quarta-feira, 1 de agosto de 2018

EUA | Quem lucra com as crianças separadas


Capitalismo e barbárie: Washington oferece contratos multimilionários para que corporações envolvidas em guerras ganhem com o aprisionamento infantil. Prática remete a história oculta do regime nazista

Marianna Braghini | Outras Palavras

Encarcerar crianças imigrantes, em atentado aos direitos humanos, pode ser também fonte de lucros? No mês passado o site norte-americano The Daily Beast publicou reportagem denunciando algumas das empresas que ganham muito, com a nova política de imigração do governo Trump. Como se sabe, elas vêm sendo sistematicamente separadas de seus pais e abrigadas em instalações provisórias do Estado. Conforme os relatos e imagens dos jornais, pode-se dizer, no mínimo, que se trata de condições inadequadas para crianças em situação de vulnerabilidade. Mas as revelações de agora fazem lembrar episódios mais dramáticos: o papel de grandes empresas alemãs (como a Volkswagen e a Krupp) e mesmo norte-americanas (Ford e General Motors) no apoio industrial e tecnológico ao regime nazista – e a seus campos de concentração.

Escrito por Betsy Woodruff, repórter de assuntos da política do portal, e Spence Ackerman, (integrante do grupo que ganhou o Prêmio Pulitzer, pelas revelações de Edward Snowden), o artigo revela os contratos milionários proporcionados pela detenção de crianças imigrantes (ou refugiadas). Acrescentou que as empresas contratadas para executar os diversos serviços não raro já estiveram envolvidas em escândalos de corrupção.

Os famosos contractors, como são chamados os agentes de companhias de segurança ou militar privadas, não são novidade no âmbito da política de guerra dos EUA. Largamente utilizadas em conflitos armados internacionais, ganharam maior notoriedade na guerra contra Iraque e Afeganistão nos anos 2000, e continuam prosperando graças as agências do governo norte americano, seja em matéria de “defesa” nacional ou segurança interna, como mostra a reportagem do The Daily Beast.

Os jornalistas apontam: a nefasta política de separar crianças imigrantes ou refugiadas de suas famílias é muito lucrativa para o setor de segurança privada. Sua investigação mostra como empresas vem anunciando uma série de vagas envolvendo trabalhos de supervisão de procedimentos nos abrigos, transporte de jovens e crianças desacompanhadas, coordenação de programas de apoio e etc. Uma das corporações, na qual se foca o texto – a MVM Inc – já possui contratos com o governo que a colocam em prontidão para corresponder às demandas criadas com a nova política de imigração.

Seu envolvimento é repleto de irregularidades. Em 2008 a empresa chegou a perder um contrato com a própria CIA, em serviços no Iraque, por não fornecer o total de guardas de segurança para o qual foi paga. Além disso, foi denunciada por orientar seus funcionários a fazer a busca e porte de armamentos e explosivos não autorizados. Recentemente, em 2017, foi processada, ao obrigar um de seus funcionários, um muçulmano praticante, a raspar a barba – após o mesmo ter reportado um supervisor por assédio.

Procurado para responder a algumas perguntas dos jornalistas, o diretor da divisão de segurança nacional e segurança pública da MVM, Joe Arabit, toma as acusações contra a companhia de forma leviana. Repete jargões do mundo corporativo como ”A MVM se orgulha de ser uma companhia inclusiva que cria um ambiente de trabalho receptivo e diverso” e que procura o tipo de funcionário que “ama o desafio de encontrar soluções criativas para questões dinâmicas e complexas”. A companhia já ganhou 43 milhões de dólares desde setembro de 2017. Um dos contratos prevê o serviço de assistência em operações dos abrigos de emergência para crianças desacompanhadas até setembro de 2022. Sugere que a política de separação das crianças pode se prolongar por todo o governo Trump e mesmo depois. Vale lembrar que ataques frontais dos EUA aos direitos humanos – o campo de torturas de Guantánamo, por exemplo, surgiram em governos conservadores (no caso George W. Bush), mas foram mantidos por seus sucessores “democratas” (Barack Obama).

Outra gigante da segurança privada já vem movimentando o setor com anúncios de vagas, a General Dynamics é a terceira companhia que mais lucra em contratos com o Estado norte-americano. Somente em 2017, foram concedidos 15 bilhões de dólares para a prestação de serviços. E não fica atrás no quesito corrupção: deve US$ 280,3 milhões em multas por desvios de comportamento.

O advogado Matthew Kolken, que costuma representar as crianças separadas de seus pais, expressa bem a preocupação do envolvimento das companhias na situação: “Estou presumindo que nas suas declarações de missão, um dos componentes centrais não é o cuidado com crianças refugiadas(…) é inacreditável que este tipo de indústria seja seriamente considerada para o cuidado com as crianças. Ela não tem o que é preciso para realizar a tarefa. Você gostaria que seu filho fosse colocado nas mãos desta indústria? Eu sei que eu não.”

Segundo a reportagem, como relatado pelo The New York Times, já há 100 abrigos da agência responsável – o Escritório de Reassentamento de Refugiados em – em pelo menos 17 estados. Mais de 11 mil crianças estão sendo mantidas separadas de suas famílias.

A busca de lucros produziu em outras épocas históricas tragédias humanitárias ainda mais graves. Em outubro de 2016, a revista Superintessante resgatou uma história há muito conhecida – mas frequentemente ocultada. O regime de Adolf Hitler recebeu, ao longo de todo o seu percurso, o apoio interesseiro de grandes corporações alemãs, suíças e norte-americanas. Os novos fatos indicam que os tempos mudaram, mas a lógica central do capitalismo continua cega e cúmplice dos grandes crimes contra a humanidade.

Fotos: 1 - Campo de detenção infantil em Nogales, estado do Arizona, EUA. Aprisionadas, dezenas de crianças dormem em celas coletivas e precárias; 2 - Hitler entusiasma-se com o protótipo do Fusca. Durante a II Guerra, Volkswagen passaria a fabricar material militar, empregando, como escravos, internos em campos de concentração nazistas

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