Filipe Paiva
Cardoso – Jornal i
Impasse na crise
europeia leva tema da união orçamental a ganhar urgência. Dívida da moeda única
atinge os 8,6 biliões de euros
Entre 157% e 10% do
PIB. Estes são os valores máximo e mínimo das dívidas que se encontram nos 17
países da moeda única. O primeiro caso diz respeito à Grécia, o segundo à
Estónia, e no meio estão outras 15 realidades bem distintas.
A mutualização das dívidas dos países da moeda única, que chegaria através de
uma união orçamental entre os 17, tem ganho relevância à medida que a crise
persiste. Ontem foi Paul de Grauwe, economista belga e conselheiro daComissão
Europeia, a defender que sem uma consolidação das dívidas do euro, a moeda
única colapsará:“Desde os anos 70 que os economistas avisam que uma união
monetária não é sustentável sem uma união orçamental. Mas os líderes da zona
euro não tiveram em conta este conselho – e as consequências são cada vez mais
visíveis.” Para ultrapassar este erro, diz, “falta mutualizar a dívida dos
Estados-membros”. A posição foi defendida num artigo de opinião publicado em
Portugal pelo “Jornal de Negócios”.
Segundo os dados do Eurostat, de final de Abril, se os 17 países do euro fossem
analisados como um único país, teríamos um Estado com um produto interno bruto
de 9,5 biliões de euros – ou 59 vezes o tamanho da economia portuguesa – e uma
dívida de 8,6 biliões – ou 44 vezes o nível de endividamento da administração
pública portuguesa. Opeso dePortugal neste PIBda zona euro seria de 1,7%, ao
passo que no nível de endividamento seria de 2,3%, diferença explicada pelo
facto de hoje Lisboa apresentar uma dívida superior a 100% do PIB. Já a taxa de
desemprego deste Estado fictício estaria nos 12,1%.
Portugal sairia assim beneficiado com esta mutualização, já que poderia
apresentar-se aos mercados com rácios bem mais agradáveis que os seus, o que
tornaria mais barato o acesso a crédito. Mas se isto é válido para Portugal,
Grécia, Irlanda ou Itália, do outro lado desta moeda única está a factura que
outros países pagariam:a Estónia, por exemplo, com uma dívida de 10,1% do PIB,
veria os custos de financiamento subirem por apresentar-se com rácios acima
daqueles que detém, sendo o mesmo verdade para a maioria dos países, daí a
resistência à ideia.Eslovénia (dívida de 54,1%), Eslováquia (52,1%), Finlândia
(53%), Áustria (73,4%), Holanda (71,2%), Malta (72,1%), Luxemburgo (20,8%),
Alemanha (81,9%) ou Chipre (85,8%) compõem o leque de países com dívidas
inferiores àquela que o euro apresenta.
De Grauwe admite este problema, mas relembra os ganhos da mutualização.
“Protegeria as economias mais fracas dos movimentos destrutivos e de pânico dos
mercados financeiros que, em teoria, podem atingir qualquer estado.” O belga
diz também que há formas de contornar as dúvidas:“Em primeiro lugar, parte da
dívida que pode ser mutualizada deve ser limitada, deixando cada país
responsável por uma parte significativa da sua dívida.” Depois, também se poderia
criar um “mecanismo de transferência entre os estados” que garantisse algum
tipo de compensação e, por fim, colocar “uma autoridade” a monitorizar os progressos
de governo no sentido de ter uma dívida sustentável.
Sem comentários:
Enviar um comentário