiungo na corrida para a liderança da UNITA. Tudo porque o primeiro quer que o Galo Negro continue bem alimentado (com lagosta), mas sem voar, e o segundo quer que ele voe cada vez mais alto (mesmo que só coma mandioca).

O "grande inimigo" de Angola hoje é "o medo que se instalou na consciência das pessoas", considerou em entrevista à Agência Lusa José Pedro Cachiungo.

"O regime do MPLA é um regime astuto. E uma das características do regime, que é uma das vitórias e que vai ser também a derrota, é a capacidade que teve de tirar a política da consciência das pessoas e colocar a política no estômago", disse.

Antigo director de gabinete do fundador do partido, Jonas Savimbi, Cachiungo, de 47 anos, escolheu concorrer à liderança porque, afirmou, "a vocação da UNITA não é de ser um partido da oposição, e a liderança da UNITA tem que ter uma visão que não se deve contentar com aquele tipo de adjectivo que se coloca a esta figura: maior partido da oposição, principal partido da oposição. Este não é o nosso ponto de chegada".

Para mim existem dois princípios que continuam a ser basilares e que também o eram (será que ainda o são?) para a União Nacional para a Independência Total de Angola: é a ética que deve dirigir a política, e as batalhas ganham-se ou perdem-se por causa dos generais, nunca por causa dos soldados.

Os resultados das últimas eleições não revelaram propriamente uma derrota. Foram, importa que todos o reconheçam, uma humilhação nacional e internacional. É claro que, como dizia o Presidente Jonas Savimbi, só é derrotado quem deixa de lutar. É, por isso, necessário que a UNITA continue a luta depois, é claro, de pôr a casa em ordem. Coisa que ainda não conseguiu fazer.

E pôr a casa em ordem significa fazer contas, sérias e honestas, ao facto de com essa derrocada, a UNITA ter atirado centenas, ou milhares, dos seus quadros para as ruas do desespero.

Embora seja ponto assente que houve fraude, manipulação e outros estratagemas por parte do MPLA, desde 1992 que se sabia que isso voltaria a acontecer logo que houvesse eleições. E se durante a guerra não foi possível pensar nisso, os últimos nove anos de paz deram, deveriam ter dado, tempo para que a UNITA se preparasse para o que já sabia que iria acontecer.

E, mais uma vez, o exemplo deve partir de cima. Não basta que Isaías Samakuva assuma a responsabilidade política pela catástrofe. Ele tem, ou deve, dar o exemplo. Exemplo ético de que mandou o seu “exército” pela caminho errado pelo que, como em tudo na vida, deveria há muito ter posto o lugar à disposição de quem, de frente, possa ser alternativa.

Se em qualquer guerra, até mesmo nas muitas que a UNITA travou em prol dos angolanos, os generais que falharam foram punidos, a situação actual é, ou deveria ser, a mesma.

Aliás, se a UNITA responsabilizar quem falhou, por muita honestidade que tenha posto na luta, está a dar um bom exemplo aos angolanos para que estes percebam que, afinal, existe uma substancial diferença entre a democracia que a UNITA defende e a que é imposta pelo MPLA. Acredito, inclusive, que os militantes até queiram que Samakuva continue a liderar o partido. Mas devem ser eles a decidir e não os seus principais colaboradores.

É que, no tal contexto da ética, Samakuva e os seus pares não podem dizer que Eduardo dos Santos devia ser substituído porque cometeu muitos e graves erros (que de facto cometeu) e, apesar de terem também cometido muitos e graves erros, quererem continuar no poder como se nada se tivesse passado.

E se a UNITA quer, julgo que quer mesmo, ser diferente (para muito melhor, entenda-se) do MPLA, não pode usar a máxima “olhai para o que dizemos e não para o que fazemos”.

Importa igualmente recordar agora, e mais uma vez, que Samakuva (mesmo que tenha sido alguém por ele não o iliba) afastou da direcção do partido quadros que, na minha óptica, constituíam não só mas também a nata da UNITA. A tendência para substituir a competência pela subserviência deu no que deu. Uma catástrofe.

Terá sido por isso, estou em crer, que os subservientes colaboradores do Presidente o aconselharam a esquecer as zonas que eram, chamemos-lhe assim, afectas ao Abel Chivukuvuku (Lundas, Moxico, Namibe, Cabinda, Malange).

Vejam-se alguns exemplos que revelaram boa vontade mas que, na verdade, só serviram para que o MPLA comesse a UNITA de cebolada.

A campanha foi coordenada por Abílio Camalata Numa, secretário-geral, que da matéria pouco sabia pois, em 1992, integrava as Forças Armadas de Angola. Adalberto da Costa Júnior, que foi responsável pela informação, em 1992 estava em Portugal. Domingos Maluka, figura de destaque na campanha e vice-presidente da bancada parlamentar, era em 1992 militante da JMPLA. Aliás, o próprio Isaías Samakuva estava nessa altura em Londres

(Lembrei-me agora dos tempos em que o porta-voz UNITA-Renovada para a Europa, Baltazar Capamba, abriu caminho ao encontro, em Paris, entre o enviado do MPLA e Isaías Samakuva que, desde sempre, foi considerado por Eduardo dos Santos o político ideal para liderar a UNITA depois da morte de Savimbi.)

Dizem-me, entretanto, que as listas da UNITA revelaram uma grande democraticidade e transparência. No entanto, ainda não percebi (é certamente falha minha) como é que Adalberto da Costa Júnior que venceu no círculo nacional pela Huíla surgiu como cabeça de lista por Luanda, ou como o general Demosthenes Amos Chilingutila, que entrava no círculo eleitoral do Namibe aparecia como o coordenador da campanha eleitoral da UNITA em Luanda.

Também ainda não percebi (é certamente falha minha), como é que nas listas da UNITA apareceram tantos nomes de familiares de figuras influentes e outros, verdadeiros “generais” que seriam decisivos para vencer esta batalha, ficaram de fora.

É que ficaram de fora os que estiveram presentes, e sobreviveram, em 1992 e que por isso estavam mais do que qualquer outros habilitados a saber o que o MPLA iria novamente fazer em 2008 e repetir em 2012.

Em 13 de Setembro de 2008 perguntei aqui no Alto Hama: O que é feito (e porque razão foram afastados ou semi-afastados) de Carlos Kalitas, José Pedro Cachiungo, Marcial Dachala, Carlos Morgado, Urbano Chassanha, Tito Kandongo, Luís Kissanga ou até mesmo Samuel Chiwale?

* Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.


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