domingo, 19 de maio de 2019

UMA LUTA SOBRE BRASAS I - Martinho Júnior

HOJE JÁ É TARDE DEMAIS

Martinho Júnior, Luanda 

EM SAUDAÇÃO AO 25 DE MAIO, DIA DE ÁFRICA, QUANDO HÁ 56 ANOS, EM GRANDE PARTE EM FUNÇÃO DA LUTA DE LIBERTAÇÃO, SE CRIOU A ENTÃO “OUA”, ORGANIZAÇÃO DA UNIDADE AFRICANA (https://www.officeholidays.com/countries/africa/african_unity_day.php)!

No Cunene, de há pouco mais de 100 anos a esta parte, estão-se jogando algumas das sagas mais decisivas do povo angolano e da África Austral.

Redescobrir essas sagas em nome da vida e das futuras gerações, é garantir a construção da plataforma do renascimento africano, no âmbito duma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável que deveria ter sido justamente implementada em Angola de há pouco mais de 100 anos a esta parte, precisamente desde o momento em que ocorreu (perdendo-se tanto tempo) a conquista colonial!

Na luta contra a desertificação e a seca, foram roubados a África mais de 100 anos, pelo que na aplicação da lógica com sentido de vida torna-se premente acordar face aos atrasos que a que temos sido sujeitos em função dos processos histórico e antropológico, ganhando capacidade de consciência crítica em relação aos factores causais dos fenómenos correntes da expansão para norte dos desertos do Namibe e do Kalahári, do aquecimento de toda a região em conformidade com os parâmetros do aquecimento global, do ardente rigor da seca que está a pôr em causa a vida transfronteiriça envolvendo todo o sul de Angola e o norte da Namíbia e da premência em instalar uma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável, garante do controlo e gestão da região central das grandes nascentes e da “rosa-dos-rios” dela derivada!

Hoje já é tarde demais, por que o possível esforço de luta contemporânea, o esforço angolano de hoje, só pôde ser realizado depois de vencido o colonialismo, depois de vencido o “apartheid”, depois de vencidas algumas de suas sequelas e ganhando consciência crítica e de vanguarda face ao capitalismo neoliberal que tem sido inculcado em África formatando mentalidades nas elites servis, quando tudo se deveria ter iniciado em tempo oportuno precisamente há pouco mais de 100 anos!

Também por esta razão tenho considerado que Angola tem apenas (sobre)vivido (?) em “séculos de solidão”!

 
01- A partir do momento em que a colonização portuguesa em meados do século XIX, procurava em África sair das feitorias e fortes do litoral, para dar os primeiros passos intervencionistas em direcção ao interior do continente, o poder que chegou por mar procurou dominar assenhoreando-se de espaço vital e das linhas de água interior correspondentes, sabendo que isso seria determinante para o êxito de sua própria“missão” colonizadora. (Constate-se por exemplo: http://angola-inteligente.over-blog.com/article-historia-de-angola-78297489.html).


Foi para isso que serviram as fortalezas espalhadas ao longo do enredo atlântico angolano: garantir simultaneamente apoios a quem circulasse por mar e, apenas quatro séculos depois, a quem procurasse penetrar no mais profundo do continente africano (https://www.revistamilitar.pt/artigo/923)!

Por essa razão, enquanto lentamente se abandonavam as premissas inerentes ao “tráfico negreiro”, que haviam arregimentado sua clientela autóctone a fim de realizar continente adentro as “guerras de kwata-kwata” providenciando o fornecimento de escravos (https://roselindagonalvez.wordpress.com/o-trafico-de-escravos-em-angola/), os colonizadores começaram somente no século XIX a arriscar na expansão em direcção ao interior, combatendo com vista a subjugar todas as resistências que encontrassem pelo caminho, tomando medidas em relação à concorrência e começando a conhecer um continente que para eles era “opaco”, “exaustivo” e hostil.

Ao contrário do que fizeram na Ásia, em África os colonizadores portugueses impuseram abruptamente a partir da orla costeira a sua força dominante, avassaladoramente despótica, na conquista do espaço vital, única forma deles próprios poderem sobreviver e agarrar-se paulatinamente e de forma progressiva em direcção ao miolo do interior continental…


Na Ásia o jogo foi obrigatoriamente outro:

Na Índia começando por conquistar alguns pontos de apoio na costa e fundar algumas fortalezas, foram-se aliando aos suseranos para com eles e sob sua cobertura se instalarem sem se reocuparem muito com  interior, tal como na China se aliaram aos mandarins, sempre com o comércio como principal interesse e conveniência e de forma a, tendo em conta a sua exígua força humana, ganharem campo de manobra e a cultura fluida apenas pronta para os negócios e as conexões familiares forjadas neles ou a partir deles…

Por essa razão na Índia os “bem comportados” portugueses consolidaram os “prémios” de Goa, Damão e Diu e na China o território de Macau (https://pt.wikipedia.org/wiki/Portugueses_na_%C3%81sia)!

