sexta-feira, 13 de julho de 2012

O IMPÉRIO DOS DRONES (3)



Rui Peralta

Obama reconhece

Obama reconheceu oficialmente as operações secretas no Iémen e na Somália. Numa carta do presidente enviada ao Congresso, datada de 15 de Junho - procedimento imposto pela Resolução de Poderes de Guerra, aprovado em 1973, pela qual são requeridas informações sobre as acçöes militares no exterior – Obama descreve as acçöes militares dos USA no Iémen e na Somália.

Nessa carta ficamos a saber que os militares norte-americanos realizam operações secretas de combate na Somália, desde 2007 e no Iémen desde 2009. Neste país foram também efectuadas, com as autoridades iemenitas, acçöes contra a rede da Al – Qaida na península arábica. Na Somália existiram diversas acçöes contra a Al – Shabaab, organização islâmica somali, que pretende instaurar um regime fundamentalista islâmico neste país.

Na Somália e no Iémen devem ter sido efectuadas cerca de 180 acçöes secretas militares norte-americanas. Na Somália cerca de 20 operações custaram a vida a 170 pessoas e no Iémen foram confirmados 44 ataques, que vitimaram 317 pessoas e cerca de 106 operações adicionais, sendo o total de vítimas mortais cerca de 800 pessoas. Nos ataques foram utilizados meios aéreos, bombardeamentos navais e misseis de cruzeiro e de 2011 em diante foram utilizados drones. Nestas acçöes estão excluídas as da CIA, que continuam confidenciais. A CIA possui uma frota de drones, não necessitando de solicitar meios militares.

Cerca de 26 congressistas, democratas e republicanos, já tinham solicitado ao presidente que esclarecesse as preocupações do Congresso sobre a utilização de drones e de operações secretas das forças especiais. A desclassificação parcial dor parte de Obama das acçoes secretas na Somália e no Iémen foram saudadas por diversos sectores da sociedade norte-americana. A União para as Liberdade Civis congratulou-se com as revelações parciais efectuadas por Obama, mas exigiu que o presidente revelasse o processo utilizado na lista de assassinatos selectivos e a Federação dos Cientistas Norte-Americanos, através do seu porta-voz Steve Aftergood, declarou ao New York Times que este reconhecimento é importante e que deve continuar a ser efectuado e cumprido, mas o que é fundamental é que as operações terminem. Como afirmou Steve Aftergood: “As guerras secretas nunca foram um segredo para os afectados”.

Os seis pontos da guerra global

Operações especiais, drones, espionagem, milícias paramilitares, testas de ferro e guerra cibernética, eis os seis pontos da doutrina Obama para a guerra global.

No Foal Eagle 102, um exercício militar conjunto, que passou por um exercício de assalto e apropriação a embarcações levado a cabo pelo Grupo de Guerra Especial 1, de Coronado, Califórnia e a Brigada Naval Especial da Coreia do Sul, o desembarque de 250 marines em Darwin, Austrália, posicionamento de embarcações para combate litoral em Singapura, ações de formação e exercícios conjuntos com as Forças Armadas da India, fortalecimento de vínculos militares com o Vietname, jogos de guerra nas Filipinas, com a participação do exército filipino e demonstração da utilização de drones e a confirmação da transferência da maioria força naval norte-americana para o Pacifico, até ao final da década.

Este exercício militar conjunto confirma ainda outro factor: O novo estilo de guerra norte-americano. Esqueçam as invasões de grande escala e ocupações de ampla base. Nada disso. Agora é só pensar em forças de operações especiais, autónomas no terreno, que actuam globalmente, em conjunto com os militares aliados, ou com os testas – de - ferro, ou milícias paramilitares. Conselheiros e instructores norte-americanos esforçam-se por aconselhar e formar os seus aliados a aderirem e a especializarem-se na utilização das forças especiais, ao mesmo tempo que abordam questões como a militarização da espionagem, a necessidade de usar testa-de-ferro, criar estruturas paramilitares especializadas em guerra psicológica e acçöes de propaganda, utilização dos drones e da guerra cibernética. Este é o Menu para a guerra global no seculo XXI. Os aliados dos USA estão todos a absorver os novos princípios, como bons alunos, sempre atentos às palavras e actos do mestre.

Os novos conceitos de operação militar conjunta

Os militares norte-americanos praticavam o conceito da operação militar conjunta. Por exemplo: SEALS da Marinha a saltarem de um helicóptero do exército sob cobertura de aviões da Força Aérea. Mas o conceito agora é outro. O Pentágono funde as suas forças com a CIA, o Departamento de Estado e as agencias que lhe são adjacentes e a DEA, por exemplo, em complexas missões combinadas e globais.

