terça-feira, 18 de outubro de 2011

ESPECULAÇÃO NO PREÇO DOS ALIMENTOS PRINCIPAL CAUSA DA FOME NO MUNDO





PCO - Os capitais especulativos obtêm altos lucros nos mercados futuros de commodities enquanto um sexto da população mundial passa fome.

Segundo relatório divulgado no início deste mês pelo centro de pesquisa International Food Policy Research Institute, as principais causas determinantes da fome são a especulação financeira com os alimentos nos mercados futuros, que explica os altos picos dos preços que aconteceram em 2008 e 2011 e o uso da agricultura para biocombustíveis e as mudanças climáticas.

Pelo menos 26 países apresentam níveis alarmantes ou extremamente alarmantes de crises relacionadas à fome. Entre os países mais afetados estão Burundi, Chade, Eritreia, Coreia do Norte, Comores, Swazilândia, Costa do Marfim e República Democrática do Congo. Este último registrou um aumento de 63% do GHI (Índice Global da Fome). Alguns países tiveram uma melhora relativa como Angola, Bangladesh, Etiópia, Moçambique, Nicarágua, Níger e Vietnã, em relação ao GHI. Mas nestes países, assim como em todos os países atrasados, tem se verificado um aumento da desnutrição devido à alta dos preços dos alimentos, que tem obrigado a população pobre a comprar alimentos mais baratos e de pior qualidade nutricional. O aumento nos preços dos alimentos, fez com que na África o número de desnutridos aumentasse 8% entre 2007 e 2008. A monopolização dos principais alimentos, principalmente os grãos que foram convertidos em foco da especulação com as commodities nos mercados futuros pelas multinacionais imperialistas, poderá agravar a situação.

Segundo relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) do início deste mês, o número de famintos no mundo é de 925 milhões de pessoas, mas como a metodologia de cálculo está sendo revisada, esse número pode ser ainda maior. Somente na crise de 2007-2008, 15 milhões de pessoas foram jogadas na pobreza extrema principalmente devido à alta do preço dos alimentos e de outros insumos básicos.

Entre 2006 e 2008, o índice PFI (Preços dos alimentos) da FAO registrou aumento de 75%. O milho e o arroz tiveram um aumento de 120% entre 2010 e 2011.

No Brasil, o preço dos alimentos não pára de subir, e é o fator fundamental que provoca o aumento descontrolado da inflação, que já supera os 7% ano, acima do teto máximo previsto pelo governo. As políticas dos governos do PSDB e do PT que transformaram o País num produtor de commodities, obrigaram à importação de alimentos básicos. Esta situação foi piorada pela monopolização do mercado pelas multinacionais imperialistas, a indexação das tarifas de serviços públicos privatizados e as agências "reguladoras" criadas para favorecer os concessionários, e a compressão da oferta de bens e serviços causada pela paralização dos investimentos em infraestrutura, entre outros. As altas dos juros têm provocado o aumento dos impostos que também são um dos fatores fundamentais no aumento do preço dos alimentos, que tem registrado altas históricas de acima de 130% em relação ao período 2000-2005, e acima de 10% em relação a 2010.

Segundo o relatório O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo – 2011, que foi divulgado no início deste mês, pela FAO, pelo FIDA (Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola) e pelo PMA (Programa Mundial de Alimentos), os preços dos alimentos continuarão aumentando. Os pequenos agricultores e as massas trabalhadoras dos países atrasados serão muito afetados devido à dependência das importações, a que os problemas gerados pela crise alimentar de 2006 a 2008 ainda estão presentes, e a que os gastos com alimentos representam 60% a 80% das suas rendas. Os diretores das três organizações, Jacques Diouf (FAO), Kanayo Nwanze (FIDA) e Josette Sheeran (PMA), consideram que será impossível atingir os "ODM (Objetivos de Desenvolvimento do Milênio) de reduzir o número de pessoas que passam fome pela metade até 2015", que ainda deixariam 600 milhões de pessoas passando fome.

