sexta-feira, 1 de junho de 2018

Angola | EVIDÊNCIAS PATRIÓTICAS

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Martinho Júnior | Luanda 

1- Em Angola, no momento em que o mês em que se assinala o Dia de África chega ao fim, a comunidade de membros da ex-Segurança do Estado está de parabéns, por que tem demonstrado estar, década após década, acima de qualquer suspeita que manche o seu dever patriótico, que contra ela possa existir, interna ou externamente!

Num estado cuja superestrutura ideológica fez uma deriva entre um carácter socialista que a 11 de Novembro de 1975 se inspirava no marxismo-leninismo (foi “sob o olhar silencioso de Lenin” que se proclamou o Partido do Trabalho), a um estado tão vulnerável aos impactos do capitalismo neoliberal como o de hoje, com todos os traumas acumulados para além dos inerentes às trajectórias de guerra e por que essa deriva se reflectiu de forma muito sensível no ambiente humano que compunha os instrumentos do poder (onde se inseriam quer as FAPLA, quer a Segurança do Estado), provas sobejas de fidelidade e coerência para com os juramentos então feitos, ganham outra evidência, fazendo parte do seu percurso em vida!

O patriotismo tornou-se para essa franja de angolanos, uma constante prova de vida, face a todo o tipo de adversidades, quando até em relação às preocupações correntes, a esmagadora maioria desses camaradas mancha alguma de corrupção tiveram ao longo de sua vida!

É verificável que essa fidelidade e essa coerência substantiva se alimentam dum vínculo único, duma sociologia e duma antropologia que em Angola é um caso aparte, quer se queira ou não e, pelos sacrifícios silenciosos que têm sido sobejamente exigidos, é um património comum que é muito pouco conhecido pela maioria, embora mereça respeito e se tenha tornado já, por si, um exemplo de dignidade!

Esse percurso comporta uma outra narrativa que não sendo a oficial, suscita uma radiografia de transparência inerente aos dilemas internos vividos pelo MPLA e pelo estado angolano, (em grande parte um dossier por abrir pelos próprios autores de história), desde o 11 de Novembro de 1975, também ela, a narrativa, acima de qualquer suspeita, pelas evidências patrióticas de que se nutre!

Quanto mais não seja por essa razão, a comunidade de membros da ex-Segurança do Estado, continua a ser um assunto de estado, quanto ao seu papel, quanto aos seus sacrifícios, quanto a tantas falências que se foram acumulando e de que têm sido directas vítimas, algo que acabou por encurtar a vida de muitos dos seus componentes… tudo isso num abandono de tal ordem que muitos dos dirigentes que passaram pelas chefias de então, se alhearem dessa comunidade evocando todo o tipo de justificações e argumentos, acabando por, de facto, não terem mexido uma palha em prol da reinserção social e do apoio solidário que agora em tempo de paz e democracia é devida a todos os angolanos!

É legítimo perguntar-se: se alguns dos antigos membros da ex-Segurança do Estado estão a ser tratados desse modo, o que se esperar nas obrigações humanas e solidárias para com o resto da sociedade?

Antes de alguma vez se alcançar por parte do estado angolano o reconhecimento dos próprios direitos à dignidade inerentes a essa comunidade, direitos tão duramente conquistados, essa comunidade cumpriu e cumpre silenciosamente com deveres patrióticos jurados desde outras épocas, ainda que pela lei da vida, em função dos traumas, do desamparo e em muitos casos da miséria, muitos dos seus membros tenham vindo mais rapidamente a desaparecer, ou estejam a desaparecer!...


2- No mês em que se comemora o Dia de África, faleceu entre outros membros da Acção Social Para Apoio e Reinserção, ASPAR, (a associação que representa os membros do ex-MINSE) o camarada 1º sargento das Tropas Guarda Fronteira de Angola, TGFA, que em vida dava pelo nome de Tomás Afonso, mais conhecido por Bravo.

O malogrado, era natural de Quimbele, nasceu a 5 de Julho de 1956, estudou no Uíge e em 1976 ingressou na Juventude do MPLA ainda no Quimbele (o município mais a leste da Província).

Em 1978, com 22 anos, incorporou-se nas fileiras da Tropa Guarda Fronteira de Angola, TGFA, então enquadrada nos organismos do Ministério da Segurança do Estado.

Teve cursos de formação que concluíram em 1979, passando a integrar o efectivo da 4ª Região das TGFA, percorrendo os mais diversos postos fronteiriços da Província do Uíge, além do período que esteve ao serviço do próprio Comando Regional: Quicua, Camuanga, Cuango, Quibiengue, Quissacandica…

O seu trabalho na maior parte dos casos esteve adstrito à Logística, onde era um quadro bem conhecido na área de fardamento, pois tinha ganho habilitações de alfaiate e tinha-se tornado valioso para fazer face às exigências de então.

Em 2002 foi vítima de doença e para recuperar foi dispensado, não voltando contudo mais às fileiras.

Preencheu assim 24 anos ao serviço das TGFA, todos esses anos em tempo de guerra.

