quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Portugal: A GRANDE OFENSIVA CONTRA OS NOSSOS VALORES




Baptista Bastos* - África 21

O caso da supressão do 5 de Outubro do calendário das nossas efemérides parece ter caído num inquietante silêncio. As próprias associações cívicas, que ainda as há, nada disseram, nada protestaram.

A ofensiva do Executivo de Pedro Passos Coelho não se restringe ao Estado Social. Possui um violento conteúdo ideológico, sem paralelo na nossa história próxima recente. E chega a atingir a simbólica da própria Resistência, configurando características acentuadamente filofascistas. A supressão do feriado do 5 de Outubro é, provavelmente, o facto mais significativo dessa avançada.

Como que para amenizar a circunstância, o pobre ministro Santos Pereira, o Álvaro, tentou remendar a decisão dizendo que o 5 de Outubro não desaparecia - passava a ser comemorado no domingo seguinte. Além do dislate, a declaração toca as raias do ridículo. Aliás, este Governo, sobre ter atitudes e comportamentos assustadores, está envolvido no ridículo mais avassalador.

O caso da supressão do 5 de Outubro do calendário das nossas efemérides parece ter caído num inquietante silêncio. As próprias associações cívicas, que ainda as há, nada disseram, nada protestaram, nada se indignaram. A mansuetude com que a população se aquieta faz reviver a famosa frase salazarista: "país de costumes brandos e hábitos morigerados."

Salazar e os seus sicários tinham do 5 de Outubro a ideia de uma data quase demoníaca. E a Resistência portuguesa interpretava-a como uma das bandeiras das nossas causas. Nesse dia, como que impulsionados por um desafio, alguns dos homens e mulheres antifascistas reuniam-se em frente da estátua do Dr. António José de Almeida, depunham ramos de flores e entoavam a Portuguesa. Imediatamente a seguir, vindos das ruas circundantes, a GNR e a polícia política avançava, lançava bombas lacrimogéneas e agredia os presentes. Estes não desistiam. Encaminhavam-se para o cemitério do Alto de São João e homenageavam os heróis republicanos. Mais pancadaria, prisões e feridos. Por vezes, a brutalidade chegava ao Rossio, onde grupos antiregime se concentravam.

É esta data e a memória dos acontecimentos que a rodeiam, que o dr. Passos Coelho quer apagar, em nome de uma falaciosa necessidade de competição e de equilíbrio das contas. A Igreja foi ouvida nesta emergência. Num inacreditável jogo de compensações, teria sido decidido que, por dois feriados cívicos extinguidos, dois religiosos seriam abolidos. Não estamos, somente, nos domínios do delírio: assistimos a uma manobra malabar sem precedentes, que envergonha e desacredita quem nela se cumpliciou. A Igreja é uma das partes envolvidas, e sai do caso muito enlameada.

A mudança de paradigma social, económico, político e cultural é evidente. E, por arrasto, uma certa ideia de democracia, senão a própria democracia, está ameaçada. Já vivíamos numa democracia de superfície, na qual os princípios fundamentais do regime estavam a ser tripudiados. Com a extensão da ofensiva, o problema torna-se perturbador. Pouco a pouco, ou não tão lentamente quanto parece, a requalificação do ideal democrático e a recomposição das forças de Direita e de Extrema-Direita tornam-se manifestos.

Impostos, aumento do horário de trabalho, abolição de subsídios, congelamento de salários, despedimentos em massa, redução das pensões, acréscimo das taxas moderadoras nos hospitais - eis alguns aspectos da política obscena deste Executivo, que tende a agravar-se cada vez mais. Depois, há a presença da troika e a questão da perda da autoridade de Estado em favor de uns senhores que chegam, fazem, podem e mandam, à revelia das nossas características culturais, históricas e de identidade. Adicione-se ao panorama os vencimentos extraordinários que auferem.

A pátria tornou-se num regabofe. Enquanto as classes trabalhadoras são oneradas com o peso de uma vida que se lhes afigura sem direcção nem sentido, continua a haver ordenados e reformas insultuosos. Na Europa, uma senhora notoriamente ignara e um senhor sem qualidades apreciáveis dominam países e populações, sem que para isso tivessem sido mandatados pelo voto. A miséria alastra. E, apesar de alguns povos, o grego, por exemplo, demonstrar que não deseja ser escravo, a verdade é que parece uma situação inalterável. Periodicamente, uma que outra "cimeira" (há, agora, esta, recente) custa rios de dinheiro aos contribuintes - e tudo fica na mesma, senão pior. A senhora alemã e o senhor francês são fotografados e filmados aos beijinhos muito afectuosos, e, já se sabe!, as coisas vão piorar no dia seguinte.

A leitura exclusivamente económica do mundo, a inércia conivente das elites, o silêncio compulsivo ou deliberado da inteligência europeia está a conduzir-nos para a catástrofe. Sem que nada façamos para nos opor?

*Baptista Bastos, jornalista e escritor português, assina coluna no Jornal de Negócios

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