quarta-feira, 1 de novembro de 2017

PARA UMA CULTURA DE INTELIGÊNCIA EM ANGOLA



Martinho Júnior | Luanda 

1- A ocupação humana do que é hoje o território angolano, concentrando-se o grosso da população (cerca de 75% dos nacionais) num triângulo com base no litoral atlântico e vértice na região central das grandes nascentes (cerca de 25% da área total nacional), é um fenómeno extremamente sensível a levar em consideração por parte dos estudiosos e de quem procure abordar o conhecimento integrado do país.

Esse fenómeno é uma redundante de ordem antropológica e histórica, resultante da relação entre as questões físico-geográficas-ambientais-hidrográficas, com as questões humanas, desde logo as que se prendem com a ocupação vital do território, mas não se resumem só a tal, em função da tardia chegada dos europeus pelo mar.

As migrações bantu chegaram muito antes da chegada dos portugueses e foram sempre continuando, a partir dum trajecto em arco de círculo com origem sobretudo no actual território da Nigéria, que atingia o interior do continente e vinha desembocar mais densamente no planalto central (actualmente Províncias do Huambo e do Bié), ou se dispersavam de norte a sul (da serra da Canda à serra da Chela), pelas montanhas e suas encostas orientais, voltadas a nascente e livres do sol da tarde.

2- Foi a partir do mar que os portugueses chegaram e a escolha da sua implantação redundava desde logo das observações geográficas dos marinheiros e dos problemas logísticos da navegação à vela de longo curso, que se punham às tripulações.

Na costa a sul do portentoso Congo, para que as opções de aguada e a segurança fossem melhor garantidas aos recém-chegados europeus, foi escolhida, como local de abrigo e ancoradouro, a baía de Luanda, que comparativamente a Benguela e mais tarde a Moçâmedes, tinha a vantagem do alargamento à sua latitude da planície do litoral, uma planície bem irrigada e em todo o caso também com uma baixa densidade populacional de ocupação autóctone.

Nas proximidades da baía de Luanda, de norte para sul, fluíam rios como o M’Bridge, o Loge, o Lifune, o Dange, o Bengo, o Cuanza, o Longa e o Queve, ou seja: numa parcela de meridiano com cerca de 300 milhas náuticas, pelo menos 8 opções de água doce.

Toda a geografia humana de Angola, em especial durante o período final do colonialismo, reflectiu o domínio português e os nexos de sua implantação, que determinaram os pólos de desenvolvimento que então foram implementados até 1975.

3- Angola, cujo desenho de espaço físico-geográfico deriva grosso modo da Conferência de Berlim, reflecte até hoje as migrações bantu e portuguesa e os seus impactos, implicadas na maior ou menor densidade das articulações humanas de nossos dias.

As migrações bantu chegaram por terra, numa cadência mais espaçada e lenta, em circuitos que não se apagaram: com a expansão dos desertos a norte do continente (Sahara e Sahel), a compressão sobre a região da água interior aumentou (RDC e Grandes Lagos, mas também Angola) e os caudais humanos continuam a fluir, agora de origens mais alargadas (das regiões inóspitas de desertos quentes, para as regiões com água interior).

A nível internacional só se tem dado relevo às migrações africanas de sul para norte (atravessando o Mediterrâneo e tendo como maior origem as regiões do Sahel), após o desastre do ataque da Pentágono e da NATO à Líbia em 2011, mas a migração do Sahel para sul não tem sido acompanhada, nem estudada, esquecendo-se por completo as causas mais profundas (a incessante busca por espaço vital em África) e outras causas (o financiamento de redes migratórias de toda a espécie, algumas delas de origem wahabita-sunita), que estimulam essa deriva atraída pelo espaço vital e pelas riquezas minerais na RDC, Grandes Lagos e em outros países da Africa Austral, com Angola em destaque.

A migração portuguesa, que em função das questões antropológicas e inerentes ao secular processo colonial se tornou dominante embora sendo sempre minoritária a partir do século XV, chegou por mar até praticamente a década de 70 do século XX e por isso influenciou sobremodo na implantação e no crescimento das áreas urbanas concentradas em Luanda e Benguela (hoje Lobito-Catumbela-Benguela), que se tornaram em princípios da década de 70 do século passado, dois dos principais polos de desenvolvimento e testas-de-ponte da penetração em direcção ao interior.

No essencial a geografia humana do país e a ossatura infraestrutural, estrutural e de natureza económica, resulta da conjugação das duas fluências mas reflectindo o domínio colonial, concentrando-se essencialmente num amplo triângulo com base em toda a linha de costa e vértice na Região Central das Grandes Nascentes, que se pode considerar de ocupação, influindo nos outros três triângulos (de intervenção) a norte, leste e sul.

Esse triângulo tem no traçado do rio Cuanza um factor hidrográfico limitativo de vulto e, com as acções inscritas no Exercício ALCORA, entre as autoridades coloniais portuguesas e as do “apartheid”, (desde a segunda metade da década de 60 até 1974 no século XX) em relação ao “plano do Cunene”, reforça a metade sul do triângulo oeste do território em relação às medidas de ocupação do território e maior densidade da malha político-administrativa.

4- No fundo o colonialismo português catalisou a atracção humana no triângulo oeste, longe das fronteiras, fundamentalmente por que se por um lado foi muito penosa a sua penetração no interior, por outro lado esse interior transfronteiriço era sujeito às razias dos tempos em que os africanos eram levados à força, para serem utilizados como mão-de-obra escrava na América.

