Analista
afirma que desde 1991 as despesas com a Defesa e a Segurança são superiores aos
investimentos nos setores sociais.
O
Parlamento de Angola aprovou esta segunda-feira (15.08.2016) o Orçamento Geral
do Estado (OGE) retificativo, que mais uma vez garantiu amplo investimento em
áreas como a Defesa e Segurança, e não contemplou a Saúde e a Educação.
O
ministro das Finanças de Angola, Armando Manuel, diz que o aumento da despesa
com os serviços policiais é justificável pela crise económica que o país
atravessa, o que poderia gerar um aumento da criminalidade.
Para
o analista Carlos Rosado de Carvalho, o principal problema do OGE não é
priorizar a Segurança e a Defesa, mas reduzir os gastos com a saúde e a
educação. Segundo o analista, o corte em ambos os setores é de aproximadamente
40 mil milhões de Kwanzas.
Mesmo
priorizando a Defesa e a Segurança, o OGE também reduziu as despesas nestes
setores, que passaram de 14,4% no orçamento inicial de 2016 para 13,4% no plano
atual. De acordo com Rosado, o OGE retificativo chega a ser pior do que o
aprovado no início do ano pelo Parlamento.
A
DW África entrevistou o analista, que fala ainda sobre o aumento das
desigualdades em Angola e o que deveria ser prioridade nos investimentos do
país.
DW
África: Por que os gastos com Defesa e Segurança são maiores do que os gastos
com Saúde e Educação juntos?
Carlos
Rosado (CR): Isto é assim desde que há registos sobre o orçamento em
Angola. Portanto, desde 1991 que as despesas com Defesa e Segurança são
superiores às despesas de Saúde e Educação juntas. Só para nós termos uma
ideia, as recomendações internacionais são que a Educação represente por volta de
20% do OGE, e que a Saúde represente por volta de 15%. E, portanto, o que nós
temos nesta altura é que a Educação representa só 6,6%, logo três vezes menos
do que aquilo que é recomendado internacionalmente; e a Saúde 4,4%, também três
vezes menos do que aquilo que é recomendado.
DW
África: Por que motivo a proteção social não contribuitiva é praticamente
inexistente em Angola?
CR: Em
países muito vulneráveis, com muitos pobres que vieram da guerra, em que as
pessoas não contribuíram para o sistema, a proteção social não contribuitiva
desempenha um papel fundamental. Mas temos muito pouco: a proteção social não
contribuitíva representa 5% ou 6% dos gastos. O Governo aparentemente teme que
as pessoas se habituem às transferências diretas e que depois não trabalhem. O
Governo não quer uma política assistencialista, só que o nosso pobre está tão
pobre que nem consegue ‘pescar com a cana'; não tem capacidade de fazê-lo. E,
portanto, todos os estudos da UNICEF, do Fundo Monetário Internacional, apontam
neste sentido: que deveria criar, sim, um programa de transferência de renda
para as pessoas mais pobres e vulneráveis. Eu também estou de acordo, acho que
assim podemos criar até maus hábitos, mas nós temos condições tão pobres, tão
vulneráveis, que elas não conseguem sequer ir trabalhar. Eu espero que
rapidamente o Governo mude de opinião e passe a dar mais dinheiro para a
segurança social não contribuitiva.
DW
África: E, apesar da crise, o Governo angolano tem condições de conceder
benefícios sociais à população?
CR: Apesar
da crise, tem que ter. Se nós temos dinheiro para gastar na Defesa e na
Segurança, temos que ter dinheiro para atender as populações. Naturalmente que
isto implica uma estrutura diferente do OGE, portanto não é com esta estrutura.
E também ninguém defende uma alteração abrupta. Agora, nós temos que dar sinais
de que estamos a mudar, e que queremos mudar. São esses sinais que não são
vistos no OGE. Nós não gastamos em todo setor social aquilo que se recomenda
internacionalmente apenas para a Saúde e Educação. Só a Saúde e Educação deviam
levar 35% do orçamento, mas levam 11%. No total, o setor social leva 28%. Isto
tem que ser prioridade, e do meu ponto de vista estas prioridades estão
claramente mal estabelecidas.
DW
África: E olhando para o orçamento retificativo, pode-se prever um agravamento
da desigualdade?
CR: Aparentemente,
sim. Já partimos de uma situação de desigualdade; já partimos de uma situação
em que muita gente critica a forma como os recursos, que são escassos, são
distribuídos.Provavelmente nós vamos assistir a um aumento das assimetrias, a
um aumento das desigualdades.
DW
África: Se a gente for comparar os problemas que o país enfrenta com a crise do
petróleo, não é comparado ainda com o sub-financiamento da educação e da saúde,
não é mesmo?
CR: O
petróleo vai aumentar, vai diminuir, vai acabar, mas os angolanos ficam cá, e,
portanto, aquilo que diferencia os países é a qualificação das pessoas e é a
saúde das pessoas. Só com pessoas qualificadas e saudáveis é que nós temos
produção, produtividade, e temos competitividade da economia. O nosso orçamento
não privilegia estes setores.
Karina
Gomes / TM
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