quarta-feira, 14 de março de 2012

Investigadores portugueses querem "desconstruir algumas ideias fabricadas"



SBR - Lusa

Lisboa, 14 mar (Lusa) -- Uma equipa de investigadores portugueses vai "tentar desconstruir algumas ideias fabricadas" sobre Timor-Leste, que têm justificado o consenso internacional que vê o país como "um caso de sucesso".

Reconhecendo a "dificuldade em ser crítico", as investigadoras Maria Raquel Freire e Paula Duarte Lopes, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, vão coordenar um estudo, a realizar-se nos próximos três anos, sobre a perceção que os timorenses fazem dos mandatos das Nações Unidas no território e da presença de militares e polícias portugueses nos últimos anos.

Tem sido do senso comum que os timorenses não apreciam particularmente a presença internacional, sobretudo australiana, mas que manifestam uma atitude mais recetiva em relação aos portugueses. São estas e outras perceções que a equipa pretende verificar no terreno, explicaram as duas investigadoras à Lusa.

Maria Raquel Freire e Paula Duarte Lopes são de uma geração que viveu "a questão de Timor" com "mais distanciamento" e acreditam que isso lhes vá ser útil para investigar a "tendência para apresentar Timor como um caso de sucesso".

Sobre o momento timorense atual, com um ciclo eleitoral à porta (presidenciais no próximo sábado e legislativas em junho), sublinham que os investigadores não devem fazer previsões, mas afastam um cenário de "descalabro".

As tensões foram "consideradas e atenuadas" pela comunidade internacional e as Nações Unidas -- realçam - foram "mais inteligentes desta vez, ao prolongarem o mandato da sua missão" em Timor-Leste (UNMIT) até final de 2012.

Parecem ter aprendido "a lição" com a crise de 2006, destaca Paula Duarte Lopes. Nessa altura, no seguimento da retirada da missão da ONU, polícias e forças armadas timorenses entraram em confronto, causando vários mortos. O então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, chegou a admitir que a retirada se deu demasiado cedo.

A atuação da comunidade internacional em Timor tem-se pautado por uma "atitude muito reativa e não preventiva", mas a ONU parece agora querer "acautelar os meses seguintes às eleições, ficando para o 'follow-up', prevendo insatisfação com os resultados", o que não quer dizer que tal aconteça, assinala Paula Duarte Lopes.

O Conselho de Segurança da ONU aprovou por unanimidade, a 23 de fevereiro, a extensão do mandato da UNMIT até final de 2012, altura a partir da qual a ONU manterá apenas uma presença humanitária no território, embora o plano estabeleça que a retirada deve ser feita "de acordo com a intenção do governo de Timor-Leste".

A situação em Timor-Leste "tem evoluído, mas com momentos de tensão", refere Maria Raquel Freire, assinalando: "Nem tudo são rosas, há grupos descontentes, que não se sentem representados."

Esta "invisibilidade das minorias" é um fator de convulsão e as "repercussões da discriminação nas forças armadas e na polícia foram subestimadas pelas Nações Unidas" no passado, acrescenta Paula Duarte Lopes.

Do tempo em que tudo se geria na bipolaridade entre a resistência e o "inimigo comum" indonésio, evoluiu-se para um cenário de eleições, em que "as diferenças de ideologia estão, positivamente, a transitar para o contexto democrático".

Os "focos de tensão" continuam a existir, mas aqueles que outrora pegaram em armas já estão "sentados à mesa da democracia, sujeitando-se a ganhar ou perder", destaca Maria Raquel Freire, estimando que, entre os muitos partidos políticos, Timor acabará por encontrar um meio-termo, à medida que for estabilizando.

As investigadoras antecipam que a saída internacional do território nunca venha a ser "definitiva". "Estão a ser discutidos cenários. O que sairá é a missão de paz, mas poderá ficar um representante do secretário-geral da ONU e as agências vão manter-se", acredita Maria Raquel Freire.

A equipa -- que integra vários investigadores, de diferentes nacionalidades e formações -- irá para o território em finais de junho.

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