domingo, 1 de outubro de 2017

LUANDA, POUCO A POUCO, VAI GANHANDO OUTRO SENTIDO ESTÉTICO



Martinho Júnior | Luanda 

1- Podemos não estar de acordo (e eu sou um deles) em relação à "invasão" de "arranha-céus" que a capital angolana vem ostentando, marcando os impactos de carácter neoliberal da época. e as gritantes assimetrias "selvagens", inerentes à sociedade luandense da actualidade…

 Na mesma dimensão de espaço que caracterizava o atrofiamento mental do colonialismo português (em contraste com a megalomania da “dilatação da fé e do império”), em termos de urbanização (as cidades foram construídas como se vivêssemos num país com 14 vezes menos área que Angola), têm sido construídos esses edifícios, não levando em conta exigências de toda a ordem, desde as ambientais, às de consumo de energia e água, passando pelas manutenções, saneamento e as questões que se prendem à gestão eficiente dos imóveis!

A ostentação tem um preço tão elevado, que em relação à crise se vai tornando insustentável, (algo que para mim era previsível).

Podemos não estar de acordo situando-nos na visão da capital no seu contacto com o mar, com o que em relação a muitas estruturas e infaestruturas foi feito (e eu sou um deles), podendo citar o exemplo da conexão entre o Porto de Luanda e os Caminhos de Ferro de Luanda, pasto dos estímulos e investimentos também de carácter neoliberal, que têm trazido resultados nefastos ao cômputo da própria economia nacional e vão dando corpo a elites nacionais com comportamento próprio de mercenários, ao invés de fomentarem comportamento patriótico...

Longe de ser alvo de acções de guerra, as acções tipicamente neoliberais que impactaram no Porto de Luanda, enquanto servidor das linhas de penetração no território, entre elas a do traçado do Caminho de Ferro de Luanda, dividiram (para melhor reinar) o que havia sido executado como estrutura única e integrada, destruindo entre outras coisas o feixe ferroviário que nele havia sido criado, para júbilo das iniciativas privadas dos rodoviários que garantem o trânsito das mercadorias (encarecendo os produtos) e para que as ferrovias ficassem tão malparadas, anémicas, palúdicas e com doença do sono, conforme estão hoje!...

Se há alguma coisa desde já a corrigir, agora que está aberto o tempo para reflexões, essa é gritante!

2- Há todavia algo de muito importante que estou de acordo: é necessário em relação ao acervo histórico, antropológico e cultural, assim como em relação aos monumentos, marcar-se o que em independência e soberania da jovem Angola se assumiu, fruto do Movimento de Libertação em África o que, sob o ponto de vista estrutural, está a ser feito um pouco por todo o país e também na capital...

No anfiteatro da Marginal 4 de Fevereiro, onde os sinais da época colonial e dos seus vários ciclos são evidentes, em desafio a eles e às mostras dos impactos neoliberais que marcam a arquitectura e a engenharia contempoânea dos edifícios e do perfil marítimo de Luanda, alguns museus e monumentos têm sido criados e o último foi inaugurado ontem pelo camarada Presidente José Eduardo dos Santos: o Monumento ao Soldado Desconhecido.

O monumento é um sinal que cumpre necessidades de memória que se impõem, onde quer que ele fosse erigido (também aí haveriam outras opções, entre elas, por exemplo, a do Cemitério-Monumento do Kuito, onde cada campa é de um soldado desconhecido)…

Foi erigido na Marginal 4 de Fevereiro e faz juz a essa memória, à Luta pela independência e a soberania de Angola e do que ela trouxe em benefício das regiões Centrais, do Golfo da Guiné e Austrais do continente africano, ombreando com outras memórias, como o Mausoléu dedicado ao Presidente Agostinho Neto, ou o monumento sobre a batalha épica do Cuito Cuanavale, ou o monumento marcante da batalha de Quifangondo!


3- Os ciclos modernos da vida nacional em grande parte ainda são um arrasto estrutural e humano do que advém do passado, das decisões que foram tomadas pelo homem nesse passado, consequência duma visão sustentada a partir de quem chega por mar à costa angolana e, nesse sentido, têm tudo a ver ainda com o que o colonialismo implantou ao longo de séculos, quando Angola mal preparada está ainda para os desafios próprios e compatíveis do século XXI.

Sintomaticamente o Monumento ao Soldado Desconhecido veio ocupar o espaço onde existia outra memória: a de um padrão dos tempos da dilatação da fé e do império colonial, numa cidade capital onde existe a maior concentração de fortalezas coloniais em todo o espaço nacional!

É evidente que a construção da identidade nacional tem esse tipo de suportes e contrastes, próprios dos pólos de desenvolvimento que apressadamente foram construídos no período derradeiro do colonialismo, mas não se poderá resumir a eles e as visões de futuro que se impõem para o país, legitimam aspirações que são contraditórias aos enredos estruturantes que advêm do passado, em especial desse passado colonial.

A memória do Soldado Desconhecido é assim uma nota no compasso do tempo histórico e antropológico angolano, implantado num ambiente feito de contrastes, mas é também um incentivo, até por causa desse seu enquadramento, no sentido de que a visão de futuro sobre Angola em paz, não se limite mais ao que prende o homem à amenidade relativa do mar, mas o impulsione em direcção ao imenso espaço vital interior, onde a construção da identidade nacional tem sido tão decisiva quanto marcada pelas principais batalhas que os angolanos foram obrigados a travar para serem soberanos e independentes, contribuindo para a independência e a soberania de outros povos e nações e darem seguimento na construção duma pátria digna para todos os seus filhos!

Martinho Júnior | Luanda, 24 de setembro de 2017

Fotos do imediatamente antes e do depois, no mesmo local fronteiro à Marginal 4 de fevereiro de Luanda.

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