quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Angola: Violência Gratuita



Luísa Rogério – Rede Angola, opinião

Num país onde é normal homens fardados agredirem mulheres indefesas, algumas delas grávidas ou com filhos pequenos às costas, não se estranha que um militar fardado torture alguém para confessar seja o que for.

Há alguns dias começou a ser partilhado na internet um vídeo portador de altíssimo grau de violência. As imagens chocantes mostram dois homens, um dos quais fardado, e uma mulher brutalmente espancada. De acordo com a legenda o triste acontecimento decorre numa área florestal algures em Cabinda. Os gritos lancinantes da vítima, que clama por perdão, ferem a alma de qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade. Aparentemente, os apelos desesperados da mulher deixam os seus algozes indiferentes. Não percebi o que ela teria feito e que razões provocaram a reacção desproporcional. Desisti de o ver o vídeo muito antes do fim. Na verdade ninguém precisa de concluir a visualização para captar a dilacerante mensagem de violência gratuita.

Provavelmente não será o único nem o mais expressivo retrato da violência que grassa entre nós. Num país onde é normal homens fardados agredirem mulheres indefesas, algumas delas grávidas ou com filhos pequenos às costas, não se estranha que um militar fardado torture alguém para confessar seja o que for. Tanto no paradigmático exemplo das resistentes zungueiras que inspiraram um bem-sucedido aplicativo para smartphones, quanto no caso da agressão na floresta não se questionam as motivações. As leis devem ser cumpridas, os regulamentos e normas de conduta também, ainda que a cada vez mais selvagem luta pela sobrevivência obrigue as pessoas a desenvolverem esquemas resultantes inúmeras vezes em atentados à própria existência.

Percorrer longas distâncias com mercadorias na cabeça, costas e braços assim como munir-se de coragem para contrariar teimosamente as regras no que toca aos postos pré-estabelecidos para vendas não resulta de entusiásticas opções de vida. Chama-se a isso busca de alternativas para garantir o sustento da família. O espectáculo deprimente visto nas imediações de mercados luandeses já faz parte do postal da cidade. Homens fardados a correrem atrás das zungueiras está longe de ser a melhor maneira de lidar com o problema. Como o próprio termo sugere, reprimir pressupõe proibir por meio de aplicação de castigos. O ideal é buscar soluções.

Mesmo sem ter comprovado a fiabilidade do vídeo da floresta e de uma apoquentadora foto em que uma criança se atira propositadamente debaixo do carro da polícia para impedir o confisco dos produtos da mãe, o facto é que representam a crescente violência no país. O pior no meio dessa espiral tem a ver com o envolvimento de supostos militares e agentes da polícia. Compete às duas estruturas garantir a defesa do Estado e salvaguarda da ordem pública, tarefas que em momento algum se pode dissociar da segurança do cidadão. Em condições normais, sobretudo em países pacificados, as instituições envolvidas deviam apurar a veracidade das ocorrências e prestar esclarecimentos públicos.

Infelizmente entre nós a indignação igualou as culpa. Morre solteira. E silenciosa. Não colhem argumentos do género “são casos isolados”. Qualquer violação de direitos humanos configura falha grave. Deve activar o sentimento de cidadania que sintetiza o equilíbrio entre direitos e deveres. Importa ressaltar que falta de coragem para ver vídeos arrepiantes é uma coisa. Outra, diametralmente oposta, é fingir que não existem. Não me contento com o grito abafado acompanhado do encolher de ombros em sinal de resignação. Tão pouco com o desabafo amparado pelo silêncio na madrugada. Almejo um despertar consciente para lidar com a realidade.

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