terça-feira, 15 de janeiro de 2013

BATALHAS DO ORÇAMENTO E UMA GUERRA ENTRE AS CLASSES




A luta sobre o abismo fiscal nos EUA foi somente uma batalha nesta guerra. Ela acabou, sem dúvida, numa vitória tática para os democratas. A questão é se esta foi uma vitória pirrônica que prepara o palco para uma derrota maior. Os republicanos mantem o poder de destruir, em particular se recusando a aumentar o limite da divida - o que poderia causar uma crise financeira. O artigo é de Paul Krugman.

Paul Krugman - CommonDreams - Carta Maior

A fantasia centrista de um Grande Pacto no orçamento nunca teve uma chance. Mesmo se algum tipo de acordo tenha sido supostamente alcançado, figuras chaves teriam logo rechaçado tal acordo nas negociações - provavelmente na próxima vez em que um republicano ocupar a Casa Branca.

A realidade é que nossos dois maiores partidos políticos estão comprometidos numa luta feroz pela futura configuração da sociedade americana. Democratas querem preservar o legado do New Deal e Great Society - Segurança Social, MediCare e o Medicaid - e adicionar a estes programas o que todo país avançado tem: uma garantia mais ou menos universal de assistência essencial médica. Republicanos querem voltar atrás com tudo isto, possibilitando uma queda aguda de impostos sobre os ricos. Sim, isto é essencialmente uma guerra de classe.

A luta sobre o abismo fiscal foi somente uma batalha nesta guerra. Ela acabou, sem dúvida, numa vitória tática para os democratas. A questão é se esta foi uma vitória pirrônica que prepara o palco para uma derrota maior.

Por que eu digo que esta foi uma vitória tática? Principalmente por aquilo que não aconteceu: não houve nenhum corte nos benefícios sociais.

Isto não foi de maneira nenhuma uma conclusão pré-concebida. Em 2011, a administração Obama deixou clara sua vontade em aumentar a idade para o acesso ao Medicare, uma terrível e cruel ideia política. Desta vez, quer-se cortar benefícios de Segurança Social mudando a fórmula para ajustes de custo de vida, uma ideia menos terrível que mesmo assim imporia muitas dificuldades - e provavelmente será também politicamente desastrosa. No fim, contudo, isto não aconteceu. E progressistas, sempre preocupados com a tendência do presidente Obama a se comprometer com as questões fundamentais, respiraram aliviados.

Há também alguns pontos realmente positivos de um ponto de vista progressista. Amplos benefícios para de desempregados foram mantidos por mais um ano, um enorme benefício para muitas famílias e um significativo impulso para nossa expectativa sobre a economia (porque este dinheiro é que será gasto e também ajudará manter empregos). Outros benefícios para famílias de baixa renda se estenderão por outros cinco anos - embora permitida, infelizmente, a redução de imposto em folha de pagamento de expirar, o que prejudicará tanto famílias trabalhadoras e criação de trabalhos.

A maior reclamação dos progressistas sobre a legislação é a de que Obama extraiu menos receita dos ricos que o esperado - cerca de 600 bilhões contra os 800 bilhões na próxima década. Em perspectiva, contudo, isto não é tão bom negócio. Colocando deste jeito: uma estimativa razoável é de que o produto interno bruto nos próximos 10 anos será por volta de 200 trilhões. Então, se a arrecadação combinou expectativas, isto continuaria a somar tão somente 0,4% do PIB; como se viu, este percentual foi reduzido para 0.3%. De qualquer maneira, isto não faria diferença nas brigas pela receita versus os gastos que ainda virão.

Aliás, não foram só os republicanos que votaram pelo aumento de impostos pela primeira vez em décadas, o resultado geral das mudanças tributárias que agora surtem efeito - o que inclui novas taxas associadas ao Obamacare assim como à nova legislação - será a relevante redução na desigualdade de renda, com o 1% mais rico, e ainda mais o 0,1%, recebendo um golpe muito maior que as famílias de classe média.

Por que, então, muitos progressistas - inclusive eu - estão tão apreensivos? Porque nos preocupamos com os enfrentamentos por vir.

De acordo com as regras políticas habituais, republicanos devem ter um poder de persuasão muito pequeno neste ponto. Com democratas na Casa Branca e no Senado, o Partido Republicano não consegue aprovar nada; e desde a mais progressiva e prioritária política pública dos anos recentes, a reforma da saúde, já é lei, os republicanos não parecem ter muitas moedas de troca.

Mas os republicanos mantem o poder de destruir, em particular se recusando a aumentar o limite da divida - o que poderia causar uma crise financeira. E os republicanos deixaram claro o seu plano de usar este poder destrutivo a fim de conseguir mais concessões políticas.

Agora, o presidente diz que não vai negociar nessas condições, e com razão. Ameaçar atingir 10 milhões de vítimas inocentes a menos que consiga do seu jeito - que é em que a estratégia do Partido Republicano se resume - não deve ser encarada como uma tática política legítima.

Mas Obama permanecerá com sua posição anti-chantagista até chegar o momento da verdade? Ele piscou durante confronto sobre o limite da divida, em 2011. E os últimos dias da negociação sobre abismo fiscal também foram marcados pela clara falta de vontade de sua parte de deixar o prazo expirar. Uma vez que as consequências de um estouro da divida seriam, potencialmente, muito pior. Este é um mau presságio para o governo resolver no corpo a corpo com a oposição.

Então, como disse, num sentido tático o abismo fiscal acabou em uma vitória modesta para a Casa Branca. Mas esta vitória pode muito facilmente se tornar uma derrota em poucas semanas.


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