quarta-feira, 30 de maio de 2018

PRESSÃO ASFIXIANTE SOBRE A VENEZUELA

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The Monroe Doctrine was articulated in President James Monroe's seventh annual message to Congress on December 2, 1823. The European powers, according to Monroe, were obligated to respect the Western Hemisphere as the United States' sphere of interest – https://www.ourdocuments.gov/doc.php?flash=true&doc=23

Martinho Júnior | Luanda 

1- A 23 de Janeiro de 2010, no ZIP-ZIP – 18 publicado naquele dia no Página Um Blogspot, com o título “OBABUSH VISA NEUTRALIZAR A ALBA”, eu lançava um dos primeiros alertas sobre uma pressão que se estenderia à ALBA, “Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos” até aos dias de hoje.

Essa intervenção já não está publicada na Internet, mas recordo-a, a partir dos meus arquivos:

Os Estados Unidos estão a transferir para a América uma parte do seu potencial de intervenção político-diplomático, operativo e militar, tendo como objectivo principal ao que tudo vai indicando, a neutralização da ALBA procurando garantir dessa forma a recuperação de sua própria influência.

A ascensão duma administração democrata que pela primeira vez na história norte americana eleva um negro à Presidência, faz parte da psicologia dessa “operação” que sustenta o arranque dessa “estratégia alargada e multidisciplinar”, uma estratégia que ao mesmo tempo que põe fim a uma década de falências apesar do unilateralismo que caracterizou a administração republicana de George W. Bush, dá início a uma década de procura incessante de revitalização do império que visa neutralizar qualquer veleidade de multi lateralismo alternativo no seu “quintal das traseiras”, por muito irracional que esse processo seja.

O quadro político na América Latina indicia estar a evoluir neste momento ao sabor dos interesses e das “ementas” das oligarquias coligadas ao império, em países tão decisivos como o Panamá, ou o Chile e mesmo nos casos “menores” de El Salvador, do Paraguai e do Uruguai as possibilidades alternativas fora da pressão neoliberal estão severamente condicionadas.

Na região da costa do Pacífico o domínio é evidente, avassalador e apenas são excepção países pequenos como a Nicarágua e o Equador, este último, mesmo assim, sujeito a subversão intestina.

Chile, cujas condições físico-geográficas são únicas (uma estreita faixa de terra com 6.435 km de comprimento de linha de costa que se estende entre os Andes e o Pacífico) está na via do neo pinochetismo com um líder da estirpe dum Sílvio Berlusconi (Itália), ou dum Ricardo Martinelli (Panamá), um “bem-sucedido” homem de negócios que vai procurar transmitir ao seu governo os êxitos da sua carreira que no espírito e na letra corresponde aos interesses neo liberais, fiel inclusive aos “originais Chicago Boys”.

A segunda década do século XXI para o Chile inicia-se com Sebastián Pinera na esteira duma “mudança” ao jeito da “utopia ObaBush” e tendo como “observador perspicaz” o olho da “esclarecida” família Clinton.

Essa “santíssima trindade” tornou-se mais visível em função da catástrofe-oportunidade do Haiti, tirando partido dum choque para lá do esmagamento histórico, económico e sócio-político duma nação com tão corajosas opções rebeldes originais.

O lado Atlântico da América está sujeito a uma autêntica ofensiva, desde o derrube do governo de Zelaya nas Honduras, ao cerco e pressão sobre a Venezuela e agora sobre Cuba (pela via da presença militar no Haiti, “explorando a oportunidade do terramoto”), até à expectativa em torno das eleições no Brasil.

A veleidade da emergência do Brasil está “sob controlo” estratégico e um dos sintomas é o papel subalterno da presença militar brasileira no Haiti em função da Missão da ONU naquele estrategicamente tão imprescindível ninho de catástrofes.

O México continua a ser outra preocupação nos horizontes próximos e a manobra em relação a esse colosso é uma constante, tirando partido do governo instalado em eleições extremamente contestadas.

O único país da ALBA que neste momento parece estar em “estado de graça” é a Bolívia, encravada no interior da América do Sul e numa altura em que o Presidente Evo Morales assume a posse ao abrigo de evocações e filosofias ancestrais que emergem com toda a vitalidade no coração do continente e das trevas, duzentos anos depois das independências arrancadas à força da Espanha colonial!

