domingo, 24 de julho de 2016

Angola. KANGAMBA VOLTA A ATACAR

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O general angolano, dirigente do MPLA e sobrinho de sua majestade o rei José Eduardo dos Santos, Bento dos Santos “Kangamba”, deu hoje mais uma prova do desespero terminal do regime.

Bento dos Santos “Kangamba” acusou a UNITA de, através do líder da bancada parlamentar, Adalberto da Costa Júnior, prejudicar a imagem de Angola com entrevistas em Portugal, país que o general continua a pensar (e se calhar com razão) que é um protectorado do seu tio.

Vai daí, o general (são tantas as estrelas que ostenta) falava – mais ou menos em português – aos jornalistas em Luanda sobre a entrevista do deputado da UNITA, publicada pelo Diário de Notícias, em que afirma que em “eleições livres e transparentes”, o MPLA (no poder desde 1975) “não iria além de 10% dos votos”.

Disse o general (de acordo com a tradução para português): “Isto é uma chantagem de um deputado que quer ser bem-visto em Portugal. Esses discursos deviam ser feitos aqui em Angola e não em Portugal, manchando assim o nome do nosso país. A UNITA quer é iniciar confusão para quando perder [as eleições] dizer que houve fraude”.

Tido como principal responsável pela mobilização de militantes do MPLA em Luanda (onde o partido tem quase mais militantes que o número de angolanos existentes em todo o país) e membro da cúpula do poder no país, esta posição aparenta uma subida na crispação com o maior partido da oposição, a um ano das previstas eleições gerais em Angola.

Revela igualmente a carência que o MPLA tem em arranjar sipaios com alguma capacidade intelectual, do tipo do embaixador itinerante Luvualu de Carvalho, para defender as suas teses.

Na entrevista ao diário português, comentada durante o dia de hoje em Luanda nos círculos políticos, o deputado da UNITA – que integrava a comitiva do partido que em Maio se viu envolvia em confrontos mortais com militantes do MPLA em Benguela – afirma que “nunca como hoje o regime do MPLA esteve tão em baixa de popularidade e se mostrou tão incapaz de responder aos problemas da sociedade, e mesmo de ir ao encontro dos anseios da sua própria massa eleitoral”.

“A UNITA é a UNITA. Nós conhecemos, a UNITA não está sozinha, nós estamos a acompanhar a movimentação. A UNITA é um produto muito tóxico, pode-se lavar com lixívia, com sabonete, que a nódoa não sai, é perigosa”, atirou Bento dos Santos “Kangamba”, revelando mais uma vez o seu elevado gabarito intelectual, provavelmente resultante das aulas de educação patriótica que são paradigma do MPLA desde os tempos do partido único.

O dirigente do MPLA garante que é preciso “dialogar” com o maior partido da oposição, mas descarta que a UNITA venha a ser poder em Angola em breve: “Ninguém aqui foge de dizer que as coisas não estão bem. Mas, honestamente, a população de Angola não espera que a UNITA um dia melhore as condições, espera que haja algum sacrifico do Governo para melhorar as condições sociais”, afirma Bento dos Santos “Kangamba”, sempre recordando a destruição e mortos provocados por quase 30 anos de guerra civil.

“É claro que quando se entra em crise o partido no poder tem problemas, por falta de água, de energia, de alguma coisa. Mas o Governo tem estado a criar condições”, insiste o general angolano.

O MPLA é liderado desde 1979 por José Eduardo dos Santos, igualmente Chefe de Estado e Titular do Poder Executivo, que já anunciou o abandono da vida política activa em 2018, quando as eleições gerais estão previstas para o próximo ano.

Contudo, é candidato à sua própria sucessão na liderança do MPLA no congresso do próximo mês, em Luanda, faltando definir quem será o candidato do partido às eleições gerais de 2017.

Acusar é com ele

Recorde-se, em muitos outros exemplos, que o general “Kangamba” tem uma alergia a tudo quanto tenha a ver com Portugal, a começar pela própria língua. No dia 26 de Outubro de 2015 acusou hoje Portugal de ingerência nos assuntos angolanos, avisando que Lisboa não tem “consciência jurídica e política” e acrescentando que Angola já não é “escravo” de Portugal.

Na altura constou que o Estado-Maior das Forças Armadas de Portugal colocou os militares portugueses em alerta máximo, não fosse o general “Kangamba” decidir invadir pela via militar (pela económica e financeira já o fez há muito) o Terreiro do Paço.

Bento dos Santos “Kangamba” falava (sim, é verdade, o general também fala) sobre o caso dos activistas detidos e do apoio que tinham na sociedade portuguesa.

“Se eu fosse português pensava 20 ou 30 vezes antes de falar sobre um estrangeiro. Primeiro tenho que arrumar a minha casa e depois falar sobre os outros. Portugal é um grande país, tem grandes políticos, mas neste momento está em debandada, não tem consciência jurídica e política para se defender nem defender os angolanos. Há necessidade de haver calma que a Justiça será feita”, apontou o dirigente do MPLA, general, empresário e figura de topo no que (não) tange a honorabilidade cívica, política, social e militar.

Isso mesmo foi, aliás, reconhecido pela própria Interpol que o incluiu no “quadro de honra” dos procurados por tráfico de mulheres e prostituição.

Também a Polícia francesa atesta que o general “Kangamba” é um impoluto cidadão. Segundo a Polícia, em 14 de Junho de 2013, dois carros foram apreendidos, com poucas horas de diferença, em portagens no sul de França. Num deles, foram encontrados dois milhões de euros, em quarenta sacos de cinquenta mil cada. No outro, foram encontrados mais 910 mil euros. Oito homens foram detidos. Pelo menos cinco deles, angolanos, cabo-verdianos e portugueses, estariam relacionados com o general “Kangamba”.

“Presos políticos não há, nunca existiram. Não vejo a UNITA, a CASA-CE, a FNLA, o PRS, a reclamarem os seus militantes presos. Os que estão presos são jovens que algumas pessoas estão a incentivar para fazerem arruaça que não está prevista na nossa Constituição”, afirmou “Kangamba” em Julho de 2015, acrescentando – certamente à procura da 13ª estrela de general – que na base da agitação “com cinco ou seis miúdos” estão “outros partidos que querem subir no poder a todo o custo”.

O também secretário do comité provincial de Luanda do MPLA para a Área Periférica e Rural, cargo de relevância nacional e internacional, acusa Portugal de continuar a ingerir-se nos assuntos angolanos, 40 anos depois da independência.

“As pessoas são as mesmas, tirando duas figurinhas bonitinhas que estão a aparecer aí no Bloco de Esquerda. Mas as pessoas que foram contra Angola são as mesmas [agora]. Eles acham que Angola até hoje é escravo, que nós somos escravos de Portugal (…) não podemos ser ouvidos e que Portugal é que manda, que Portugal é que diz e que Portugal é que faz. Os portugueses têm que saber que Angola é um Estado soberano”, apontou “Kangamba” na altura em declarações à Lusa.

Folha 8

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