O 1º sargento Tomás Afonso foi desmobilizado, recebeu a quantia que lhe era devida pela desmobilização, mas como não havia mais qualquer tipo de apoio e vivia em Luanda, fazendo uso de sua profissão de alfaiate, passou a ganhar assim o seu sustento e o de sua vasta família (10 filhos e 20 netos).

Segundo os relatos de sua família, foi agarrado à máquina de costura que acabou por falecer, pelas 17H00 do dia 9 de Maio de 2018, num ignoto e modesto exemplo de abnegação, trabalho e dignidade, desde logo para com as suas próprias obrigações familiares e sociais.

Quando chegou ao conhecimento da ASPAR o seu falecimento, solicitou-se um apoio para a sua família, quer para os gastos do seu funeral, quer do seu óbito, aos serviços de competência, que resultou num suporte financeiro, num gesto que toda a comunidade, por ter sido pouco frequente, muito tem publicamente a agradecer!


3- A comunidade de membros do ex-MINSE, que na sua juventude obedeceu ao MPLA e aos juramentos então feitos em tempo de guerra, malgrado os exemplos patrióticos que tem vindo a dar apesar dos enormes sacrifícios e abandono a que tem sido sujeita, apesar do seu suporte em final de vida ser ainda um malparado assunto de estado, continua a aguardar que sejam passadas à execução todas as orientações que não foram cumpridas de há cerca de 8 anos a esta parte e afectam uma parte substancial dos seus membros!


Não faz sentido, entre outras coisas, que se captem investimentos externos, sem melhor “arrumar a casa” e este caso merece ser atendido de acordo com as políticas de reconstrução, reconciliação nacional e reinserção social.

A ASPAR, coerente com seus deveres, tem exortado o estado angolano ao cumprimento dessas decisões, que efectivamente, são um assunto de estado e estão a ser proteladas com uma factura humanamente pesada para pessoas que estão na ponta final de sua existência e mesmo assim em silêncio e disciplinadamente vão aguardando pelo socorro à sua própria dignidade.

Tem acontecido episódios humanos dos mais degradantes por falta de apoio de alguns: desde famílias que se desagregam, a pais que são escorraçados dos seus lares e morreram na rua, no mais completo desamparo.

Quando a crise económica e financeira se agudiza, a precariedade tem vindo logicamente a aumentar!


4- No mesmo mês de Maio, e em cima das comemorações do Dia de África, uma delegação importante de antigos membros do Batalhão Búfalo e das South Africa Defence Forces, SADF, que prestaram serviço ao “apartheid”, estiveram de visita às Províncias do Cuando Cubango e do Cunene, onde foram recebidas pelas autoridades, tendo até em jeito de boas-vindas, havido um almoço no Palácio do Governo em Ondjiva.

Em nome da paz, da reconciliação e da busca pela melhoria das condições de vida, tudo se torna possível, até por que muitos membros dessa delegação manifestaram interesse em investir em Angola, particularmente nas áreas dos Parques Naturais Transfronteiriços do sudeste angolano, integrados no Kavango and Zambeze Trans Frontier Conservation Area, KAZA-TFCA.

É evidente que este fluxo, é redundante das iniciativas do cartel de diamantes, que a partir do estatuto ganho no Botswana tem vindo a encarar o espaço físico-geográfico-ambiental , no seu relacionamento com o homem, de forma a implementar equilíbrios, também por que tem os olhos no turismo dos endinheirados de todo o mundo que são atraídos pelo exotismo africano, bem como à originalidade e à criatividade do acolhimento.

Essa iniciativa contrasta contudo com o tratamento no mínimo negligente a que tem sido sujeita a comunidade representada pela ASPAR e não se pode deixar de ter como referência, que o Governador do Cunene, general Kundi Pahiama, que passou pela direcção da Segurança do Estado, do Interior, dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, etc., uma pessoa que poucos sinais deu no sentido da resolução dos problemas humanitários, mantendo-se ausente da solidariedade institucional que neste caso afectam a comunidade de membros do ex-MINSE, em nome da paz, da reconciliação e dos investimentos recebe oficialmente, antigos combatentes do Batalhão Búfalo e das SADF!...

Disse o general Kundi Pahiama na altura:

“Estamos irmanados. Devemos estar unidos a partir de agora, não só com políticas, mas sobretudo com trabalho prático. Por isso, convido os sul-africanos a investirem cá, nos mais variados domínios”.

É evidente que, sem ferir as políticas de paz, de concórdia e de investimentos no espaço da SADC, há contudo bastos motivos internos para levar a cabo a ingente tarefa de “corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”!

Luanda, 1 de Junho de 2018 - Martinho Júnior

Fotos:
- O 1º sargento Tomás Afonso, membro da Acção Social Para Apoio e Reinserção;
- Foto do acto de entrega de valores do apoio do estado angolano ao funeral e óbito do 1º sargento Tomás Afonso;
- Visita ao Cuando Cubango e Cunene, de membros dos ex-Búfalos e ex-SADF que prestaram serviço ao “apartheid”;
Desfile comemorativo do 40º aniversário da independência nacional, a 11 de Novembro de - 2015, em que uma delegação da ASPAR representou a comunidade de membros da ex-Segurança do estado.
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