segunda-feira, 22 de abril de 2019

Portugal | 25 de Abril: sempre!


Rui Sá* | Jornal de Notícias | opinião

Tive a oportunidade, há um ano, de recordar, aqui, como foi o meu 25 de Abril de 1974. Sendo certo que, a partir desse, mais 45 se seguiram. Comemorados, sempre, com alegria e a consciência de que é data que só se pode comemorar e que as lamentações de rumos tomados e de expectativas frustradas não se deve ao 25 de Abril mas sim àquilo que, coletivamente, fizemos com a liberdade que então conquistámos.

E, de todos os 25 de Abril que comemorei, há um que ficou mais presente na minha memória e que, não tenho dúvidas, contribuiu para aquilo que, passados estes anos, sou, do ponto de vista político e humano. Como é sabido, em 1975 e em 1976, o 25 de Abril comemorou-se de uma forma diferente, mas também festiva. Nesses dois anos, a data coincidiu com as primeiras eleições livres prometidas pelo MFA: em 1975, para a Assembleia Constituinte e, em 1976, para a Assembleia da República. Não houve, assim, as habituais comemorações, embora recorde que, no dia 24 à noite, o povo saiu à rua para comemorar a efeméride. Foi, assim, em 1977 que se comemorou, sem o formalismo e a responsabilidade dos atos eleitorais, o 25 de Abril. Com inúmeras comemorações espalhadas por todos os sítios, promovidas por coletividades, associações de moradores, sindicatos e com a espontaneidade que ainda se vivia nesses tempos (recordo uma frase de um meu irmão, regressado à cidade do Porto por essa altura, de que "parecia o S. João", com tantas festas espalhadas por todos os recantos). Pois nesse dia 24, à noite, comemorei, no estádio do INATEL, a chegada do 25 de Abril. Sendo que as comemorações passaram pela projeção, ao ar livre, do filme "Chove em Santiago" sobre o golpe de Pinochet que derrubou o legítimo Governo de Unidade Popular presidido por Salvador Allende. Tinha, na altura, 13 anos, e esse filme, assistido ao lado de amigos da mesma idade e num ambiente de fraternidade e de fervor democrático, marcou-me para a vida, consolidando a incipiente predisposição para uma opção política que hoje se mantém. Não sei quem organizou essa iniciativa, mas fico-lhes eternamente grato por terem contribuído para essa opção....



Seguiram-se muitos mais 25 de Abril, passados em vários locais e com diferentes responsabilidades e estados de espírito. Impressionando que, passados tantos anos e com a maior parte da população nascida após o 25 de Abril, continuem a ser muitos aqueles que não abdicam de comemorar esta data maior da nossa História.

Apesar dos sinais preocupantes que surgem em Portugal, na Europa e no Mundo, de que aqueles que em 25 de abril derrotámos, estão aí, defendendo, como sempre, mas agora à luz do dia, a intolerância, o ódio e a violência gratuita. O que exige maior mobilização para comemorar Abril!

*Engenheiro

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