segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

MOÇAMBIQUE DIVIDIDO NO CENTRO




Adérito Caldeira  - Verdade (mz)

O enredo repete-se ciclicamente em quase todas épocas chuvosas, o que muda é apenas o local da Estrada Nacional, que liga a capital do país ao centro e norte, onde a água arrasta pontes antigas e sem manutenção e estradas de má qualidade.

Amoro é uma pequena povoação, situada a pouco mais de duas dezenas de quilómetros do distrito de Nicoadala, na província central da Zambézia, que nem direito a placa tem na estrada nacional número 1 (EN1), mas onde Moçambique foi dividido desde o último domingo.

Não foi o líder da Renamo, nem é mais um posto de controlo da polícia e de militares foi a força de um pequeno riacho, que até o aluno mais atento às aulas de geografia nunca vai ouvir falar, chamado de Namingorizine que arrastou a estrutura de drenagem e ainda levou a estrada consigo na passada Sexta-feira (8). Com a intensa chuva que cai na região e o asfalto a ceder o tráfego rodoviário começou por estar condicionado apenas para os veículos pesados, na noite da Sexta-feira.

Entretanto, enquanto as equipas da Administração Nacional de Estradas (ANE) preparavam-se para colocar uma ponte metálica, no final do Domingo (10) a força da água arrastou o que sobrava ante o olhar impotente dos engenheiros. A fila que era de meia centena de camiões e autocarros, em cada uma das margens, começou a aumentar com a aglomeração de veículos ligeiros.

Enquanto os engenheiros da ANE encomendaram equipamento para montar uma ponte metálica de nove metros a água não deu tréguas e a divisão entre o Sul e o Norte de Moçambique era quase de 20 metros às 12 horas desta Quarta-feira (12), quando a equipa do jornal @ Verdade chegou ao local.

Empreendedores

Imbuídos pelo espírito de empreendedorismo, repetido até a exaustão pelo nosso Chefe de Estado, os poucos habitantes de Amoro não tem mãos a medir para dar vazão às necessidades dos cidadãos sitiados que compram desde água, comida e até por uma sombra, seja para esconder do sol tórrido ou da chuva forte que continua a cair à espaços.

Após horas a fio na fila e olhando para a impotência de quem tem por missão velar pela transitabilidade das estradas moçambicanas um cidadão sul africano decidiu “cruzar” de uma margem para a outra descendo pela enconsta norte da Estrada, usando algumas das estruturas que haviam chegado para construção da ponte metálica para passar pelo riacho e voltando a Estrada galgando a encosta Sul.

Com o seu four by four e ainda ajudado pelo guincho da sua viatura o estrangeiro abriu uma nova ligação entre o Norte e o Sul. Aproveitando o corta mato, que também é um corta riacho, os moçambicanos mais ousados e com carros four by four começaram a cruzar de uma margem para outra porém rapidamente o terreno lamacento ficou degradado, particularmente devido aos sulcos abertos pelas viaturas sem tracção às quatro rodas.

Um outro estrangeiro, de descendência asiática, comerciante e transportado numa carrinha frigorífica com produtos perecíveis decidiu investir em pedaços de madeira usado na construção de habitações precárias na região para coloca-las sobre o terreno lamacento e dessa forma poder seguir viagem.

Porém a sua viatura atolou. Nessa altura o espírito empreendedor dos cidadãos de Amoro voltou a ser decisivo com um grupo de jovens a disponibilizar-se para empurrar essa e outras viaturas que daí em diante precisavam de ser “txovados” para passar. Desengane-se o leitor que imagina que estes “empurrões” tenham sido gratuítos. Dependendo da dificuldade os jovens cobravam por viatura a partir dos 200 meticais e houve mesmo quem pagou 1000 meticais pela travessia. Uma portagem bem mais cara que na ponte, que está em Caia, e que tem o nome do nosso Presidente.

Alguns condutores mais experiêntes comentaram com a nossa reportagem que em outras situações similares, em que a estrada fica danificada e existem alguns equipamentos de obras no local, quando o empreiteiro é estrangeiro este prontifica-se a ajudar na criação e manutenção da via alternativa.

Mas desta vez o empreiteiro ficou de braços cruzados, sentado a espera de equipamento para a montagem de uma ponte metálica maior que, segundo informações não oficiais vem da Beira mas o camião ficou bloqueado pois na região a chuva também está a fazer estragos nas vias de acesso.

Onde andam os Governantes?

Durante o meio dia de Quarta-feira (12) que a nossa reportagem esteve no local do corte na EN1 nenhum membro do Governo central, provincial ou mesmo distrital esteve presente. Apenas um polícia de trânsito e um pequeno efectivo de soldados das FADM permaneciam na região de Amoro.

Para além dos condutores das viaturas que não podem transitar há centenas de passageiros cujos autocarros estão parados, muitas mulheres com crianças ao colo desesperam no local. Outros cruzam a margem a pé e no lado contrário procuram transporte para seguirem viagem até aos seus destinos.

Até ao fecho desta edição o tráfego rodoviário continuava interrompido e não há informação oficial sobre quando será retomado.

Recorde-se que ainda este ano a EN1 já esteve cortada ao trânsito rodoviário na cidade do Xai-xai, na província de Gaza, também com problemas em pontes cuja manutenção preventiva não acontece em tempo seco.

Refira-se que desde que a situação de cheias começou, neste ano 105 pessoas já perderam a vida em Moçambique e outras milhares tem sido afectada directa ou indirectamente.

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