quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Portugal tem relação de "desapego" com Macau desde a transição -- académico

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Macau, China, 08 fev (Lusa) -- Mário Mesquita Borges, autor do livro "Macau, as Últimas Memórias de Portugal", considera que Lisboa manteve ao longo de quase 20 anos um "desapego" e "desinteresse" em relação ao antigo enclave, onde hoje apresentou a obra.

Macau é desde 20 de dezembro de 1999 uma Região Administrativa Especial da China com autonomia administrativa, executiva e judicial.

"O que existe atualmente é uma perspetiva de completo desinteresse", disse à agência Lusa o académico da Universidade Católica Portuguesa, que centrou o seu estudo no período pós 1999, após a transferência de soberania de Portugal para a China.

"Portugal neste momento está virado para a Europa e sabemos que o futuro está algum na Europa, mas também está no resto do mundo e, como é evidente, muito na região da Ásia. Por isso penso que inclusivamente para a economia portuguesa seria de muito interesse ter aqui interesses mais firmados e mais sedimentados, quer a nível de estudos, quer da promoção da língua portuguesa 'per si'", afirmou.

Natural de Macau, e com uma ligação familiar ao território desde os anos 1950, Mário Mesquita Borges quis aprofundar essencialmente as questões da língua e do património.

"Há algum trabalho já feito a nível histórico, mas a nível interpretativo e de estudos de cultura há muito pouca coisa especificamente sobre o caso de Macau, e foi isso que procurei fazer", afirmou.

O livro "Macau, as Últimas Memórias de Portugal" é publicado pela editora COD em Macau.

O académico diz que, "mais do que uma visão pessimista", tem "uma visão realista" sobre o seu objeto de estudo: "E porquê? Porque nós vemos que, infelizmente, no que toca por exemplo à administração portuguesa, o que se verificou foi que a lógica era de facto de abandonar o território. Não houve uma perspetiva de longo prazo que deveria ter havido".

"Estivemos em Macau durante 400 anos (...), mas é por parte das autoridades chinesas que se está a verificar essa vontade e essa procura da cultura portuguesa e o interesse pela língua, muito também em virtude dos negócios que a China desenvolve com os países de língua portuguesa, como é óbvio", observou.

Para o académico, Portugal, "já antes do final do século passado devia ter deixado instrumentos ou instituições que proporcionassem" a cooperação em várias áreas numa lógica de continuidade. "Ou seja, mesmo que as autoridades chinesas tivessem este manifesto interesse, agora nós também já estávamos preparados nesse sentido", afirmou.

"Se houvesse uma instituição criada pela administração portuguesa, mas que ficasse como instituição de Macau, ou que fosse uma instituição ligada ao Estado português numa ação de cooperação com o território, penso que seria mais positivo, porque proporcionaria esse contínuo", adiantou.

Mário Mesquita Borges vê como evidente "o interesse das autoridades chinesas em virtude dos negócios que envolvem os países em língua portuguesa".

"Mas daqui para a frente não sabemos se esse interesse se vai manter e, enquanto participantes na história de Macau durante quatro séculos, acho que seria para nós muito interessante termos essa possibilidade", acrescentou.

Questionado sobre os esforços de Portugal para o estreitamento dos laços com Macau e a China nos últimos tempos, Mário Mesquita respondeu: "Infelizmente, na maioria das vezes há uma grande diferença entre o que é o discurso político e o que é feito de facto".

"Mas pergunto eu: será que vamos a tempo, vinte anos depois de termos deixado o território? Sinceramente não sei. É importante fazer, não estou a defender uma posição derrotista e dizer que não vale a pena nada fazermos porque isso seria falacioso, mas questiono-me (...) nomeadamente com o desapego que Portugal teve com o território durante todos estes anos", disse.

FV // FPA

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