Quer a Venezuela, quer o Equador, quer mesmo Cuba, estão em situação de conjugadas pressões externas e internas, em “ementas” próprias e “inteligentes”, algumas delas artifícios e manipulações com raiz em Washington, ao mesmo tempo que o USSOUTHCOMMAND e a IVª frota assumem as Caraíbas como um autêntico “mare nostrum”, agora com fulcro no Haiti.

O Brasil tem no Haiti uma antevisão do que poderá ser alguma vez uma ofensiva norte americana sobre a “Amazónia Azul” e, “não vá o diabo tecê-las”, “faz segurança ao monstro”…

A proximidade das bases da Colômbia em relação à “Amazónia Verde” é um outro contexto de pressão, também dirigido para a Venezuela e o Equador.

“ObaBush” começa a estar em “plena forma”, reorganizando as fileiras em função da desvalorização dum “terrorismo” que pode ter os dias contados em relação à sua evocação Setembrina, pois ideologicamente impõe-se a resposta à rebeldia duma ALBA que ousa usar armas tão difíceis de enfrentar como a educação, a saúde e até, pasme-se, essa predisposição guevarista de socorrer os “deserdados da Terra” em plena catástrofe!


2- Oito anos depois, esse alerta está confirmado nas suas linhas gerais, conforme (agora) a actividade da administração republicana de Donald Trump dirigida contra a América Latina, como se a estratégia do império passasse a assumir um único e contínuo dispositivo (é para isso que existe o Pentágono), em relação ao qual o rótulo rocambolesco “BushObaTrump” assenta como uma luva!

A Rede Voltaire, cada vez mais motivada para a oportuna decifragem das pistas do império da hegemonia unipolar confirmou-o, nos termos da tentativa de asfixia a uma das pedras basilares da ALBA-TCP, “Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos”: a Venezuela Socialista Bolivariana que procura emergir do último processo democrático torpedeado pelo império e seus vassalos.

Sintomaticamente caos, terrorismo e desagregação que afectam Médio Oriente e o “AfPaq”, podem ser disseminados também na América Latina pelo poder do império e seu cortejo de vassalos!


3- As eleições na Venezuela desde a Constituinte, marcaram claramente quanto o Partido Socialista Unido da Venezuela, com os partidos e organizações suas aliadas, não só souberam defender e defender os seus programas socialistas dos operativos de desestabilização que impulsionaram múltiplas “transversalidades” (nos campos sócio-político, económico, financeiro, psicológico e outros), como também inviabilizaram os projectos das sucessivas oposições, qualquer que fosse o jogo estabelecido pelo “diktat” do império da Doutrina Monroe e tudo isso a partir de sua própria identidade com a maioria do povo bolivariano!

Na Venezuela está em curso um processo dialético anti-imperialista, que efectivamente é para o Pentágono uma afronta ao seu exercício para dentro da América Latina, particularmente no que ao Comando Sul diz respeito!

Assim quer Stella Caloni, quer Thierry Meyssan, oportunamente apontaram, com o suporte de documentos produzidos pelo Pentágono, quão longe pretende ir a hegemonia unipolar contra a Venezuela Socialista Bolivariana emergida desde a Constituinte, precisamente em cima da eleição presidencial ocorrida a 20 de Maio último.

4- Em “O Golpe de Mestre dos Estados Unidos contra a Venezuela (Documento do Comando Sul)”, a Rede Voltaire salienta (http://www.voltairenet.org/article201130.html)  :

“As negociações em torno da península de Coreia e a retirada norte-americana do acordo sobre o programa nuclear iraniano (JCPOA ou Acordo dos 5+1) não devem interpretar-se como um reposicionamento das Forças Armadas dos Estados Unidos.

Sem importar que Administração esteja no Poder em Washington, o Pentágono segue em frente com o seu plano de domínio à escala mundial. Stella Calloni revela que o SouthCom (o tristemente célebre Comando Sul) tem planificada uma operação militar contra a Venezuela, antes da eleição presidencial de 20 de Maio.