No ano 2001 Rumsfeld, secretário da defesa, iniciou aquilo a que chamou “revolução em assuntos militares” e o Pentágono orientou-se por um modelo militar ligeiro, ágil e de alta tecnologia. Este conceito foi aplicado no Afeganistão e no Iraque revelando inúmeras falhas. A correccäo foi efectuada já durante a nova administração Obama e novos princípios foram elaborados, chegando á actual forma, que define a concepçäo de guerra norte-americana para o século XXI.

Observe-se o exemplo da aplicação destes princípios no Paquistão. Tudo começou ainda durante a administração Bush, com uma campanha de assassinato por drones, circunscrita á zona fronteiriça, respaldada por incursões limitadas de comandos. A administração Obama expandiu o número e a amplitude das acçöes no Paquistão, transformando-as numa guerra aérea robótica em grande escala, complementada por ataques de helicópteros através da fronteira, transportando forças de assalto e utilizando testas-de-ferro locais, financiados pela CIA, grupos paramilitares recrutados nos clãs “leais”, assim como agindo no terreno com forças especiais. Todas estas missões são combinadas com missões clandestinas da CIA, desde a contrainformação á vigilância, mas também operações pontuais de assassinato.

Em Abril deste ano, Leon Panetta, o secretário da defesa, anunciou a criação de uma agência de espionagem no interior do Pentágono, o Serviço Clandestino de Defesa, cujo objectivo é expandir a espionagem militar nas zonas de guerra e aumentar a coordenação e convergência das missões do Pentágono e da CIA. Foi também criado, no ano passado, o Fundo Global de Contingência e de Segurança, sob controlo do Departamento de Defesa e com recursos do Pentágono, com o objectivo de ampliar testas-de-ferro no Corno de África, Iémen e Medio Oriente, mas também com visibilidade na Colômbia e no México (através de operações da DEA), na India (intercambio tecnológico, tecnologia drone, guerra cibernética e envio de instructores) e no Cazaquistão (instrutores, conselheiros, tecnologia drone e guerra cibernética).

As operações em África

Um continente onde estas acçöes já se fazem sentir, em diversas amplitudes, é o continente africano, que presenciará, durante os próximos anos, um reforço da espionagem e um apuramento e alargamento dos testas-de-ferro, que pululam em grande número por estas bandas. Durante a actual administração norte- americana as operações em África multiplicaram-se. O Norte do continente foi agitado pelas Primaveras (sendo na Líbia onde a intervenção foi mais visível e de maior amplitude); a África Ocidental sofreu toda uma série de conturbações, aumento do nível de conflitualidade, alteração das fronteiras e aparecimento de novos estados (nesta região em combinação com os interesses neocoloniais europeus, como a França, Inglaterra e o incipiente, mas perspicaz e adulador, neocolonialismo português, na Guiné-Bissau e Cabo Verde); assistiu a uma campanha regional de drones (utilizados a partir de aeroportos e bases na Etiópia e Seychelles); a uma frota de 30 embarcações no Oceano Indico para apoio de operações regionais; a uma complexa campanha militar da CIA contra milicianos islâmicos na Somália, que incluiu operações de inteligência, treinamento a agentes somalis, prisões secretas, ataques com helicópteros e incursões de comandos; financiamento a operações de contra terrorismo na África Oriental; financiamento e suporte logístico a mercenários, milícias paramilitares (sob a capa de empresas de segurança) e exércitos africanos; criação de uma força expedicionária de operações especiais a operarem no Uganda, Sudão do Sul, RDC e Republica Centro-Africana (onde possuem uma base recente) e as campanhas de propaganda, angariação de testas-de-ferro, espionagem, financiamento a partidos políticos e acçöes de desestabilização em Angola, com utilização dos media no exterior, blogs, “jornalistas e intelectuais”, exploração da questão de Cabinda e da inexistente e apenas virtual questão das Lundas.

Isto, em termos de “ementa”, são apenas as “entradas”. Menos conhecidos são os esforços militares norte-americanos com o fim de envolver forças militares africanas em operações necessárias para os interesses dos USA no continente, como a Special Purpose Marine Air Ground Task Force 12 (SPMAGTF-12), foça de marines que treina as milícias da Força de Defesa Popular do Uganda, administra programas de treino e instrução aos soldados da Missão da União Africana na Somália, administra programas de formação e treino às milícias da Força Nacional de Defesa do Burundi, enviadas depois para a Somália e treina os militares da Libéria em técnicas de controlo de distúrbios, estando em curso neste país a restruturação das forças armadas, através de um programa estabelecido e coordenado pela SPMAGTF-12.

