sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

ATIVISTA YOANI SÁNCHEZ CRITICA SILÊNCIO DO BRASIL EM RELAÇÃO A CUBA





Em palestra concorrida em São Paulo, a blogueira e jornalista minimiza as reformas promovidas por Raúl Castro e diz que embargo econômico norte-americano é um "culpado conveniente" para o governo de Havana.

Depois de cinco anos de tentativas frustradas e cerca de 20 pedidos de visto negados, a filóloga, jornalista e blogueira cubana Yoani Sánchez ganhou status de popstar do ativismo latino-americano, em sua primeira viagem internacional em oito anos. Autora do blog Geração Y, em que tece críticas contundentes ao governo de Cuba, Sánchez tornou-se o centro das atenções no Brasil, em meio a debates acalorados com simpatizantes do regime castrista, e só desaparece quando é cercada pelo grupo de seguranças que a acompanha nos eventos.

Desde segunda-feira, passou por Recife, Salvador, Feira de Santana e Brasília. Nesta quinta-feira (21/02), já em São Paulo, uma palestra seguida de entrevista coletiva abriu uma programação de três dias que inclui participação em programas de TV, debates e sessões de autógrafos em duas livrarias.

Ilusão da Revolução Cubana

Recebida com aplausos de pé, Sánchez falou para uma plateia de aproximadamente 250 pessoas – entre assinantes e convidados do jornal Estado de São Paulo, e repórteres de 54 veículos de comunicação. Com uma bata azul clara e saia branca com grafismos negros, a cubana – vencedora em 2008 do prêmio The Bobs, concedido pela Deutsche Welle para os melhores blogs do mundo – confessou-se surpresa com a repercussão da visita.

"Essa viagem foi a minha expectativa multiplicada por dez", afirmou. Comentou que a voz já estava fraquejando, mas, com um saco de pastilhas a mão, não se furtou de traçar durante duas horas e meia um panorama político da Cuba atual e falar sobre ativismo, as reformas de Raúl Castro e os paradoxos nas relações entre Brasil e seu país natal.

"Existem vínculos próximos entre os dois países, mas me parece que falta ao Brasil dureza e franqueza em relação à violação dos direitos humanos em Cuba. Sentimos falta de uma postura mais firme. Os povos não se esquecem", afirmou, sob aplausos. Sánchez também comentou sobre a duradoura popularidade de Fidel Castro e do regime cubano entre jovens latino-americanos.

"Existe uma enorme ilusão sobre a Revolução Cubana, própria da rebeldia e do inconformismo juvenil. Muitas dessas pessoas que idealizam esse movimento nunca foram a Cuba ou passaram apenas duas semanas por lá. Posso garantir que não é bem assim. Não vejo Cuba como um país comunista, socialista. Vejo lá um capitalismo muito especial: um capitalismo de Estado."

Crítica a Castro e esperanças

Com 37 anos de idade, Yoani vê diferenças entre a postura dos dois irmãos Castro no poder. "Fidel era mais midiático do que Raúl. A repressão na época de Fidel era um espetáculo. Hoje, ela é mais às escuras. Fidel também era mais controlador e algumas das mudanças que vemos hoje em dia – como a permissão para viagens – seriam impensáveis."

No entanto, a importância das reformas de Raúl são minimizadas pela ativista. "Elas estão na direção correta, mas em ritmo lento e sem nenhuma profundidade. Na verdade, essas mudanças têm a tendência de apenas legalizar aquilo que já era feito no mercado negro de Cuba, como a venda de carros e propriedades."

A sucessão dos irmãos Castro ainda é uma incógnita em Cuba, mas Yoani se revela esperançosa. "Existem muitos jovens na situação, mas eles não mostram uma linha mais progressista – não sei se por convicção ou se é uma máscara que eles usam neste momento. Espero que haja alguém como Gorbatchov em nossa linha de sucessão." Mesmo assim, a cubana não deixou de mencionar que imagina um país mais inclusivo e plural em um prazo de cinco anos. "É claro que vai ser um país difícil para governar. Em muitos aspectos, teremos que sair do zero. Mas tenho muita esperança numa Cuba nova."

A conturbada relação entre Estados Unidos e Cuba também foi alvo de críticas por Sánchez, que pediu o fim do embargo econômico. "Muitos argumentam que o embargo é uma forma de pressão em cima do governo. Porém, até hoje ele não adiantou para nada, a não ser aumentar a emigração cubana. Na verdade, hoje o embargo é um culpado conveniente para o governo Castro. Queria muito ver as suas desculpas, caso não houvesse mais embargo", atacou, antes de afirmar que não imagina mudanças significativas em Cuba, caso o país e os EUA ainda estejam rompidos.

Protestos nos primeiros dias

Apesar de ter se surpreendido com a repercussão de sua visita ao Brasil, Sánchez afirmou que as discussões e protestos de militantes simpáticos ao regime de Castro não foram inesperadas. "Já havia recebido avisos por parte de blogueiros do governo que teria momentos difíceis aqui", observou. "É claro que não tenho problemas com pessoas que tenham uma visão diferente da minha. Isso é a liberdade de expressão. Eu aceito que me questionem, mas passei por agressões verbais e físicas, quando tentaram calar a minha voz. Isso não é protesto, isso é fanatismo", disse, referindo-se aos protestos dos dois primeiros dias.

Logo no desembarque em Recife, na segunda-feira, ouviu insultos de manifestantes que agitavam notas falsas de dólares. "Oxalá os cubanos pudessem fazer o mesmo. Viva a liberdade de expressão", ironizou. Em Feira de Santana, Bahia, à noite, o protesto mais forte impediu a exibição do documentário Conexão Cuba-Honduras, em que é uma das principais entrevistadas. Os incidentes que cercaram sua chegada ao país levaram a blogueira a ganhar um reforço na segurança e receber um convite para conhecer o Congresso Nacional, aceito na última quarta.

Cercada de um batalhão de repórteres e alvo de discussão entre parlamentares de situação e oposição, Sánchez respondeu a diversas perguntas na capital federal. Durante a palestra desta quinta-feira, lembrou com graça a visita. "Nunca tinha ido a um Congresso Nacional antes, e foi muito curioso. Às vezes, parecia uma sala de aula infantil, em que um tentava falar mais alto do que o outro ou ainda aplaudia para não deixar o outro falar. Temos uma visão muito sisuda da política, mas aqui eu já vi algum humor. Foi muito curioso."

A visita ao Brasil é a primeira escala de uma viagem internacional de três meses, em que a blogueira cubana fará palestras e participará de debates sobre liberdade de expressão. De acordo com Sánchez, a turnê é paga por entidades como a Anistia Internacional e entidades de imprensa, além de colaborações de amigos. No roteiro, estão previstas passagens por México, Peru, Estados Unidos, República Tcheca, Alemanha, Suécia, Suíça, Itália e Espanha.

Autor: Patrick Moraes - Revisão: Augusto Valente

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