Baseando-se num documento interno do Pentágono, Stella Calloni põe a nu a implicação da Argentina, Colômbia, Brasil, Guiana e Panamá nesse projecto de derrube de um Poder democrático, nascido do voto popular. É um plano de destruição de toda uma sociedade.

As Forças Armadas dos Estados Unidos estão de volta contra os povos na América Latina”.

De facto o documento (http://www.voltairenet.org/article201100.html) define-se pelo conjunto da argumentação doutrinária e ideológica da motivação hegemónica, uma fórmula de repescagem da Doutrina Monroe, para depois passar a definir as linhas de acção que, entre outras coisas, integram o papel dos vassalos contra a Venezuela, na espectativa de que, com o fim do PSUV e do processo em curso na Venezuela Socialista Bolivariana, as organizações progressistas como a ALBA-TCP deixem de existir e influenciar as medidas contra o império que tem vindo resolutamente a assumir! 

5- Na sequência do documento, é o próprio Thierry Meyssan que aprofunda o alerta (“Cuidado! Peligro inminente en la cuenca del Caribe” – http://www.voltairenet.org/article201239.html):

“Las increíbles reacciones que ha suscitado el artículo de Stella Calloni que publicamos en la Red Voltaire sobre el plan del Comando Sur contra Venezuela muestran que existe una fractura en el seno de la izquierda latinoamericana.

Y esto es un mal augurio para la resistencia en caso de que el Pentágono pase a la acción. Sin embargo, es un hecho que los ejércitos de Estados Unidos se preparan para destruir los Estados y sociedades de los países de la Cuenca del Caribe.

Es el mismo plan que han venido aplicando durante los 17 últimos años en el Gran Medio Oriente”.

6- A evolução global vai ganhando indícios cada vez mais evidentes que a administração de turno nos Estados Unidos, que enveredou por um conjunto de opções protecionistas, está a ter dificuldades nos relacionamentos internacionais intempestivos que vêm sendo cultivados desde a IIª Guerra Mundial, incluindo com perdas nas suas capacidades geoestratégicas, pese embora o poderio de suas Forças Armadas que integram dispositivos com mais de  800 bases“ultramarinas”.

No enorme continente euroasiático, a partir das contramedidas da Federação Russa no Cáucaso e agora na Síria, assim como as integradoras iniciativas da Organização de Xangai e da Rota da Seda (capazes de aproximações em relação à Turquia, ao Irão, ao Paquistão e à Índia), que as perdas geoestratégicas só não são mais graves graças a uma coligação que na região mais catastrófica tem duas pedras angulares: o sionismo e o radicalismo wahabita-sunita, promovido pelas monarquias arábicas.

Com a catástrofe disseminada, as opções de civilização escapam mais evasivamente ao poderio do império, algo que também está a acontecer no sudeste asiático e extremo oriente, pelo que os dispositivos do Comando Sul do Pentágono, assumem uma espécie de último reduto nas configurações geoestratégicas do império da hegemonia unipolar, ditando regras até à própria Casa Branca.

Essa evidência, que por seu turno é capaz de acarretar uma aparente divisão da “esquerda” latino-americana, na verdade clarifica o campo dos estados progressistas, pelo que a Venezuela Socialista Bolivariana, cujas riquezas naturais nunca deixaram de ser alvo de cobiça, torna-se um alvo de primeira grandeza, até por que é identificada como um dos impulsionadores de organizações continentais progressistas como a ALBA-TCP!

Resolutamente, todos os que se assumem identificados com a Venezuela Socialista Bolivariana, são chamados antes de mais a ter consciência da evolução global e continental na América, por que os próximos anos serão decisivos para a paz e a luta contra o subdesenvolvimento na América Latina, preocupação que nunca fez parte do ADN do império e dos seus vassalos, entre os quais uma expressiva parte das oligarquias latino-americanas.

TODOS SOMOS VENEZUELA!

Martinho Júnior - Luanda, 27 de Maio de 2018


Ilustrações:
Cartoon sobre a Doutrina Monroe (1);
Os falcões de turno (2 e 3);
O documento do Comando Sul do Pentágono sobre a Venezuela;
Estados Unidos tirem as mãos da Venezuela
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