segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Portugal: “REFORMA DO ESTADO” – UM NOVO MILAGRE

 

Tomás Vasques – jornal i, opinião
 
Paulo Portas, com a apresentação do "guião para a reforma do Estado",resvalou para o nível da santa da Ladeira
 
Numa única semana, o governo que nos pastoreia conseguiu a proeza de: 1) fazer aprovar, através dos seus deputados na Assembleia da República - e sublinho seus, dos partidos do governo, porque nesta democracia em que vivemos os deputados dependem dos líderes dos partidos que os nomeiam e não dos cidadãos que os elegem -, o Orçamento do Estado para 2014 - um diploma que legaliza a pirataria exercida pelo Estado - o roubo sobre salários, pensões de reforma, de sobrevivência e prestações sociais, retirando ao Estado o estatuto de pessoa de bem e respeitador dos seus compromissos; 2) transferir a competência da fiscalização, a cargo das Finanças, para os cidadãos, através de um sorteio semanal de um automóvel para quem alinhar no policiamento, exigindo factura nos actos de compra e venda, fazendo do Estado um gigantesco casino e de cada cidadão um bufo, remunerado por sorteio; 3) depois de dois anos e meio de governação, apresentar um "guião para a reforma do Estado" - uma débil, ridícula e infantilizada tentativa de "enquadrar" o objectivo de privatizar atribuições essenciais do Estado, como a Educação, a Saúde e a Segurança Social.
 
Este último evento, que decorreu na quarta-feira da semana passada, ilustra bem a "Era do Vazio" para onde este governo, mais do que qualquer outro anterior, conduz um país e um povo. A "reforma do Estado" - essa falácia com que se pretende esconder os cortes deste Orçamento do Estado e dos anteriores e, ao mesmo tempo, estabelecer mais cortes no futuro para justificar que os ricos devem ser mais ricos e os pobres mais pobres -, prometida há quase dois anos, foi finalmente anunciada pelo nosso vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, em sessão solene, sob a forma de "guião", como se de uma "visão" se tratasse. Uma nova fundação da Pátria, como em 1143, ou uma "nova Restauração", como em 1640, como o autor deste chorrilho de vulgaridades, na sua irresponsável ligeireza, quer fazer crer. O antigo director do "Independente", que nessa altura amaldiçoava o poder, agora vice-primeiro-ministro, alucinado pelo exercício do poder, quer igualar Afonso Henriques, quando teve a "visão" de ver Cristo aparecer-lhe, na batalha de Ourique, saindo de um raio de sol e conduzindo-o à vitória contra mouros infiéis ou de Fuas Roupinho, que teve a "visão" da Nossa Senhora da Nazaré, quando foi salvo, ele e o seu cavalo, em manhã de nevoeiro, numa falésia, colocando Portugal como um país amparado pela vontade de Deus, como escreveu Alexandre Herculano. Naquela altura, estas "visões" destinavam-se a agradar e a obter os bons ofícios de Roma. As "visões" de hoje destinam-se a agradar e a obter os bons ofícios de Bruxelas e dos credores.
 
Mas, no fundo, Paulo Portas, depois de protagonizar o golpe de Estado de Julho passado, agora, com a apresentação do "guião para a reforma do Estado" apenas resvalou, irrevogavelmente, para o nível da nossa última santa milagreira - a da Ladeira do Pinheiro -, com devotos em todo o mundo, sobretudo na Polónia, e uma catedral na Meia-Via, ali para os lados de Torres Vedras, falecida em Agosto deste ano, esquecida e abandonada, tendo a Igreja Católica pedido o seu internamento nos finais da década de sessenta.
 
PS - A Constituição da República e os Juízes do Tribunal Constitucional têm estado e vão continuar a estar, nos próximos meses, debaixo de fogo cerrado de todos os "visionários". Dizem aqueles que têm "visões divinas" que os juízes devem interpretar a Constituição de modo a adequá-la às "visões" do actual governo, da troika e dos credores. Já foi aberto um precedente nestas "adequações": a senhora procuradora-geral da República deu a notícia de um estranho "arquivamento" de um processo de inquérito contra um cidadão angolano, dando a ideia de ter sido arquivado à medida de uma "visão" que Rui Machete teve e que revelou a uma rádio angolana.
 
Jurista, escreve à segunda-feira
 

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