sexta-feira, 5 de março de 2021

EUA | O partido da guerra ganha sempre

«A América está de volta», garante Biden. E a agitação militar crescente no Médio Oriente confirma-o. Se alguma coisa mudou na situação militar internacional, foi no sentido de se agravar.

José Goulão* | AbrilAbril | opinião

Joseph Biden mandou bombardear a Síria a pretexto de ataques dirigidos contra as suas forças de ocupação presentes no Iraque; e fê-lo ao mesmo tempo que aviões militares israelitas atacavam Damasco. Como era de esperar, a realidade demonstra que em Washington mudaram apenas as moscas. Nas eleições norte-americanas o partido único, o partido da guerra, ganha sempre.

O presidente dos Estados Unidos explicou que os ataques contra território sírio nos últimos dias de Fevereiro – outros irão seguir-se, com toda a certeza – foram executados para «proteger americanos». É a forma imperial de ver as coisas: Biden não admite que sejam incomodadas as tropas norte-americanas que ocupam outros países apesar de não terem sido convidadas ou de se recusarem a ir embora. O agressor vitimiza-se e assim engendra pretextos para alimentar a guerra e prosseguir a ocupação.

Os recentes ataques militares contra a Síria soberana foram explicados com os mesmos argumentos usados por Donald Trump há um ano durante a escalada de guerra que se seguiu ao assassínio do general iraniano Qasem Soleimani: punir a organização xiita «pró-iraniana» Kataeb Hezbollah, que opera com bases na região fronteiriça entre a Síria e o Iraque.

Há um ano provou-se que este grupo não atacara quaisquer instalações ocupadas por norte-americanos no Iraque. Por detrás das operações estiveram provavelmente efectivos do Isis ou «Estado Islâmico», uma vez que foram realizadas em território sunita iraquiano.

Desta feita, o novo presidente dos Estados Unidos mandou atacar instalações do mesmo Kataeb Hezbollah na Síria, acusando-o também de ter atingido interesses norte-americanos no Iraque. Segundo o New York Times, uma «bíblia» nestas matérias, ter-se-ia registado a morte de um cidadão dos Estados Unidos. Depois corrigiu: afinal ficou só ferido; mas nenhuma fonte divulgou a sua identificação nem o que tal pessoa estaria a fazer no Iraque. Nos ataques do início de 2020 também começou por haver «mortos», que depois foram transformados em «feridos» e sem qualquer identificação.

A árvore e a floresta

Agora, tal como há um ano e na generalidade dos casos, os maus da fita são os «pró-iranianos» – em última análise o Irão.

Muito mais importante, porém, do que os pretextos invocados por Washington são os actos de guerra executados contra Estados soberanos como são o Iraque e, neste caso mais recente, a Síria.

Os bombardeamentos confirmam uma ideia recorrente nos serviços secretos ocidentais, isto é, que Biden «vai tentar acabar o que Obama começou». O que Obama começou na Síria, em 2011, foi uma operação de mudança de regime do tipo «primavera árabe» e que se transformou numa agressão militar externa como pano de fundo para um objectivo mais amplo: o desmantelamento da Síria através da criação de entidades de base étnica e confessional antagónicas entre si.

Esta é a floresta encoberta por episódios que alimentam as guerras sem fim no Médio Oriente para tirar de cena os Estados soberanos e independentes inconformados com o papel hegemónico de Israel na região e, sobretudo, com a sua prática de anexação e extinção da Palestina.

Em Washington chamam «solução de Israel» a esta estratégia de desmembramento de estados soberanos árabes como o Iraque, a Síria, a Líbia e o próprio Líbano. O pobre Líbano, país ao que parece «refém do Hezbollah», como apregoam as reportagens de tonalidades sionistas publicadas e emitidas agora, em sintonia e em série, pela comunicação social corporativa ocidental, que nunca se incomodou a sério com os sofrimentos do povo libanês para defender a sua independência contra as provocações e agressões permanentes de Israel ao longo de quase 50 anos.

Ao mesmo tempo que Biden dizia bombardear o Kataeb Hezbollah, aviões de guerra israelitas atacaram mais uma vez na região de Damasco. Obviamente não se trata de coincidência mas sim de uma estratégia de demonstração de alinhamento e força, sobretudo agora que Israel foi «anexado» ao CENTCOM, o comando operacional dos Estados Unidos para o Médio Oriente, que agrega igualmente as petroditaduras árabes. No horizonte está, portanto, um aprimoramento do quadro de ameaças ao Irão, a par das acções para isolar este país, no qual se insere a guerra para desmantelar a Síria.

Ao ordenar os seus primeiros actos de guerra no Médio Oriente como presidente, Joseph Biden confirma a continuação de uma política agressora na região e provavelmente menos errática que a de Trump, uma vez que este chegou a anunciar uma retirada de tropas – logo travada pelo Pentágono.