Nas ilhas do Japão a sua manobra foi contudo muito mais circunscrita e sujeita ao poder dos habitantes das ilhas que não se deixaram familiarizar: em resultado disso, nem suficiente campo de manobra conseguiram!...

Desse modo, os portugueses não foram tão “decisivos” na Ásia (apesar de serem os primeiros europeus a chegar por mar), antes iniciaram processos recíprocos de aculturação nas orlas costeiras (e nunca em direcção ao interior do subcontinente indiano, ou do sudeste asiático), mas em África tornaram-se tão “decisivos” quanto Angola ainda hoje continua a ser “planificada”, “estruturada” e “assimilada”, em termos de linhas de ocupação e de intervenção, como se Diogo Cão (http://cvc.instituto-camoes.pt/navegaport/d15.html) desse hoje à costa de forma omnipresente com seus padrões de pedra, impedindo na superestrutura ideológica e mental que o estado angolano assuma independência geoestratégica em benefício de todo o povo angolano e dos povos da região, particularmente os do interior!

Em resultado disso o triângulo do litoral é, no quadrilátero angolano, o que concentra em termos de ocupação a esmagadora maioria dos polos de desenvolvimento económico e cerca de ¾ partes da população total, enquanto os outros três triângulos, em especial os situados a leste e a sul, sendo triângulos de intervenção, estão rarefeitos em população, estruturas e infraestruturas, com uma insignificante malha político-administrativa e praticamente sem polos de desenvolvimento e atracção humana (http://paginaglobal.blogspot.pt/2012/08/angola-demografia-identidade-nacional.html).


02- Enquanto na Ásia a fim de fazer comércio com meios humanos exíguos, os portugueses foram quase sempre servis e benquistos, em África, com a mesma exiguidade de meios humanos, começaram logo por exaurir de forma mais bárbara que lhes foi possível o manancial africano: implementaram a escravatura com vista a suprir sus actividades económicas nas Américas levando para lá, à força, mão-de-obra escrava e com isso prepararam terreno para as iniciativas da conquista do interior garantindo para seu domínio a ocupação do espaço vital e das linhas hidrográficas interiores (https://grupo02_8b.blogs.sapo.pt/4382.html).

Foi assim que todos os colonialismos europeus prepararam a Conferência de Berlim nos anos de 1884 e 1885, dividindo África entre si e como se os africanos não existissem, impondo sua exclusiva vontade e não dando tempo nem espaço ao que os africanos tivessem o que quer que fosse para dizer (https://www.todamateria.com.br/conferencia-de-berlim/)!

Em nenhum outro continente houve uma Conferência desse género e, mesmo aqueles que chegavam atrasados, como o Rei Leopoldo, compensavam em ampla malvadez e em poucos anos, o que outros já haviam feito durante séculos (https://www.wook.pt/livro/o-fantasma-do-rei-leopoldo-uma-historia-de-voracidade-terror-e-heroismo-na-africa-colonial/58223)!

Alguns dos “paladinos” da democracia de hoje procuram fazer esquecer o que antes de forma tão barbaramente empenhada levaram a cabo e seus “civilizados” afiliados em direitos humanos jamais abordam essa tão complicada questão da divisão colonial que excluiu por inteiro os povos africanos… é mais fácil e prático agarrarem-se aos oportunismos neoliberais dos nossos dias, de que se socorrem e aos seus argumentos como se nem introdução à história e à antropologia houvesse que ser!

A tradicional hipocrisia e cinismo à portuguesa teve essa forja de experiências, que alimentam ainda hoje os relacionamentos internacionais na perspectiva dos interesses da oligarquia portuguesa avassalada pela União Europeia e pela NATO: servis e sempre disponíveis em função dos interesses dos fortes (sobretudo dos interesses do quadro da hegemonia unipolar) e reitores por vezes dos mais perversos contraditórios e ambiguidades em relação aos outros, conforme se pode constatar no que toca às suas decisões de assimilação em direcção a África e no apoio ao fraccionismo de Juan Guaidó na Venezuela Bolivariana, onde existem mais de 500.000 lusodescendentes, a maior parte deles bolivarianos ou seus apoiantes! (https://paginaglobal.blogspot.com/2019/02/o-encaixe-dos-teleguiados-guaidos-tugas.html).

Ao longo das iniciativas armadas de penetração no continente africano levadas a cabo pelo colonialismo português, esteve patente todo esse caudal de hipocrisia, de cinismo, de ambiguidade e de contraditórios e logicamente é também esse o quadro do seu comportamento na sua iniciativa colonial (e posterior) em Angola que integrou indelevelmente as ardentes sagas da região a leste do Cunene, que até 1845 era desconhecida para eles e por conseguinte dada como inexistente!

Martinho Júnior | Luanda, 13 de Maio de 2019

Imagens:
01- As rotas de Diogo Cão e a implantação de padrões e demais sinais;
02- Padrão implantado por Diogo Cão no Cabo Negro (Angola);
03- Mapas de antes e depois da Conferência de Berlim;
04- Imagem da Conferência de Berlim sob os auspícios de Bismarck;
05- O além Cunene não existia até 1845.

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