O
jogo de realidade aumentada para smartphones já é considerado o mais popular de
sempre. E está a caminho de ser também o mais lucrativo
Nos
dias que se seguiram à introdução do Pokémon Go nos Estados Unidos, a cadeia de
hotéis Marriott International notou um salto espetacular nas interações das
suas contas nas redes sociais. De um dia para o outro, os utilizadores
começaram a publicar centenas de fotos que mostravam as pequenas criaturas nos
quartos, na piscina ou no ginásio dos seus muitos hotéis, cujas marcas vão do
Ritz-Carlton ao JW Marriott e Renaissance. A cadeia tinha acabado de
implementar, em junho, um novo “centro de comando” dedicado à atividade nas
redes sociais com base em geo-localização, o M Live. E foi através deste
sistema que a Marriott conseguiu ser das primeiras e mais bem sucedidas marcas
a aproveitarem a loucura em torno do jogo. “O Pokémon Go é um excelente exemplo
de marketing geracional”, explica Gabriel Shaoolian, responsável da agência
digital Blue Fountain Media. “Traz tecnologia relevante para recuperar a
ligação com aqueles que se interessavam em miúdos e para atrair novos
consumidores.”
Duas
semanas depois do início da febre, a McDonald’s tornou-se a primeira empresa a
estabelecer uma parceria oficial com a produtora do jogo, Niantic Labs (a
Nintendo investiu nesta empresa e detém 32% da Pokémon Company, que gere o
franchise). O acordo, confirmado depois de uma fuga de emails, será por
enquanto focado nos seus três mil restaurantes no Japão. E por boas razões: o
mercado nipónico é um dos melhores do mundo para jogo móveis, visto que os
utilizadores estão habituados a gastarem dinheiro neste tipo de aplicações. A
cadeia de comida rápida vai oferecer bonecos com as suas refeições mais
populares, mas, mais importante que isso, os seus restaurantes irão entrar no
jogo. Serão “ginásios” patrocinados. Promoção gratuita É algo que as empresas,
até aqui, não puderam controlar. As PokéStops, onde os jogadores podem ir
abastecer-se de bolas (PokéBalls) e outros items são determinadas por pontos de
interesse escolhidos por utilizadores de um outro jogo da Niantic, Ingress. O
mesmo é válido para os “ginásios”, onde os jogadores treinam os seus Pokémon
para lutarem com outros. As empresas que têm a sorte de estarem localizadas
perto destes pontos estão a beneficiar de forma direta e indireta, já que
muitos utilizadores partilham fotos dos locais onde “caçam” nas redes sociais,
oferecendo publicidade gratuita aos negócios. O aumento do tráfego de pessoas
nessas áreas também tem sido aproveitado. Outras empresas estão a usar truques
engenhosos, como a Thumbzz.com. Os fundadores desta startup, que consiste num
site de “microempregos”, começaram a jogar Pokémon Go de forma intensiva e
foram mudando os nomes dos seus bichos para o nome da empresa. Depois,
espalharam-se pela cidade de Atlanta, onde estão sediados, para tomarem de
assalto os “ginásios” e colocarem lá os seus Pokémon. Resultado: “Tivemos um
Hypno no topo do aeroporto Hartsfield-Jackson em Atlanta durante várias horas
na quarta-feira”, diz a fundadora, Lisa Johnverrell, que já vai no nível 21.
“Foram horas de promoção gratuita para o nosso site num dos aeroportos mais
frequentados do mundo. Outros jogadores de Pokémon Go vinham constantemente ter
connosco a perguntar o que era o Thumbzz.com. Conseguimos um número elevado de
novos utilizadores e planeamos continuar a usar esta tática até quando for possível.”
