terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Antigo MNE australiano critica "imprudência" de Timor-Leste em querer "rasgar" tratados

 


Díli, 27 jan (Lusa) - O antigo chefe da diplomacia australiana Alexander Downer criticou, numa carta publicada hoje, a "imprudência" e "política irrefletida" de Timor-Leste sobre o tratado para exploração de gás e petróleo do mar de Timor, que Díli quer ver anulado.
 
Na carta, publicada no jornal 'Melbourne Review', Downer, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1996 e 2007, diz que "a Austrália está a ser acusada de forma injusta e a ser acusada de ser desonesta e gananciosa em relação às receitas de gás e petróleo".
 
Timor-Leste acusou formalmente a Austrália, no final de 2012 junto do tribunal arbitral de Haia, de alegada espionagem quando estava a ser negociado, em 2004, o Tratado sobre Certos Ajuste Marítimos no Mar de Timor (CMATS).
 
O governo de Díli insiste que devido à espionagem os australianos tiveram acesso a informação confidencial sobre o petróleo e o gás no Mar de Timor que prejudicou o país durante as negociações do CMATS, que foi assinado em 2006.
 
Com a arbitragem internacional, Timor-Leste pretende ver o tratado anulado, podendo negociar a limitação das fronteiras marítimas e, assim, tirar todos os proveitos da exploração do campo 'Greater Sunrise'.
 
Alexander Downer afirma na carta que que "uma minoria virulenta de anticapitalistas pensa que Timor-Leste deve renegar os acordos que fez, acordos que dá grandes quantias de dinheiro".
 
"É, numa palavra, imprudência. Timor-Leste vai ganhar a reputação de não ser de confiança por causa da sua política irrefletida. Como pessoa que fez tanto para conseguir a independência dos timorenses, fico triste", adianta Downer, atual enviado especial do secretário-geral da ONU para o Chipre.
 
"Em 2002 eu dei-lhes 90 por cento das receitas e desde então acumularam cerca de 15 mil milhões de dólares num fundo soberano. Em 2006, fechou-se um acordo com os timorenses: Nós dar-lhes-íamos 50 por cento da receita, porque eles eram pobres e nós éramos ricos. Para eles, como admitiram na altura, foi um bom negócio", disse.
 
"Mas, o atual governo timorense quer rasgar esse tratado porque é injusto e alegam que os espiámos durante as negociações", acrescentou.
 
O antigo chefe da diplomacia australiana refere ainda que dada a estrutura do 'Greater Sunrise', que apenas tem uma pequena parte dentro da Área Conjunta de Desenvolvimento, Timor-Leste apenas receberia 20 por cento das receitas.
 
Para Alexander Downer, "uma coisa é Timor-Leste pedir mais ajuda aos países desenvolvidos, incluindo a Austrália, outra coisa é Timor-Leste assinar tratados e depois, mais tarde, dizer que não gosta deles e que não os vai honrar", salientou.
 
"Se eles precisarem de dinheiro além do seu fundo soberano de 15 mil milhões de dólares então é bom que peçam - desde que definam como querem que o dinheiro seja gasto. Afinal de contas, todos nós sabemos um pouco de dólares desperdiçados em ajuda", disse ainda o ex-ministro australiano.
 
Alexander Downer lembra na carta que herdou "uma situação desagradável", quando assumiu a pasta da diplomacia por causa da luta pela restauração da independência de Timor-Leste.
 
Lembrando o apoio dado pela Austrália à realização do referendo que permitiu a restauração da independência, em agosto de 1999, o antigo ministro salienta que o seu país enviou "uma força de paz para salvar vidas" e ajudou os "timorenses a construir um novo país".
 
"Como me disse o chefe do governo da transição da ONU em Timor-Leste, Sérgio Vieira de Mello: 'Nenhum país tem feito mais para ajudar Timor-Leste do que a Austrália'", recorda também na carta.
 
MSE // JMR - Lusa
 

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