segunda-feira, 4 de junho de 2018

Legislador racista, estado português racista, portugueses racistas

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Coisas de Portugal e do mundo nesta manhã chuvosa em todo o país. É o Curto do Expresso. Por Rui Gustavo. Acontece que não estamos nem aí mas sim a mirar o racismo intolerável que existe em Portugal. 

Para cúmulo sabemos que temos deputados, o legislador, que fabrica leis racistas, temos juízes e uma justiça(?) racista, temos o racismo em quase tudo, talvez por via da cola do colonialismo de séculos. Cola que estará no ADN até de jovens, que o herdaram dos país, dos avós, do Vasco da Gama. Racismo em Portugal, ao contrário da lenda que corre de que em Portugal não há racismo, que os portugueses não são racistas. Mentira. Governos, o Estado, deputados, partidos políticos, empresários, etc. são racistas. Com todo a propriedade podemos afirmar que comprovadamente Portugal e os portugueses são racistas!

“Olha, olha. Olha p’ra este, deve ter acordado com os pés de fora!” Exclamarão alguns dos que são capazes de ler esta entrada para o Curto. “Não somos racistas. Em Portugal não há racismo. Até tenho um amigo mulatinho! E gosto muito de pretinhas!” Dito por potenciais racistas à laia de quem lava a cara com água suja, conspurcada pelo racismo doentiamente saloio que bem lá no fundo transportam e se manifesta.

Um nome: Joana Gorjão Henriques, a jornalista que despe o racismo em Portugal. No jornal Público tem publicado um manancial sobre o tema. Também em livro. Hoje nas “Manhãs TSF” falou com Fernando Alves e soube a pouco. Deuses! O que ela sabe, o que ela aponta, o que denuncia! Se quer saber só tem que pesquisar. Atrás do nome desta destruidora do mito de que “os portugueses não são racistas”, de que “não existe racismo em Portugal” ficamos a saber o Estado ‘horribilis’, o sistema que dá grandeza ao racismo. E, como dito antes, temos no legislador, nos deputados, o racismo escarrapachado nas leis que deitam cá para fora sem ponta de vergonha. Olhando para a cor da pele de tantos portugueses que são atirados para a exclusão por motivos vincadamente racistas. Uma vergonha para todos nós. Ou parece que não e que a solução é dizer “vai lá para a tua terra” aos africanos portugueses cuja cor de pele é escura e não é por frequentarem a praia. Os chamados “pretos” mesmo que sejam “castanhos” ou até nem isso.

Afinal, lendo e ouvindo Joana Gorjão Henriques, no Público ou em livro, até aqui na Internet, apetece perguntar: porque é que os portugueses são racistas mas usam o mito de que não o são? Porque temos no Parlamento deputados que não abraçam o tema e dão fim às leis racistas? Porque existe no setor da justiça tanto racismo? Porque se empurra para a exclusão, para as diversas exclusões de que são vítimas, para a criminalidade, tantos jovens devido ao racismo que está impregnado nos portugueses? Tanto que há para perguntar, reconhecer errado e corrigir…

Bom dia, abomináveis racistas que se julgam e dizem não ser. Tenham vergonha e arrepiem caminho. Sigam para o Curto, se quiserem. Está interessante, mas é o Expresso, tenham isso presente. E hoje é muito Expresso neste Curto. (MM | PG)

Bom dia este é o seu Expresso Curto

Como negociar com príncipes

Rui Gustavo | Expresso

Hoje, numa sala anónima do Ministério da Educação, o futuro de milhares de crianças e dos respetivos pais estará em cima da mesa de negociações. De um lado, o ministro Tiago Brandão Rodrigues, que já terá assegurado a sua presença “nove meses depois” da última aparição; do outro, os sindicatos dos professores, a começar, logo às 9h30 pela Fenprof do já veterano Mário Nogueira. Em causa, acima de tudo, o descongelamento da carreira dos professores prometida pelo Governo até 2023 e exigida, na totalidade, pelos docentes. O que os separa? “Nove anos, quatro meses e dois dias” contabilizados pelo negociador Mário Nogueira que não aceita a proposta governamental de descongelar “apenas” dois anos e dez meses da carreira. Tempo é dinheiro e nas contas do Governo o degelo vai custar 1.477 milhões de euros e nas do sindicato 900 milhões.

