quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Portugal: MANTA ROTA

 

Vicente Jorge Silva – Sol, opinião
 
Passos Coelho voltou a escolher a localidade algarvia de Manta Rota para passar férias e por aí se deixou tranquilamente ficar, mudo e quedo – tão mudo e tão quedo como entrava e saía das cimeiras europeias em que se decidiam os impiedosos programas de austeridade para o país –, enquanto em Lisboa o seu Governo era abalado por um novo episódio que não apenas punha em causa a credibilidade da nova equipa das Finanças mas também a autoridade política do primeiro-ministro.
 
Nem o mais feroz adversário do actual Governo imaginaria que, poucas semanas depois da sua remodelação, a «inconsistência problemática» do novo secretário de Estado do Tesouro iria colocar tão precocemente em xeque a imagem do Executivo e os critérios de escolha dos responsáveis governamentais.
 
Não bastavam já os clamorosos erros de casting do antigo responsável do BPN, Rui Machete, para ministro dos Estrangeiros, ou de Agostinho Branquinho, ex-gestor da Ongoing, uma empresa de negócios fantasmagóricos, para novo secretário de Estado da Segurança Social.
 
Era preciso ir ainda mais longe no caminho do conflito de interesses e da promiscuidade entre o mundo da política e o mundo dos negócios inconfessáveis. Estava escrito que a tendência suicidária do Governo de Passos Coelho não terminaria com uma remodelação salvadora.
 
A ministra das Finanças não aprendeu a lição do seu envolvimento no caso dos swaps, apesar da hábil escapatória que encontrou na última comissão parlamentar dedicada ao assunto. Pelo contrário, persistiu na estratégia vindicativa face à herança recebida do Governo de José Sócrates e escolheu com invulgar pontaria para seu sucessor à frente da Secretaria de Estado do Tesouro uma personagem que, segundo o mais básico critério de bom senso político, deveria ser a última a ter em conta.
 
Joaquim Pais Jorge não era apenas um agente importante do negócio dos swaps especulativos. Foi ele que, com outras figuras do Citigroup – como Paulo Gray, agora designado para consultor do Governo precisamente na área dos swaps… –, se reuniu por várias vezes com membros do Governo de Sócrates para tentar convencê-los a adquirir esses miraculosos ‘derivados’ que permitiriam camuflar a realidade das contas do Estado (a exemplo do que o Goldman Sachs fez na Grécia). A tentativa foi rejeitada mas ficou para a história.
 
«Não posso evidenciar sequer que tenha estado nessa apresentação…»: era impossível imaginar palavras mais involuntariamente denunciadoras do que as de Pais Jorge, no habitual briefing governamental, sobre as reuniões com o staff de Sócrates para convencê-lo da magia dos swaps. Embrulhado nas suas sucessivas contradições e negações, o secretário de Estado do Tesouro acabaria finalmente por reconhecer a sua presença nos encontros secretos, embora recusando o protagonismo que lhe fora atribuído na negociação.
 
Ora sendo Maria Luís Albuquerque uma familiar da questão dos swaps, deduz-se que, para ela, nada melhor do que especialistas de swaps tóxicos para controlar esse negócio, um como secretário de Estado, o outro como consultor. Contratar especuladores financeiros para combater as acções em que se especializaram pode parecer uma ideia genial, de inspiração americana, mas não deixa de ser um contra-senso e uma grosseira imoralidade, susceptível de todas as suspeitas.
 
No exacto momento em que pensava deixar para trás o pesadelo que a perseguia, Maria Luís Albuquerque acabou por não resistir à tentação de mergulhar a fundo nesse pesadelo e comprometer definitivamente a sua credibilidade como ministra das Finanças. Ela é responsável pela política do seu ministério e pelas escolhas que faz. Devia, portanto, acompanhar o seu secretário de Estado na saída do Governo.
 
Seguindo o exemplo de Rui Machete, Pais Jorge apresenta-se como vítima da podridão da vida política e, de modo mais ínvio, de uma conjura com objectivos pessoais. Ora, Machete omitiu deliberadamente no seu currículo a ligação ao BPN, enquanto Pais Jorge tentou ocultar, enquanto pôde, as reuniões em que esteve presente com o staff de Sócrates. Porque é que o fizeram, se não tinham motivos para se sentirem culpados ou cúmplices de qualquer transgressão? Porque é que mentiram, se não havia razões para isso? Afinal, de que lado estava e está a podridão, num país onde se tolera, para além de todos os limites razoáveis, a promiscuidade entre o interesse público e os interesses particulares?
 
É a manta rota do Estado que ameaça desfazer este Governo remodelado, mesmo que na sua Manta Rota estival Passos Coelho tente fingir que não é nada com ele.
 

Sem comentários:

Mais lidas da semana