sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Portugal | O depósito da Caixa Geral


Miguel Guedes | Jornal de Notícias | opinião

Assim mesmo, à força. À descarada, à frente de todos nós, dentro do Estado e com o Estado na lapela, rubor de distinção, tropa de elite de abutres. Há uma abissal diferença entre o vulgar carteirista e o devedor de milhões à Caixa Geral de Depósitos (CGD), furto individual vs. roubo colectivo. Muitos crimes à espera de sentença se, entretanto, não aparecer a prescrição.

Suspiremos. Como trave-mestra da distinção, a falta de vergonha na face oculta destes delinquentes bancários. Agora, 5 mil milhões de euros depois, percebe-se como a recapitalização da CGD entrou no bolso de todos os contribuintes com a ligeireza de uma ave de rapina. Era a única solução para salvar o sistema bancário nacional da falência por culpa da gestão ruinosa, casineira e amigalhaça de um conjunto de vermes que aproveitaram o lixo para fazer depósito de sujeira para sempre.

Um assassínio sabujo de carácter aos princípios. E partimos então para a terceira Comissão de Inquérito como se fossemos todos idiotas.

A terceira Comissão de Inquérito à CGD é profundamente "sui generis" porque, sendo fruto de um amplo consenso entre os partidos com assento parlamentar (só o PCP se absterá por considerar que está tudo concluído ou que nada há por concluir), sucede a duas outras comissões onde tudo o que o PS, PSD e CDS fizeram foi brincar com os contribuintes, com o país, com todos nós. Uma primeira Comissão de Inquérito onde as conclusões que se adivinhavam seriam terríveis para todos, abalando todas as trincheiras. E, como tal, profundamente inconveniente, morta antes que parisse.

Uma segunda Comissão, infantil jardim de escola, onde os partidos substituíram a roleta-do-casino-CGD que tão bem conheciam por dardos de plástico-pacote, atirados uns aos outros para entreter e escarnecer nos corredores. A terceira Comissão que está agora em cima da mesa é, tão-só e justamente, uma forma de lavar a face do sistema político que permitiu, durante anos a fio, que este punhado de criminosos caminhasse alegremente para a prescrição. Como se prevê pelo porte dos bandidos.

Ainda assim, há vantagens neste consenso à terceira. À boleia de uma auditoria que devia ter sido feita há pelo menos cinco anos - quando era já evidente que a CGD tinha imparidades - que se investiguem as operações do banco desde o ano 2000, cruzando as ligações da Caixa com o BPN e o BCP. Que se consiga fortalecer a ideia de uma CGD agora sólida, domínio público, longe dos irregulados tempos em que o assalto acontecia perante os cândidos olhos do regulador. Que se aponte directamente para os créditos identificados na auditoria, deixando de lado o que só aproveita à dilacção de tempo dos salteadores bancários. Que haja responsabilidade política, doa a quem doer. Não haverá uma quarta oportunidade para criar uma última boa impressão.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Músico e advogado

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