O Thumbzz tem 250 anunciantes que pagam aos consumidores para visitarem sites,
descarregarem apps, assistirem a vídeos e escreverem críticas a produtos ou
serviços. Agora, a empresa vai ela própria pagar 1 a 2 dólares aos jogadores
para que ponham o nome “Thumbzz” aos seus Pokémon. A loucura em Portugal O
fenómeno chegou em força. A Vodafone lançou uma campanha de verão com a oferta
de 15 gigas de internet na compra de um smartphone e ligou-a ao Pokémon Go, que
consome dados. A Super Bock publicou uma imagem da sua cerveja com o nome
“Bockémon Go” e a assinatura “Tens de apanhá-las a todas”, uma referência ao
mote de quem caça Pokémon. A Fnac começou a promover carregadores móveis de
bateria com um Pikachu: “Se queres apanhá-los todos… vais precisar disto!”. E o
Lidl desenhou um Pickachu com frutas e legumes e desafiou os jogadores: “Que
tal fazer uma Pokéstop nas nossas lojas e ganhar uma energia eletrizante com as
nossas frutas e legumes?” As interações foram bem recebidas pelos utilizadores
nas redes sociais.
Compreende-se.
A Nintendo Portugal diz que não há números oficiais, mas o jogo já foi
descarregado por mais de um milhão de portugueses – só na primeira semana.
“Ainda é muito cedo para compreender o real impacto que, especificamente em
Portugal, o Pokémon Go terá no universo Pokémon, mas em relação à semana
anterior já quase duplicámos as vendas do conjunto dos títulos Pokémon para
Nintendo 3DS disponíveis no mercado”, revela ao Dinheiro Vivo Nélson Calvinho,
gestor de produto na subsidiária nacional. Leia mais: 9 regras para jogar
Pokémon Go em segurança “Esperamos também registar um impacto positivo na venda
de figuras amiibo de personagens Pokémon. Os clientes também estão atentos a
esta notoriedade acrescida da marca Pokémon e a preparar-se em conformidade.”
Calvinho
nota, no entanto, que isto não é bem um regresso. “Os jogos Pokémon são
consistentemente ‘best sellers’ em Portugal, a comunidade Pokémon sempre foi
muito solidária e ativa ao longo dos anos”, sublinha, revelando que “é entre os
21 e os 25 anos que se encontra a maioria dos jogadores ativos.” A Nintendo
Portugal vai agora lançar uma nova campanha em televisão para o Pokémon Super
Mystery Dungeon, para a consola portátil 3DS, depois de o título ter sido
lançado em fevereiro. Leia mais: Como o Pokémon decide onde aparecem as
personagens Entretanto, multiplicam-se os grupos, páginas e organizações
dedicadas ao jogo – apesar de haver muita gente que não compreende ou critica o
fenómeno. Os fãs não ligam. No Facebook, o grupo Pokémon Go Portugal já vai nos
25 mil membros e o de Lisboa está nos três mil. Na próxima sexta-feira, os dois
grupos organizam a “primeira caminhada PokeGOpt”, que sai da Estação do
Oriente, no Parque das Nações, e pretendem torná-la num evento mensal. Na
semana passada, teve lugar um encontro de aficionados em Coimbra. E esta
quarta-feira, a Câmara Municipal de Braga organiza uma “Lure Party” na Praça do
Município. “Aproveitando as funcionalidades de georreferenciação do jogo, esta
iniciativa pretende divulgar o património histórico do centro da cidade, junto
do público mais jovem, o principal utilizador”, explica ao Dinheiro Vivo fonte
da câmara. Foi desenhada uma rota no centro histórico, que segue dez Pokéstops,
e será fornecido um mapa físico com informações sobre cada um dos locais
escolhidos.
“Queremos
aproveitar a dinâmica do jogo e chegar a este público mais novo, colocando-o em
contacto com alguns dos monumentos desta desta cidade bimilenar”, acrescenta. É
o melhor da realidade aumentada: o jogo não só obriga os jogadores a saírem do
sofá e a irem para a rua, como pode funcionar para a descoberta de novos locais
– é a beleza da georreferenciação. “Ao entretenimento proporcionado por esta
aplicação alia-se a vertente lúdica e pedagógica, estimulando-se ainda o
convívio e o ambiente de boa disposição entre os participantes.” Revitalização
dos negócios A história de que se tem falado mais é sobre as ações da Nintendo,
que duplicaram em questão de dias o valor da empresa, mas o verdadeiro
impacto-surpresa será na Apple. A tecnológica, que tem os investidores à beira
de um ataque de nervos por causa da estagnação das vendas do iPhone, poderá
lucrar diretamente 3 mil milhões de dólares com o Pokémon Go, nos próximos 12 a
24 meses. Foi o que escreveu a analista Laura Martin, da corretora Needham &
Co, numa nota aos investidores. “Acreditamos que a Apple retenha 30% do
dinheiro gasto no Pokémon Go em aparelhos iOS, o que sugere uma subida de
receitas”, referiu a especialista. Para chegar a estes números, Martin usou os
dados que estão disponíveis: a consultora Sensor Tower estima que o jogo já
tenha gerado 35 milhões de dólares. As taxas de conversão são de 20%, o que se
refere ao número de jogadores que começa a fazer compras dentro da aplicação.
