sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

TRUMP FACE À VERTIGEM DO PODER



A inauguração da administração republicana de Donald Trump traz muitas interrogações e muitas inquietudes para o povo estado-unidense como para os povos do resto do mundo:

Se nos Estados Unidos é por demais evidente a vulnerabilidade e a distorção da democracia dita“representativa” ao ponto do futuro presidente não conceder conferências ou entrevistas aos “media de referência”, para o resto do mundo, as práticas permanentes de conspiração têm sido dolorosamente sentidas na continuidade do trauma maior que foi a IIª Guerra Mundial, que também foi travada em nome da democracia face ao nazismo, ao fascismo e à barbárie das potências do eixo.

Afirmando-se como potência militar global e polícia do mundo, na sequência do assalto à América que advém da origem dos Estados Unidos e da chegada das culturas europeias àquele continente, com a expansão e a formação do império, o monstro capitalista neoliberal que se gerou a partir do início da década de 90 do século passado, por experiência própria sabe que as ingerências utilizando a força, mesmo que seja protagonizada por terceiros em seu nome (como por exemplo o choque neoliberal protagonizado por Savimbi com a “somalização” de Angola entre 1992 e 2002), pode ser contraproducente, pois acarreta elevados custos, pode-se tornar contraditória aos interesses dominantes, pode mesmo conduzir à derrota no campo de batalha, como aconteceu no Vietname, mas também em Angola quando a 11 de Novembro de 1975 o país e os seus aliados progressistas e revolucionários, conseguiu chegar à independência.

A “somalização de Angola” por via dos “diamantes de sangue”, numa sucessão de guerras que dilaceraram África no final do século passado, foi tão contraproducente para o cartel dos diamantes, componente histórico da aristocracia financeira mundial desde o início da revolução industrial, que agora há que “baralhar os dados e dar de novo” de tal forma que, até a própria família Oppenheimer tem de alterar drasticamente o sentido de sua acção e de sua vida.

Como a actual Constituição angolana resultou da vitória de Angola face ao choque neoliberal de então, com a integração dos próprios salvados provenientes dos múltiplos campos de batalha, agora é necessário para o império utilizar o “soft power” (pelo menos numa fase inicial duma nova subversão), a fim de fazer prevalecer sua vontade mascarada de democracia e abrir caminho aos poderes daqueles que darão muito mais força aos abutres que vêm a África, enquanto corpo inerte, depenicar o seu pedaço!

Então a ingerência e a manipulação no que a Angola diz respeito, mas em conformidade com as ementas experimentadas em dezenas de países nas mais diversas paragens (dos Balcãs e da Ucrânia, ao Cáucaso, à Rússia de Boris Yeltsin, à América Latina e a África, passando pela nevrálgica região do Médio Oriente), tornou-se na evidência em relação à qual haveria de tomar partido em termos de “soft power” e a doutrina de Gene Sharp suprime algumas dificuldades perante isso em estrito benefício dos interesses dominantes dos 1% sobre o resto da humanidade…

Disse algumas dificuldades, pois ela pode em alguns casos ter êxito nas praças públicas, na tomada de edifícios, no terremoto humano que altera uma Constituição, mas no “the day after”, a primeira coisa a morrer pode ser o próprio plano e perspectiva dessa doutrina e é assim que se tem instalado o terrorismo e o caos, abrindo-se a questão doutrinária à oportunidade dos fundamentalistas do império e dos seus mais repugnantes vassalos, por via da doutrina dum outro “filósofo” ao serviço da aristocracia financeira mundial, Leo Strauss com a sua “The chaos doctrine”!

A percepção de Naomi Klein, a escritora e jornalista canadiana que tem estudado os impactos capitalistas neoliberais depois do final da chamada Guerra Fria, permite avaliar a íntima relação entre o choque e a terapia neoliberal, de tal forma que o “soft power” é capaz de, a partir dos campos de batalha, instalar os interesses dominantes, sem qualquer resistência mais ao jugo que a aristocracia financeira mundial vai impor, particularmente no que diz respeito aos interesses corporativos privados, num processo que todavia começa a revelar-se como um abissal corrosivo para as vertigens de poder hegemónico unipolar.