Ocupação alastra

Abundam os indícios de que a reactivação da guerra contra a Síria é um objectivo central da administração Biden, para que se cumpra a consigna lançada juntamente com a guerra de agressão montada por Hillary Clinton e Barack Obama: «Assad must go» (Assad tem de sair).

O ataque às estruturas operacionais do Kataeb Hezbollah tem um objectivo não declarado: enfraquecer um dos grupos armados que mais eficazmente tem combatido o reaparecimento em força do Isis, Daesh ou «Estado Islâmico».

Apesar de os Estados Unidos e outras grandes potências da NATO continuarem envolvidos na chamada «coligação anti-Daesh», a realidade vai destruindo esta mistificação. As actividades do Daesh têm recrudescido no Norte e Nordeste da Síria em paralelo com o reforço de operacionalidade e o alastramento das bases e outras estruturas militares ilegais norte-americanas em território sírio.

São já dez – e em breve onze – as bases e campos militares dos Estados Unidos na Síria, que se distribuem por regiões setentrionais do país fronteiriças com o Iraque, a Jordânia e a Turquia. Está em fase de conclusão uma base em Hasakah, a região de onde são roubados diariamente 140 mil barris de petróleo sírio, transportados em comboios de camiões para o Iraque. Donald Trump assumiu que o roubo de petróleo era uma das razões para a presença militar norte-americana na Síria. Joseph Biden continua essas práticas e reforça o aparelho militar para as garantir.

Outra das razões para o alastramento da ocupação militar norte-americana em território sírio é o comando e controlo das actividades terroristas que não apenas prolongam a guerra de agressão como vão tentando cimentar a divisão do país.

Tropas dos Estados Unidos dirigem as chamadas Forças Democráticas Sírias, terroristas maioritariamente curdos que pretendem consolidar a instalação de uma entidade «curda» no Norte da Síria a partir do denominado «Rojava», um «estado» sustentado por Washington e outras potências da NATO, com destaque para a França, e também idolatrado por certas «esquerdas» europeias.

Não é segredo, por outro lado, que as bases militares norte-americanas na Síria são usadas como campos de acolhimento e treino de grupos do Isis. Depois ter estado menos activo nos últimos anos, devido ao desgaste que lhe foi imposto por sucessivas acções militares conjuntas do exército nacional sírio e das forças militares russas, o chamado «Estado Islâmico» tem levantado cabeça nos últimos meses, em grande parte devido ao multifacetado apoio proporcionado pelo Pentágono.

Entidade sunita

Não restam quaisquer dúvidas de que o aumento da pressão militar norte-americana sobre a Síria irá proporcionar um reforço da presença e da actividade do Isis, com repercussões no agravamento da situação em Idlib, a última bolsa regional em que o terrorismo dito «islâmico», sustentado pelo Pentágono e pela NATO, conseguiu enquistar-se depois de ter perdido as outras praças-fortes que tinha em seu poder.

Idlib é presentemente o núcleo a partir do qual os estrategos da partilha da Síria tentarão consolidar uma entidade sunita controlada pela al-Qaeda, pelo Isis, ou por ambos. As potências militares ocidentais que efectivamente dirigem estes mercenários tratarão de esbater as suas «diferenças», como já fizeram noutros lados.

Os problemas com que o Pentágono e a NATO irão deparar nesta tarefa têm a ver com a resposta a dar pelo exército de Damasco e pelos seus aliados russos. Neste cenário está bem evidente o risco que a situação síria reflecte para o planeta, porque é mais uma frente da obsessão militar dos Estados Unidos contra a Rússia – da qual o presidente Joseph Biden é um encartado intérprete.

Outro problema para o Pentágono é a incorporação neste contexto dos grupos terroristas turcomanos às ordens do «sultão» Erdogan. Mas a imprevisibilidade que tem vindo a ser manifestada pela Turquia é igualmente um problema para o exército nacional sírio e para os aliados russos, sendo certo que o território turco não deixou de ser, ao serviço da NATO, uma base de recrutamento, treino e infiltração de grupos da al-Qaeda e do Isis na Síria.

Como era de prever observando a evolução da situação dos Estados Unidos, a instabilidade militar no Médio Oriente, designadamente na Síria, vai agravar-se. Só os vendedores de ilusões sustentados pela comunicação social dominante à escala global – e que nada têm de ingénuos – poderiam tentar fazer crer que a vitória dos democratas e de Biden nos Estados Unidos iria contribuir para uma «pacificação» mundial.

«A América está de volta», garante Biden. E a agitação militar crescente no Médio Oriente confirma-o. Se alguma coisa mudou na situação militar internacional, foi no sentido de se agravar. Nos Estados Unidos ganha sempre o partido único, o partido da guerra.

*José Goulão, Exclusivo O Lado Oculto/AbrilAbril

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