Além disso os USA treinam em contra terrorismo e equipam as forças militares da Argélia, Burkina Faso, Chade, Mauritânia, Níger e Tunísia, planificam 14 grandes exercícios em 2012 e 2013 incluindo simulações em Marrocos, Camarões, Gabão, Botswana, Lesoto, África do Sul, Senegal e Nigéria. Isto não abarca toda a dimensão das missões de treino e acessória dos USA em África. Por exemplo os USA organizaram recentemente uma reunião com 11 nações africanas – Costa do Marfim, Gambia, Libéria, Mauritânia, Serra Leoa, Senegal, Cabo Verde, Benim, Nigéria e Ghana – para realização de um exercício naval conjunto, não incluído na lista do Africom, com o nome de código Saharan Express.

América Latina

Desde os seus primórdios os USA interferiram frequentemente no Caribe e na América Latina. Actualmente os USA incrementaram as suas operações nesta região, aplicando a sua nova fórmula. O México e a Colômbia têm servido de testes para aplicação do novo formato de intervenção, através da DEA e da CIA. Neste ano o Pentágono reforçou as suas operações de combate ao narcotráfico nas Honduras, actuando desde a Base de Morocón e outros campos espalhados pelo país. Recentemente realizou-se um exercício conjunto o Beyond the Horizon 2012, entre forças especiais norte-americanas e forças militares hondurenhas. Por sua vez os Boinas Verdes têm treinado as Forças de Operações Especiais das Honduras e uma equipa de apoio da DEA actua conjuntamente com a Equipa de Reacçäo Táctica das Honduras.

Na Guiana as Forças de Operações Especiais treinam as Forças de Defesa da Guiana em técnicas de ataque aéreo com helicópteros e utilização de forças aerotransportadas. Na Guatemala realizaram-se exercícios conjuntos e ampliou-se a cooperação militar entre os USA e a Republica Dominicana, El Salvador, Peru e Panamá. Em 2013 serão realizados 19 exercícios com o exército colombiano.

Médio Oriente

A retirada do Iraque, a redução de forças no Afeganistão e os insistentes anúncios sobre o seu pivot de segurança nacional até á Ásia, os USA não pretendem, de forma nenhuma, retirarem-se do Médio Oriente. Para lá da continuação das operações no Afeganistão, os norte-americanos trabalham na instrução e treino das forças aliadas na região, na construção de bases militares e na organização de vendas e transferências de armamento e equipamento na zona compreendida entre o Bahrein e o Iémen. Este ultimo país converteu-se, conjuntamente com a Somália no lado africano do Golfo de Áden, numa pista de ensaios para as operações ocultas dos SEALS e da Delta Force – missões de assassinato, rapto e captura - enquanto os Boinas Verdes e os Rangers treinam as forças iemenitas e os drones perseguem e matam os terroristas e “elementos suspeitos” da Al-Qaida.
O Médio Oriente converteu-se numa região exemplo para outra faceta da nova doutrina de guerra: a guerra cibernética, ou ciberguerra. O Centro de Comunicações Estratégicas de Contra terrorismo do Departamento de Estado infiltrou web sites do núcleo da Al-Qaida no Iémen e adulterou os bancos de dados de recrutamento desta organização. Mais completa foi a operação conjunta da norte-americana Agencia Nacional de Segurança (NSA) e dos israelitas da Unidade 8200 contra os ordenadores das instalações iranianas de enriquecimento de uranio.

Os riscos da nova doutrina

Os USA são uma economia debilitada, castigada por mais de 10 anos de guerra, inundada de centenas de milhares de mutilados – 45% dos soldados que combateram no Afeganistão e no Iraque – que sofrem de incapacidades diversas, físicas e psicológicas, necessitados de cuidados cada vez mais onerosos. A nova doutrina apresenta menos riscos na actividade bélica e superficialmente pode trazer menos problemas sociais aos USA. Só que a realidade pode vir a ser bem diferente. A guerra torna-se uma opção cada vez mais atractiva, fácil e com menos custos sociais.

São realistas as preocupações do chefe de Estado Maior Conjunto, Peter Pace, que recentemente declarou que se encontrava preocupado com a velocidade com que as decisões são tomadas. De facto a nova doutrina pode facilmente conduzir a imprevistos e a reacçöes em série. As pequenas confrontações militares tendem a aumentar em tamanho e numero. As guerras a estenderem-se muito alem das fronteiras.

O que actualmente parece uma formula que impulsionará o imperialismo a baixo custo, pode converter-se num desastre de grandes dimensões. E com um risco complementar. Será tão secreto até ser demasiado tarde.

Fontes
Nick Turse; The Case for Withdrawal from Afghanistan; Verso Books, 2012.
Chris Woods; Dejaron de ser secretas las guerras en Yemen y Somalia?; http://www.rebelion.org
Nick Turse; La nueva doctrina de Obama: Un plan de seis puntos para la guerra global; http://www.rebelion.org

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