domingo, 9 de outubro de 2016

AS EMPRESAS DEVEM SERVIR SÓ OS ACCIONISTAS?



Jorge Fonseca de Almeida - Jornal Tornado, opinião

Devem as grandes empresas ser geridas apenas com vista a satisfazer os interesses dos accionistas ou, pelo contrário, servir os interesses conjuntos de um grupo alargado de partes interessadas?

Devem as empresas procurar exclusivamente o maior lucro no curto prazo ou será esta visão em grande parte responsável pelo fraco desempenho económico dos países europeus nos últimos 20 anos?

Neoliberalismo e o lucro

Dominante a partir do final dos anos 70, o neoliberalismo ensina que as empresas devem apenas procurar maximizar o lucro. Esta visão conduz ao abrandamento do investimento, à redução dos salários e outros benefícios, à deslocalização, ao outsourcing e ao lobby político permanente, e bem-sucedido, para a diminuição dos impostos sobre as empresas e os lucros, pelo congelamento do ordenado mínimo e pela redução das prestações sociais. O efeito conjugado destas consequências levou a uma forte travagem no crescimento no ocidente a partir dos anos 90 e a um estado de crise permanente desde 2008.

Esta visão unilateral esquece todas as outras partes interessadas que a empresa deve servir e sem as quais não pode sobreviver de forma durável e que, nesse sentido são tão ou mais importantes para a continuidade da empresa como os accionistas. Essas partes não aportam capital financeiro, mas contribuem com outras espécies de bens para o sucesso da empresa.

Trabalhadores e Ambiente

Desde logo os trabalhadores que contribuem com o seu trabalho. Sem eles a empresa não pode funcionar. Em muitos países nórdicos, incluindo na Alemanha, são chamados a partilhar a responsabilidade da gestão, estando obrigatoriamente representados na Administração das grandes empresas (em paridade com os accionistas). A sua inclusão promove a coesão social e impede uma visão unilateral da gestão.

Mas também as entidades públicas responsáveis pelo ambiente. Sem recursos ambientais disponíveis e de qualidade não é possível a vida humana e, por conseguinte, as empresas devem incluir preocupações ambientais nos seus objectivos de gestão.

Clientes

Os Clientes são outra parte interessada importante. Sem freios e sem preocupação pelos clientes o que impede uma empresa de procurar enganá-los, como o fizeram as entidades financeiras que nos Estados Unidos e na Europa, incluindo em Portugal, venderam crédito à habitação que mais tarde se revelou incobrável (subprime) desencadeando uma crise sem precedentes, ou as empresas alimentares de vender produtos cheios de sal, açúcar e outros aditivos que estão a criar uma epidemia de doenças cardíacas, diabetes e cancro?

Fornecedores

Outra das partes interessadas são os fornecedores. Eles vivem das vendas para a empresa, sem eles não seria possível a laboração. Os seus interesses devem ser levados em conta.

Em alguns casos a sociedade em geral e a defesa nacional são partes interessadas como é o caso de empresas dominantes em sectores essenciais como a eletricidade, o gás, a água, etc.. Nestes casos justifica-se mesmo a propriedade pública.

Vemos, pois, que existem várias partes interessadas tão ou mais importantes que os accionistas, mas que não são levadas em conta pela gestão neoliberal das empresas.

A maioria destas partes tem mesmo um maior interesse na sobrevivência a longo prazo da empresa do que os seus accionistas. Os trabalhadores não querem ficar desempregados, os fornecedores perder um importante cliente, o Estado uma fonte de receita, os clientes a sua marca de eleição. Mas os accionistas após recuperarem o investimento com o lucro desejados estão prontos para novo empreendimento mais rentável eventualmente desistindo da empresa.

Sobrevivência

Se os lucros que obtiveram foram à custa de uma ausência de investimento em equipamento ou em formação e valorização dos recursos humanos então é provável que a empresa não possa sobreviver por manifesto atraso tecnológico. Se os accionistas são fundos de investimento estrangeiros facilmente se livram das suas acções e repatriam o capital e os lucros.

O que precisamos, pois, é de uma gestão das grandes empresas que não se limite a levar em consideração os interesses dos accionistas e gira a empresa no interesse de todas as partes interessadas. Tal só é possível se todos estiverem representados nos Conselhos de Administração. Uma alteração da Lei correspondente é, pois, importante para que o país possa sair da crise e desenvolver-se.

É, como está provado, em contextos mais planeados, regulados e estáveis que o crescimento, a inovação, e a iniciativa florescem.

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