Refira-se que faz precisamente um século que não conseguiam ainda dominar a bolsa de resistência nos Dembos, que só seria vencida em 1918 e 1919 graças aos reflexos do investimento de origem anglo-saxónica: início da implantação da Diamang nas Lundas e a criação do Caminho de Ferro de Benguela.

A entrada desses interesses (indexados às potências com economias movidas com os ganhos da revolução industrial), implicaram num maior desafogo económico e financeiro, que beneficiaram a fazenda da atrasada colónia, (com os portugueses a ganharem mais recursos para o exercício do seu domínio), acabando por via de sangrentas campanhas com as resistências autóctones disseminada no espaço colonial na década de 20, até à eclosão da Luta Armada de Libertação Nacional em 1961.

Quer dizer: mesmo com a independência e o exercício da soberania nacional durante 42 anos, não foi contrariada a projecção infraestrutural, estrutural e económica do colonialismo português, em grande parte por que não se havia antes conseguido um ambiente de ausência de tiros, apesar de ser possível implementar em Angola uma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável, onde se poderão inscrever todas as iniciativas a muito longo prazo, no decorrer dos próximos anos, décadas e nos próximos séculos!

Uma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável é uma projecção vital que reflecte não mais a densidade e o peso dos processos coloniais, mas a revitalização necessária e possível da nossa própria independência e soberania, o renascimento africano dentro das fronteiras de Angola, gerando uma cultura nacional de inteligência capaz de integrar todas as actividades humanas a desenvolver futuro adentro, passando da tradicional região de ocupação (a de maior densidade da malha político-administrativa), para a região de intervenção (triângulos sul, leste e norte do quadrilátero territorial nacional)!

5- O que tenho paulatinamente vindo a abordar ainda que a espaços, tem implicações no espectro humano da complexidade nacional com uma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável integrador de filosofias, de conceitos, dos programas, das acções e da formação da cultura inteligente do conhecimento e domínio de todo o espaço nacional, tendo como referência fulcral a região central das grandes nascentes (planalto do Bié) e iniciando-se com ela e implementando-se a partir dela.

Assumir uma geoestratégia a partir da região central das grandes nascentes (vide Instituto Nacional de Recursos Hídricos –http://www.inrh.gv.ao/portal) organizando as acções humanas, é desde logo controlar as nascentes dos grandes rios que a partir dela dispersam, estabelecendo ao seu entorno parques naturais, reservas ou coutadas, de forma a começar por proteger a biodiversidade desde logo nas origens dos cursos de água, ou dos lençóis freáticos.

A Lei das Águas (nº6/02, de 21 de Junho) terá de ser revista e adaptada portanto, na previsão duma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável para todo o século corrente (até e para além de 2025).

As universidades e institutos superiores poderão assim, a partir desse controlo embrionário, fazer a sua integração nas actividades relativas às ciências da natureza, ciências humanas e ciências exactas, promovendo os estudos e investigações que há a realizar em função da rede hidrográfica nacional, dando início a uma cultura de inteligência abrangente a partir do espaço fulcral do conhecimento na região central das grandes nascentes, que leva em consideração o inter-relacionamento homem – circuitos hidrográficos – ambiente.

A partir dessa prioridade, fica aberta a oportunidade para o alargamento das projecções por via dum conhecimento integrando parâmetros de desenvolvimento sustentável e amigo da natureza, alargando-o paulatinamente até aos limites do território nacional.

No plano económico, necessário se torna desafiar a comunidade de especialistas a fim de contribuírem para começarem a projectar em função dessa geoestratégia para um desenvolvimento sustentável, tendo em conta alguns aspectos que já se poderão começar a integrar nessas projecções, entre elas a produção nacional de energia e os seus programas em curso.

A vocação para a diversificação económica merece integração nessa geoestratégia para um desenvolvimento sustentável.

As acções e projecções poderão partir desse embrião para equacionar todos os programas que se poderão levar a cabo futuro adentro com horizontes alargados até aos próximos séculos, a partir do fulcro físico-geográfico-ambiental-humano do país.

Entre os programas já em curso que poderão ser indexados aos conceitos a desenvolver no quadro dessa geoestratégia para um desenvolvimento sustentável, estão os que se referem à produção de energia (“Angola Energia 2025” – http://www.angolaenergia2025.com/pt-pthttp://www.angolaenergia2025.com/pt-pt/conteudo/documentos).

Ao nível do estado angolano o embrião para a geoestratégia pode integrar comissões conjuntas que abarcam especialistas do Ambiente, da Energia e Águas, da Geologia e Minas, da Educação, da Cultura, da Defesa, da Administração do Território e de outros, de modo a formar a plataforma de conhecimentos do embrião, a partir da qual se incrementará a cultura de inteligência nacional.

O trabalho de energia e Águas é atá agora o que mais se aproxima duma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável e é necessário que o Ambiente corresponda imediatamente à equação fundamental das nascentes da região central.

Martinho Júnior - Luanda, 28 de Outubro de 2017.

Imagens:
- Centro geodésico de Angola;
- Dois mapas indicadores da equação da água interior em Angola;
- Trajectória do rio Cuanza, o maior inteiramente nacional e o maior em potencial de energia hídrica;
- Barragem de Capanda, que regula o caudal do curso médio do rio Cuanza;

A consultar:
- A geoestratégia para um desenvolvimento sustentável – http://paginaglobal.blogspot.com/2016/01/geoestrategia-para-um-desenvolvimento.html
- ANGOLA DEVE REEQUACIONAR AS ABORDAGENS PARA REFORÇAR AS INICIATIVAS DE PAZ – http://paginaglobal.blogspot.com/2017/05/angola-deve-reequacionar-as-abordagens.html

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