Donald Trump que tudo indica está disposto a combater o Estado islâmico, vai ter de avaliar quanto a doutrina de Gene Sharp abre, afinal de contas, caminho à doutrina de Leo Strauss e com isso introduz caos e terrorismo num processo em escalada de intensidade que se expande neste momento a quatro continentes e aos próprios Estados Unidos.

A paz no seguimento do choque neoliberal, tem de estar animada duma outra coerência, senão ela esvai-se perante os primeiros infortúnios, como acontece em Angola.

Mesmo que houvessem alguns a caírem na ilusão dos “jogos africanos” como (a título de mero exemplo) os propiciados por um homem de mão do Le Cercle como Jaime Nogueira Pinto, identificado com o CDS português e com algumas dos “generantes” (híbridos de generais comerciantes) angolanos, esses oficiais foram solidários nos campos de batalha a muitos outros que perseveraram no seu patriotismo resistente e estão por patriotismo prontos a conceder-lhes a oportunidade para encontrar a luz no fundo do túnel para onde foram atraídos pelo “soft power”, lembrando que além do mais são eles que se encontram, entre outros, acusados pelos instrumentos fantoches ao nível dum Rafael Marques de Morais!

A contradição dialética da resistência angolana, por muito empobrecida que ela esteja, por muito traumatizada pelo processo histórico que ela esteja, estende a mão àqueles camaradas seus dos campos de batalha, que não perceberam a tempo a armadilha que se estendia com a oportunidade da terapia neoliberal e com a contradição manipulada e de ingerência segundo as doutrinas de Gene Sharp e Leo Strauss, elas próprias também conducentes às vertigens de poder…

Donald Trump sabe que os expedientes de Gene Sharp e Leo Strauss são já impraticáveis pela sua natureza, até por que além do mais os recursos do planeta Terra são já diminutos face à voracidade do “sistema” que os seus antecessores representaram, entre eles Barack Hussein Obama e os Clinton… e com custos cada vez mais elevados na tentativa de levar por diante seu maquiavelismo sem limites, tão arriscado que não acautela sequer os “efeitos boomerang” capazes de romper os intestinos sócio-políticos do poder nos Estados Unidos!

Sabe por outro lado, com todas as evidências, que o “soft power” da República Popular da China nos seus relacionamentos com os países mais pobres, os da cauda dos Índices de Desenvolvimento Humano, está já em vantagem em relação à bateria de instrumentos do império e dos seus mais directos vassalos e vai ser necessário repensar tudo, refazer tudo, buscando outro caudal de respostas, que afinal até parece irem no sentido duma harmonia universal, algo que Angola tem protagonizado sobretudo desde 2002, a nível interno e nos seus relacionamentos internacionais.

Trump, tendo em atenção o seu próprio programa, procurará não cair no abismo típico das vertigens de poder, onde se sentaram os seus antecessores, procurando cultivar um outro carácter de domínio, tendo em conta o balanço entre os ganhos e as perdas de hoje!

No ano de 2017 Donald Trump assume a presidência dos Estados Unidos e em Angola há eleições que correspondem a uma Constituição dum estado que foi reconhecido internacionalmente, reconhecido até pelos Estados Unidos após tantas experiências reciprocamente traumatizantes e especialmente traumatizantes para o povo angolano.

Esperemos que Donald Trump não insista na aposta em cavalos mortos que advêm das “revoluções coloridas” e das “primaveras árabes”, no que em relação ao mundo e a Angola diz respeito, nem sequer nas franjas de oposição indecisas em relação à Constituição angolana e sempre à espera duma oportunidade para um outro alinhamento lesa-pátria!

Ele tem tanto que fazer, que seria muito estúpido de sua parte insuflar a quente o maquiavélico balão das ninharias que afinal já rebentou entre bolhas de toda a ordem e fez cair os navegantes anteriores, na queda da mais miserável das barquinhas do poder. 

Fotos: Donald Trump e dois dos “filósofos” das grandes vertigens.

A consultar:
Como iniciar uma revolução, Gene Sharp – https://www.youtube.com/watch?v=jpPz3liDGZk
Gene Sharp Brazil, como iniciar uma revolução – https://www.youtube.com/watch?v=jqtTc_CMlJg 
Leo Straus, por Élcio Verçosa Filho – https://www.youtube.com/watch?v=Uj6-Yrfi6WQ 
As três ondas da Modernidade – https://www.youtube.com/watch?v=kHkCNoGNXz0 

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