quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Angola: DEMOCRACIA SEM O MITO DAS “PRIMAVERAS” ÁRABES

 


Benjamin Formigo – Jornal de Angola, opinião
 
O mito das “primaveras“ árabes fez muitos acreditar que era possível mudar Governos e regimes através de insurreições populares, mais ou menos manipuladas, esquecendo que o poder nunca cairia nas ruas senão pelo tempo suficiente para liquidar os inimigos dos poderes que se perfilavam na sombra.
 
A liquidação poderia ser física, como no caso de Khadaffy, ou política e cívica, como na Tunísia e Egipto. Satisfeita a ira da multidão era tempo de voltar aos negócios. Porém nem sempre sucedeu como era esperado pelos poderes na sombra e no Egipto a Irmandade Muçulmana, sem surpresa dos cépticos, veio a ganhar eleições e obrigar a uma democracia “sui generis”.

Em Angola as eleições foram ensaiadas pela primeira vez em 1992 provocando uma imensa expectativa popular e uma afluência às urnas e uma militância cívica de surpreendente maturidade num país que vivia em regime de partido único e submetido a uma violenta guerra civil.

Não tivesse o processo descarrilado com a denúncia dos resultados eleitorais por parte da UNITA, a contra corrente da esmagadora maioria dos observadores e das Nações Unidas, o país não teria sofrido mais dez anos de guerra e as eleições ter-se-iam tornado um acto de rotina. Em 1992, como nas eleições que se seguiram após o final do conflito, proliferaram os partidos políticos e os movimentos, como é usual nas jovens democracias.

Essa proliferação, fragmentação político-partidária não contribui porém para a formação de verdadeiras alternativas políticas. Abrem sim as portas a uma contestação frequentemente imponderada e a ilusões perigosas.

As “primaveras” árabes criaram em muitos locais do continente africano a ilusão de que era possível combater um Governo fora do processo democrático.

A ilusão irracional, como lhe chamou um amigo meu angolano, é extremamente perigosa. Esse “encanto irracional”, como ele lhe chamou, levou em muitas partes do continente ao desejo de um alargamento desses mais que duvidosos movimentos.

Em democracia, mais importante que suscitar uma rebelião aproveitando os desagrados sempre latentes em todas as sociedades, é defender ideias, organizar a luta política, promover as mudanças através do voto.

Ninguém ganharia com uma crise social, nem o continente como um todo e muito menos os países em particular. Ninguém está a ganhar até agora quando se torna evidente que as “primaveras” tiveram pouco sol. Claro que os partidos políticos têm uma responsabilidade acrescida cada vez que se desenvolve um acto eleitoral.

Uma responsabilidade que não se esgota no resultado das eleições, mas se prolonga não só no dia-a-dia político institucional como na organização indispensável, na consolidação de ideias, na formação de quadros. Trata-se do desafio das jovens democracias.

O eleitorado angolano tem correspondido de forma excepcional ao que dele se esperava desde o primeiro acto eleitoral.

Alguns partidos irão desaparecer após estas eleições como desapareceram noutros países, uns por se ausentarem da disputa eleitoral, outros por não conseguirem adaptar-se aos resultados, outros por não terem o substrato político essencial à sobrevivência ou até por força de Lei. Não é um drama. Permite recentrar os quadros num leque partidário mais limitado, o que não é necessariamente um desastre, nem uma desvantagem nem défice democrático. É, de facto, uma oportunidade de fortalecer ideias tornando ao mesmo tempo o leque de escolhas gerível pelo eleitorado.
 

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