quarta-feira, 24 de outubro de 2012

SINAIS CONTROVERSOS – II

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Martinho Júnior, Luanda
 
3 – Antes era o “complexo de Kissinger” que prevaleceu durante praticamente 18 anos, desde a batalha pela independência que viria a ser proclamada pelo MPLA a 11 de Novembro de 1975, até 19 de Maio de 1993, data em que o Presidente Bill Clinton, aferido ao “lobby” dos minerais e às novas elites sul africanas, (ele é um identificado “rhodes schollarship”) reconheceu formalmente o governo angolano saído da independência e que havia acabado de estrear eleições com carácter multipartidário no país.
 
Foram 18 anos de anacronismos em que em função da Guerra Fria os Estados Unidos deram velada cobertura ao regime racista sul africano, fazendo prolongar o sofrimento e os conflitos em cadeia na África Austral, com sobrecargas terríveis para Angola e para o movimento de libertação.
 
A manutenção dum regime fascista residual e anacrónico garantiu na África do Sul, entre muitas outras “vantagens”, possibilidade às corporações mineiras, em especial aquelas que exploravam o ouro, a platina e os diamantes, uma imensa reserva de mão-de-obra submissa e barata, uma mão-de-obra praticamente escrava, conforme o testemunho da antropóloga Janine Farrell Roberts.
 
A Declaração do Presidente Bill Clinton, a 19 de Maio de 1993, iniciava assim:
 
“É um prazer para mim dar as boas-vindas ao arcebispo Tutu.
 
Como todos os americanos sabem, ele tem sido um verdadeiro líder na luta pela democracia e para o fim do apartheid na África do Sul.
 
Há quase uma década ele recebeu o Prémio Nobel da Paz pelos seus esforços e gostaria de lhe assegurar que os Estados Unidos da América continuam empenhados para a criação de uma democracia não racial na África do Sul.
 
Gostaria também de discutir uma decisão que sei que é muito importante para o arcebispo Tutu e outros líderes, para a democracia e os direitos humanos em África.
 
Tenho o prazer de anunciar o reconhecimento pelos Estados Unidos da América do Governo de Angola.
 
Esta decisão reflecte a grande prioridade que a nossa administração dá à democracia.
 
Em 1992, depois de anos duma amarga guerra civil, o povo de Angola viveu eleições multipartidárias que os Estados Unidos, as Nações Unidas e outros fiscalizaram e consideraram livres e justas”…
 
4 – Os Estados Unidos jamais deixaram de acompanhar atentamente os primeiros passos da “democracia representativa” em Angola, avaliando e optando, fazendo sentir no terreno o peso de sua influência, senão mesmo ingerência, muito para lá das corporações que lhe são afins.
 
Esse peso foi-se fazendo sentir na sucessão de conversações em prol da procura dos caminhos em direcção à paz, pelo que os Estados Unidos aproveitaram para fazer prevalecer a moldagem de sua conveniência: “democracia representativa”, capitalismo e neo liberalismo!
 
A administração democrata de Bill Clinton foi a que mais abertura havia concedido aos afro-americanos, em estreita sintonia com a emergência das novas elites sul africanas durante os primeiros anos da era post “apartheid” na África do Sul (tandem Nelson Mandela – Thabo M’Beki), o que reflectia a densidade do “lobby” dos minerais simultaneamente nos Estados Unidos, na África do Sul e na África Austral, com reflexos importantes em Angola.
 
Essa via foi decisiva para a deriva de Angola na direcção duma “economia de mercado” de tendência neo liberal, apostada na formação duma nova elite política, económica e financeira em Angola, uma nova elite aferida aos desígnios dum processo de globalização que correspondia aos interesses de sua hegemonia uni-polar, mesmo não tornando possível o arranque dum “plano Marshall” para Angola.
 
Com tanta riqueza natural por explorar, com um sector de prospecção e exploração petróleo (e gás) funcional e um sector de diamantes já tradicional, a síntese entre contrários tornava-se proverbial.
 
Foi uma via caracterizada pois por um processo dialéctico: entre a contradição tornada antagónica das posições do governo angolano e de Savimbi inicialmente projectado pelo “lobby” dos minerais, produziu sobre os escombros da guerra, a síntese de conveniência que deu início à formação dessa nova elite, uma nova elite capaz de traduzir os interesses e as conveniências corporativas, inclusive do poderoso cartel de diamantes que de há um século havia sido um dos motores da revolução industrial na África do Sul e na África Austral, como um dos dinamizadores do império britânico em África na ponta final de sua manifestação colonialista e mais tarde, um dos “insuspeitos” promotores do “apartheid” (Harry Oippenheimer haveria mesmo de fazer parte da “oposição branca liberal” no Parlamento do regime do “apartheid”)!
 
Os Estados Unidos jogaram com tudo em Angola para, de escombro em escombro fazer prevalecer a linha que melhor correspondia aos seus interesses e conveniências de império!
 
Foto: Visita de Bill Clinton à África do Sul e encontro com Nelson Mandela a 19 de Julho de 1997; esse encontro é uma evidência das políticas universais do “lobby” dos minerais.
 
Livros a consultar:
- Angola – EUA: os caminhos do bom senso de José Patrício, o primeiro Embaixador de Abgola nos Estados Unidos.
- Jogos Africanos de Jaime Nogueira Pinto
 
A consultar na Internet:
- In conversation with Bill Clinton –
 
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