sábado, 16 de março de 2013

INSÓNIA

 


 
Pela primeira vez, ppc e a sua corja tiraram-me o sono.

Escrevo este texto às quatro da manhã, depois de ter acordado por volta das duas e não conseguir pregar olho. E por que é que isso acontece? Não, não é porque esteja a arder de desejo carnal pelo coelhito ou por algum dos seus hediondos assassinos a cobro. É porque, mais uma vez, mas hoje muito mais do que antes, me sinto soterrada.

Fui professora. Já nem posso dizer que o seja. Dou umas formações de vez em quando, pagas a recibos verdes. Sou mais uma das escravas do Estado. Trabalho para lá, mas nada recebo em troca.

A escola onde vou dando formação ainda me deve quase três mil euros relativos a honorários do ano passado. Não tenho direitos.

Se ficar doente, temos pena, não ficasse.

Se perder o pouco trabalho que tenho, e acabarei por perder porque os cursos de formação não duram indefinidamente, temos pena, soubesse escolher uma profissão de jeito.

Agora, há riscos grandes, enormes, assustadoramente assustadores, de o meu marido ser um dos no mínimo dez mil professores afectados com a passagem forçada para o quadro de mobilidade. A ganhar metade do salário.

Como vamos sustentar as nossas filhas e todos os dependentes que temos?

Pago a prestação da casa dos meus pais porque eles, com reformas cada vez mais esmagadas, nunca puderam sair da casita alugada e com muito poucas condições onde viviam. Fomos nós, juntamente com o meu irmão e cunhada, que conseguimos dar-lhes uma casa mais confortável e mais adequada à doença do meu pai e ao envelhecimento que pende sobre cada um de nós. Nem imagino como teriam sido os últimos anos de vida do meu pai se ainda vivesse na outra casa.

Tenho cães e gatos que dependem de mim. Sim, eu sei, para muita gente os animais são meros adereços, brinquedos que se deitam fora quando já não servem ou quando nos cansamos deles. Mas para mim, são meus dependentes. Fazem parte da família.

Ao longo dos últimos anos perdemos o meu salário. Acumulando o trabalho precário como formadora mais o trabalho precário como explicadora e o trabalho a prazo como professora, lá ia ganhando entre quinhentos e mil euros mensais, durante seis, sete ou oito meses, conforme o trabalho que tivesse.

Perdemos os subsídios de férias e Natal a que eu tinha direito.

Perdemos um dos subsídios do meu marido. O outro chega todos os meses sob a forma de duodécimos.

Perdemos uma parte do salário do meu marido.

E podemos agora perder metade do salário dele.

Enquanto tiver sanidade mental, não me suicidarei nem entregarei as minhas filhas a nenhuma instituição. Mas não sei se terei sempre sanidade mental.

Para a manter preciso de dormir. De ser forte na adversidade. E preciso, sobretudo, de lutar. Cada vez mais.

E, como já pouco me resta e quase nada tenho a perder, passo, a partir deste dia, a alinhar em todas as manifestações contra o governo, pacíficas ou violentas.

Até agora, lutei sempre de forma pacífica e sempre fui contra a violência. Só que até agora lutei também por mim, mas sobretudo pelos outros. Pelas pessoas que estiveram sempre e ainda estão em situação muito pior do que a minha. Sempre me disse uma privilegiada. Se todos tivessem o que eu tinha, era o suficiente.

Quase sempre tive que fazer contas à vida e não me importo de contar os cêntimos desde que as minhas filhas tenham comida no prato, um tecto, roupa quentinha para vestir e uma festinha de aniversário com os amigos.

Infelizmente, muitas crianças perderam o direito a tudo isso.

Não incitarei à violência, longe disso, sou mais uma pessoa de amor do que de guerra, mas se a violência for a única forma de correr com aquela pandilha, contem comigo. Aliás, neste momento, creio que só mesmo pela violência é que conseguiremos remover aquelas sanguessugas.

O presente das minhas filhas, já nem falo do futuro, está agora mais ameaçado do que nunca. Vou lutar por elas. Nem que seja com fogo.

A foto que ilustra este texto foi retirada daqui.
 

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