O que está por trás do aumento dos preços dos alimentos no mundo

A migração maciça dos capitais especulativos para o mercado de commodities aconteceu após a crise das empresas "pontocom" em 2001, das bolsas e do mercado imobiliário em 2007. Em 1991, sob pressão do banco imperialista Goldman Sachs, o governo norte-americano suprimiu os limites para os investimentos especulativos com commodities nos mercados futuros que tinham sido estabelecidos nos anos 30. Vários alimentos básicos foram transformados em matérias primas (commodities) e passaram a serem negociados exclusivamente nos mercados futuros, onde cada produto é vendido dezenas de vezes antes de chegar aos consumidores. Essas transações financeiras de compra e venda "intermediárias" carregam um arsenal de operações financeiras parasitárias que encarecem exponencialmente os preços dos alimentos: fundos de commodities, ou hedge funds; fundos de índices, que têm comprado volumes gigantescos de títulos futuros; fundos de troca de mercadorias (ETFs); swaps (troca de um índice financeiro por outro) indexados a commodities, que têm por base os fundos de Índice de Commodities e que são compostos por contratos futuros de determinadas mercadorias; CDS (espécie de seguros); derivativos financeiros que criam novos fundos a partir de outros fundos, de maneira piramidal, com grau de especulação tal que chegam a incluir outros produtos financeiros, tais com hipotecas, títulos "podres", e perdem de vista os títulos iniciais, etc.

No ano 2000, novas leis isentaram os derivativos de commodities de quase qualquer regulamentação, dando lugar aos chamados derivativos OTC (Over the Counter). As tentativas de regulamentar o setor têm enfrentado forte oposição dos bancos imperialistas nos EUA e na Europa. O controle de alguns derivativos, previstos pela Lei Dodd-Frank Act, não estabeleceu reformas estruturais. A própria regra "Volcker", anunciada pelo presidente Obama em janeiro de 2010, que visava impedir os fundos lastreados em impostos, foi muito afrouxada na Lei. As regras aprovadas pelo Parlamento Europeu encontraram resistência nos países membros, especialmente na Inglaterra que detém 80% dos fundos hedge da Europa.

Nos EUA, concentrasse a maior especulação mundial nos mercados futuros. A relação entre produtores e "intermediários" (leia-se especuladores) passou de 39% no ano 2000 para 15% no início de 2011. No mercado de trigo, os especuladores eram 11 vezes maiores que os produtores no ano 2002, 16 vezes em 2004 e 30 vezes em 2007.

Segundo relatório do OCC (Escritório de Controle de Divisas, http://www.occ.gov), que cobre a análise do segundo trimestre deste ano, os 25 principais grupos financeiros dos EUA detêm uma exposição de US$ 333 trilhões em derivativos, cujo volume total mundial alcança aproximadamente US$ 2 mil trilhões contra um PIB mundial de aproximadamente US$ 70 trilhões. No contexto atual da crise capitalista mundial, os bancos imperialistas norte-americanos tiveram lucros em cima das transações com derivativos de US$ 7,4 bilhões no segundo trimestre deste ano, 11% acima do segundo trimestre de 2010, representando o quarto maior lucro da história.

Na Europa, a especulação nos mercados futuros acontece principalmente nas bolsa de Londres e Paris.

Em 2009, os especuladores detinham 65% dos contratos a longo prazo de milho e 80% de trigo de acordo com a UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento). Em julho de 2010, o preço do trigo aumentou 60%, e o milho 40% entre julho e agosto, o que provocou efeito dominó em outros alimentos de primeira necessidade.

Em julho de 2010, o fundo hedge Armajaro, com base em Londres, comprou 241.000 toneladas de cacau por U$ 1 bilhão (7% dos estoques globais) e os contratos de entrega, e se transformou no dono absoluto do mercado europeu. O preço do chocolate atingiu o nível mais alto em 33 anos, apesar do anúncio de boas colheitas. O café aumentou 20% em três dias devido as apostas dos fundos hedge, sem que tenha havido problemas na produção ou aumento do consumo.

A alta dos preços dos alimentos foi o fator que detonou as revoltas das massas trabalhadoras nos países árabes, e são o prenúncio do aprofundamento da crise capitalista internacional e do crescimento das mobilizações populares nos países mais desenvolvidos.

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