Este
é o modelo de negócio do Pokémon Go: é gratuito para quem quiser jogar, mas tem
uma loja onde se podem adquirir items que permitirão uma progressão mais
rápida. Estes items são comprados com PokéCoins, que podem ser ganhas com
vitórias nos ginásios ou adquiridas com o dinheiro muito real que sai dos
cartões de crédito associados à App Store (ou Google Play). O mais barato custa
cerca de um euro por 100 moedas, o mais caro vai aos 100 euros por 14500
moedas. Todos os dados indicam que o jogo tem o dobro da rentabilidade da média
da indústria, e o rácio de jogadores pagantes é 10 vezes maior que o do
lucrativo Candy Crush. Além disso, os jogadores passam muito mais tempo na
aplicação que no WhatsApp e Facebook. Depois, há também o impulso dado às fabricantes
de carregadores de bateria móveis e capas para telemóvel que incluem
carregador, visto que o uso de mapas e GPS consome energia rapidamente. O jogo
é responsável, por exemplo, pela subida de 12,5% no valor das ações da Zagg,
que fabrica este tipo de capas. A procura disparou em quase todos os
retalhistas, e outra marca, a Anker, beneficiou de uma promoção atempada no
site da Amazon. Novas ideias Não se sabe ao certo quantos jogadores há neste
momento em todo o mundo, agora que o jogo chegou a 35 países. A Sensor Tower
estima mais de 30 milhões: são muitos, e estão por todo o lado. A febre já está
a gerar novos negócios, além de impulsionar segmentos existentes. Por exemplo,
estão a ser reportados casos de pessoas que montam uma pequena barraca perto de
PokéStops para venderem refrescos, snacks e outros items; chamam-lhe
“PokéShops” ou “PokéMarts.” Regista-se ainda o surgimento de profissionais que
oferecem os seus serviços de “caçadores” de criaturas contra pagamento, e em
Portugal há diversas cidades com oferta de “Poké Táxis” – transporte para
jogadores entre os 20 e 30 euros por hora. Mas há mais, e melhor. A
Tranquilidade criou o seguro “AP GO” para responder ao surto de acidentes
pessoais que têm acontecido por causa do jogo. Não é bem um produto individual,
mas uma oferta que será dada aos clientes que subscreverem um novo seguro até
15 de agosto. O “AP GO” será válido até ao final do ano. Outro caso semelhante
chega do Reino Unido, onde a especialista em seguros para gadgets Row lançou um
produto especial para este jogo: o seguro Pokédex. E o que dizer do PokéDates,
o primeiro site de encontros para os aficionados? Foi lançado esta semana pela
Fixup e é gratuito na primeira utilização, mas depois passa a 20 dólares por
cada encontro. Os pares são decididos não por um algoritmo mas por
especialistas humanos, e os locais de encontro – é claro – são PokéStops.
Bónus: a Legendary Pictures conseguiu os direitos para o primeiro filme
Pokémon, que irá centrar-se no “Detective Pikachu.” A Universal Pictures fará a
distribuição fora do Japão e a produção começa em 2017. Alguém vai (mesmo)
conseguir apanhá-los a todos no grande ecrã.
Ana
Rita Guerra – Dinheiro Vivo – Imagem: Spanish Interior Ministry/Handout via
REUTERS
Sem comentários:
Enviar um comentário