quarta-feira, 30 de maio de 2018

Fantasma do Angolagate já não ensombra relações Angola-França?

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Os Governos de Angola e França assinaram nesta segunda-feira (28.05.) acordos de cooperação em várias áreas, com destaque para a Defesa e Economia. Uma nova era nas relações marcada por degelo depois do caso Angolagate.

É a primeira visita de João Lourenço a Paris e a Europa, desde que assumiu a Presidência de Angola em 2017. A visita começou nesta segunda-feira e acontece a convite do Governo francês.

Depois do encontro com o seu homólogo Emmanuel Macron, na conferência de imprensa João Lourenço pronunciou-se: "Reafirmar aqui a vontade de Angola em estreitarmos cada vez mais as nossas relações. Dai o facto de termos manifestado o interesse em sermos membros, de alguma forma, como observadores ou membros de pleno direito da organização internacional da francofonia pelo importante papel que joga no mundo, mas muito em particular no nosso continente, África."

E Lourenço deixa uma promessa: "Do nosso lado tudo faremos no sentido dos importantes acordos que acabamos de ver assinados aqui nesta sala não ficarem apenas no papel, mas refletirem-se, de facto, na prática com projetos concretos que vão ajudar a desenvolver os nossos países no interesse dos angolanos e dos franceses."

Mensagens implícitas

Fora o tradicional reforço dos laços de cooperação nas áreas da Defesa, Agricultura, Economia e formação de quadros oficialmente divulgado pelas presidências dos dois países, a visita do Presidente angolano visa outros objetivos, principalmente de caráter externo, considera o sociólogo angolano Paulo Inglês.

A visita está carregada de mensagens implícitas dirigidas também a Portugal. Paulo Inglês considera que "depois do affair Manuel Vicente em Portugal, que de certa maneira desanuviam as relações com Portugal, João Lourenço quer mostrar também que tem outras possibilidades de contato na Europa para além de Portugal, seu tradicional parceiro."

E o analista acredita ainda em relações baseadas na ética: "Depois o Presidente da França é novo e imagino que as relações estejam baseadas em acordos mais transparentes. Também para João Lourenço é uma forma de se mostrar ao mundo, depois de ter colocado algumas peças nos seus lugares em casa, ao nível exterior está a tentar dar uma imagem de que quer fazer coisas em Angola."

Mais transparência e menos corrupção a partir de agora?

Por outro lado, a visita de João Lourenço é vista como mais um passo para o fim definitivo das tensões entre Angola e França, depois do escândalo Angolagate. Foi um caso de venda ilícita de armas ao regime angolano durante a guerra civil, envolvendo figuras políticas dos dois países. O caso que chegou à justiça envolvia entre outros crimes, atos de corrupção.

E nesta visita de Lourenço a cooperação na área da defesa está contemplada, embora não tenham sido publicados detalhes. 

Pode-se esperar mais transparência e menos corrupção nas relações, a partir de agora? O sociólogo responde: "Acho que sim porque o Angolagate, de facto, surgiu num contexto de guerra. Agora o que se espera é que neste novo contexto e com o novo Presidente os acordos sejam mais transparentes. Acho que neste momento há um certo desanuviamento [das tensões], já houve um pouco com Sarkozy, foi o primeiro a desanuviar isso."
Os interesses da França

E do lado da França convém também continuar a quebrar o gelo. É que Paris tem vários interesses em Angola, e um deles é geo-estratégico. Angola é vizinho de países de sua influência.

E Paulo Inglês explica: "Porque na altura Angola era importante porque havia conflitos na região dos Grandes Lagos e viu-se que era importante ter boas relações com Angola. E acho que a França quer contar com Angola, porque acha que é um país estável, apesar de não haver muita democracia interna, mas mais estabilidade política, tem um exército mais ou menos "domesticado" e isso pode ajudar a resolver os problemas da região. Vejo a situação nesse sentido, mais do que o negócio de compras de armas em si."

E não menos importante nesta relação é a questão económica. A francesa Total é uma das petrolíferas mais importantes e a mais antiga a operar em Angola. Garantir que assim continue a ser também é interesse dos dois países.

"Uma petrolífera que tem muitos interesses em Angola, sobretudo depois que Isabel dos Santos saiu da Sonangol, há um certo desanuviamento nesse sentido. E acho que têm todos a ganhar, tanto João Lourenço como a França", conclui Paulo Inglês. 

Nádia Issufo | Deutsche Welle
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