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quarta-feira, 8 de março de 2017

ÀS ÚLTIMAS NOIVAS NUM MARÇO-MULHER


Martinho Júnior, Luanda 

(Na viagem-memória das minhas amadas ancestrais, de todas as avós do mundo e das avós que comigo repartem, ainda que numa desumanizada distância, a derradeira lágrima, a última côdea).

Na mais densa sombra dos santuários da ocasião, por dentro do miolo inchado pelos gases abrasadores dum pré-anunciado vulcão, o segredo é de há irrisórios séculos, segundo dizem, um segredo voraz, gaseificada alma de negócio…

Por isso, nas imensas periferias das cidades cosmopolitas, tisnadas de soltas poeiras acobreadas e atiçadas pela ardência filtrada ao sol, as últimas noivas sobem meio trémulas, meio sonâmbulas, como exauridos fantasmas em pleno dia, às auréolas dum altar feito vácuo!

Com seus severos rostos de pedra e olhos cadentes, já transparentes da plácida névoa poente, seus sonhos vivenciados jazem trespassados por estranhas lâminas transversais…

… e as últimas noivas, dos sonhos arrancados em partos inesperados que marcam os traços dos seus próprios caminhos, partos sofridos de outros tantos sonhos a sangue frio, sobem descalças, em suas vestes brancas, com suas grinaldas perseverantes e odor a terra e a frutos, meio perdidas no ocaso das bessanganas, secas e de estômagos inúteis por que sempre vazios, próximos do nada em que se vão acolher…

Sabem que são a carne mirrada como a morna e palpitante lava agónica, que vai alimentar a grande besta da ilusão derradeira, mas desafiam em sua ousadia, verticais, ao se deixarem pairar como trémulas borboletas próximas dos vendavais e do abismo…

Apesar de seus passos vacilantes e dos seus pés gretados abeirando-se de mansinho dos sulcos quase finitos, trazem nelas, dentro de si, ao invés dos sonhos decepados, o segredo alado dum obstinado tesouro que nada, nem alguém pode comprar: um sopro feito de poalha e hóstia sagrada que é com elas e nelas, como um resto de alimento na vida, como um cintilar, ao mesmo tempo vacilante e coado, de longínqua estrela…

…um último pulsar e um último sussurro engolido pela grande solitude dum universo ao obscurecer…

…ausculto com olhos húmidos de gratidão e saudade, minhas ancestrais, as minhas avós, imediatamente antes de, num silêncio terminal, tão ignota quão suavemente, enquanto evaporadas gotas de orvalho conformadas e conformes à decisão da idade… doce e timidamente a última das noivas desaparecer...

Martinho Júnior, SOLDADO DO MPLA

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