sábado, 2 de junho de 2018

Iraque: a presença dos EUA em questão

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Thierry Meyssan*

O Iraque jamais teve paz após a invasão norte-americana, há quinze anos atrás, de tal maneira que os eleitores perderam a confiança nas diferentes instituições políticas que se sucederam. Seja como for, os que participaram no escrutínio legislativo de 12 de Maio escolheram listas anti-EUA, sancionando assim a do Primeiro-ministro que, no entanto, não havia governado mal. Conseguirão os Estados Unidos manter a desordem? Ou serão realmente forçados a partir?

A 12 de Maio, desenrolaram-se eleições parlamentares no Iraque. Elas deviam consagrar a “Aliança para a Vitória” do Primeiro-ministro, Haider al-Abadi, ou seja, a partilha do país entre os Estados Unidos e o Irão.

Ora, não foi nada disso o que se passou. Em qualquer caso, as duas coligações (coalizões-br) vencedoras são a «Aliança dos Revolucionários para a Reforma» e a «Aliança da Conquista»: duas formações anti-EUA.

Talvez os iraquianos tenham sido influenciados pelo anúncio, no próprio dia das eleições, da retirada dos EUA do acordo nuclear com o Irão (JCPoA). É possível. Seja como for, apenas um terço dos eleitores se deslocou às urnas e votou esmagadoramente contra os Estados Unidos.

Observe-se, de passagem, que o acordo de não-agressão EUA-Irão [1], posto em causa por Donald Trump, não se aplicava unicamente ao Iraque, mas também ao Líbano. O que explica a ausência de reacção dos EUA à eleição do Presidente Michel Aoun, em 2016.

Após um momento de silêncio, inúmeros ex-deputados Iraquianos denunciaram fraudes e reclamaram a anulação do escrutínio. Se a princípio se tratava apenas de contestações em circunscrições particulares, o movimento exige, agora, um novo escrutínio nacional.

Surpreendendo, o líder da Aliança dos Revolucionários para a Reforma (na frente da contagem), Moqtada al-Sadr, declarou que não veria qualquer objecção a isso. Significa, segundo ele, que mesmo que tenha havido fraudes aqui e ali, elas apenas podem ter como consequência a eliminação desta ou daquela personalidade, não do total do resultado: a maré anti-EUA.

O programa do clérigo xiita Moqtada al-Sadr é simples: retirada de toda a presença estrangeira (salvo diplomática), seja norte-americana, turca ou iraniana. Sem preconceber o que acontecerá com as tropas Turcas ilegalmente estacionadas em Bachiqa, e sabendo que os Iranianos não precisam de enviar tropas para o Iraque para aí estarem representados, esta mensagem dirige-se, prioritariamente, aos 100.000 Norte-americanos ainda presentes, entre os quais um quinto de soldados regulares.

A outra mensagem de Moqtada al-Sadr —apoiado pelo Partido Comunista— é o fim do sectarismo. Parece que os Iraquianos assimilaram que, na ausência de um regime despótico como o de Saddam Hussein, apenas a unidade nacional permite defender o país. Foi por isso que Moqtada al-Sadr se voltou, antes das eleições, para a Arábia Saudita e para as outras potências sunitas do Golfo Pérsico. Ele define-se como um nacionalista, no sentido do baasismo original: não como um nacionalista iraquiano, antes como um nacionalista árabe.

Foi também por isso que os eleitores não deram apoio maciço à “Aliança da Vitória” do Primeiro-ministro : ao fazer referência à sua vitória sobre o Daesh (E.I.), Haider al-Abadi rejeitava os antigos baasistas que apoiaram, por “default”, a organização terrorista [2].

A propaganda da Administração Bush assimilara os baathistas de Saddam Hussein aos nazistas. Washington tinha qualificado o Partido Baath iraquiano de «organização criminosa» e interdito aos seus membros actuação na política. Quinze anos mais tarde, esta decisão ainda é a causa principal dos problemas que atingem o país. A isso, deve acrescentar-se a Constituição sectária, redigida pelo Israelo-Ianque Noah Feltman e imposta pelo Pentágono, que faz pairar permanentemente o espectro de divisão do país em três Estados distintos (xiitas, sunitas e curdos). Seja como for, foi-se o tempo em que a CIA poderia orquestrar, por baixo da mesa, a guerra civil e desviar a raiva anti-EUA para perseguições inter-comunitárias.

No Irão, os partidários do Presidente Hassan Rohani decidiram interpretar o escrutínio iraquiano como uma erupção populista contra a corrupção. Enquanto os partidários dos Guardiões da Revolução salientam mais o carácter unificador da Aliança de Moqtada al-Sadr.

Se o Irão procurar impor a sua vontade aos Iraquianos, será igualmente rejeitado por eles. Muito embora trabalhe nos bastidores para unir os opositores de Moqtada al-Sadr, Teerão nada diz em público. Obviamente, os acontecimentos evoluem a seu favor: é certo, os Estados Unidos rejeitam o acordo nuclear, mas deverão perder a sua influência no Iraque e a sua capacidade de agir a partir deste país, tanto na Síria como na Turquia.

A Turquia também está calada : Moqtada al-Sadr terá que gastar muita energia face aos Estados Unidos e não poderá atacar simultaneamente as tropas turcas, aliás, muito menos numerosas. Não chegou ainda o momento em que ele terá que se posicionar perante as questões regionais e a rivalidade irano-saudita.

Thierry Meyssan* | Voltaire.net.org | Tradução Alva

Foto: O líder nacionalista Iraquiano, Moqtada al-Sadr

*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).

REDE VOLTAIRE | DAMASCO (SÍRIA) | 1 DE JUNHO DE 2018 
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[1] Os Estados Unidos e o Irão concluíram um acordo bilateral, secreto, paralelamente ao JCPoA. Ele parece instituir entre eles uma espécie de pacto de não-agressão no Médio-Oriente.
[2] Opondo-se ao Baas (ou Bath- ndT) sírio, o Baas iraquiano apoiou a tentativa de golpe de Estado dos Irmãos Muçulmanos contra Hafez al-Assad, em 1982. Rompendo com o laicismo, promoveu o «regresso à Fé». Nesta onda, o Iraque retirou as três estrelas da bandeira iraquiana, que haviam sucessivamente significado a união com a Síria e o Egipto, depois a divisa «Unidade, Liberdade, Socialismo», e substitui-as, em 2008, pela divisa «Allah Akbar !». Aquando da invasão dos EUA, os membros do Baas voltaram-se para o seio da confraria sufi dos Naqchbandis, dos quais o antigo Vice-presidente Ezzat Ibrahim Al-Douri era o grão-mestre. Em 2014, eles juntaram-se maciçamente às fileiras do Daesh.
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