O problema sai da sala do Ministério porque o sindicato, ainda antes das negociações, já anunciou uma greve para o final do ano letivo - altura das avaliações, renovação das matrículas e constituição das turmas. Não é muito difícil imaginar o efeito dominó do que sair da sala de reuniões da 5 de outubro. Só há negociação quando as duas partes ganham mas desta vez vai ser precisa muita habilidade negocial para ninguém perder a face.

No livro “Como negociar com príncipes”, François de Callières, diplomata e secretário do gabinete do rei Luís XIV, defendia a importância da diplomacia para a resolução de conflitos, argumentando que negociação “é cooperação e não competição” e que o principal objetivo dos governantes deve ser o de não recorrer à guerra “enquanto não tiver lançado mão e esgotado a via da razão e da persuasão”. Callières não foi ouvido na altura e só trezentos anos depois “A Arte de Negociar”, como também é conhecida, teria algum sucesso. Algum.

Se costuma andar de comboio, provavelmente estará a ler este Curto numa estação à espera do comboio que nunca mais vem. É que hoje há greve da CP porque os trabalhadores estão contra a alegada intenção da empresa de pôr a circular comboios com um agente único a bordo. Mesmo que tenha comprado bilhete, não tem direito a devolução do dinheiro ou a comboio.

As negociações entre o Governo e os sindicatos, não só este, mas qualquer governo, são uma espécie de tormento de Sísifo, o rei condenado a empurrar uma pedra até ao alto de uma montanha para ter de a empurrar outra vez no dia seguinte. O mito grego pretendia demonstrar o absurdo da existência humana. Se finalmente ouvirmos Callières, talvez a pedra fique no topo por algum tempo.

OUTRAS NOTÍCIAS

Devia dizer outras negociações: Jorge Jesus e Bruno de Carvalho estão a negociar a rescisão do contrato entre o treinador e o Sporting. De acordo com os desportivos de hoje, Jesus já terá acordo com os sauditas do Al-Hilal onde irá ganhar sete milhões de euros num ano. A assinatura do contrato está dependente do acordo de rescisão com o Sporting que ainda ontem, num longo comunicado traduzido pela Tribuna, garantia que nunca despediu Jesus e elogiava os jogadores e treinadores do Vitória de Guimarães que se mantiveram no clube apesar de terem sido atacados pelos adeptos, numa situação semelhante à ocorrida em Alcochete.

Em três anos depois de ter saído com estrondo do Benfica, Jesus ganhou uma Taça da Liga e uma Supertaça e devolveu competitividade ao clube. A saída é marcada pelos absurdos acontecimentos de Alcochete quando a equipa foi atacada pelos próprios adeptos antes de um treino. 23 dos cerca de 50 atacantes foram detidos e estão em prisão preventiva. Os outros terão sido identificados, mas não foram, sequer, detidos pela polícia.

Não é a primeira nem será a última vez que temos de escrever isto: 48 migrantes morreram na madrugada de domingo quando a embarcação em que navegavam se virou ao largo da Tunísia. O barco tinha capacidade para 70 pessoas, mas seguiam a bordo mais do dobro. A contabilidade mortal não deve ficar por aqui.

Na Turquia, nove pessoas morreram quando a lancha em que viajavam se virou ao largo da província da Anatólia. Seis eram crianças. Até quando?

Hoje, no Tribunal de Sintra, prossegue o julgamento de 17 agentes da PSP acusados de agredirem vários jovens da Cova da Moura, um bairro degradado às portas da capital. Os polícias são igualmente acusados de ofensas racistas e de proferir frases como “Sangue de preto, que nojo”. Na primeira sessão, os policias que prestaram depoimento não só negaram todas as acusações como garantiram que se limitaram a defender a esquadra de uma invasão. Versão oposta à da principal vítima que diz ter sido abordado e imediatamente agredido por polícias sem qualquer motivo e que os amigos e familiares que foram à esquadra para saber deles acabaram igualmente agredidos.

A acusação tem factos graves, como detidos algemados a noite inteira e obrigados a dormir no chão, ameaças e ofensas sem qualquer justificação que, a serem verdade, serão uma mancha grave no uniforme da PSP. Mas também tem fragilidades (uma oficial chegou a estar acusada quando nem esteve no local) e o facto de os polícias acusados terem aceitado falar mostra que estarão de facto convencidos de que não cometeram qualquer crime. Mas para já, a Justiça tem dado mais força à versão das alegadas vítimas: os procuradores do MP e o juiz de instrução consideraram que há indícios suficientes para um julgamento. Por negociação entre o Estado e o povo, a polícia, não só a PSP mas todas as outras forças, são os únicos que num país normal podem exercer a violência de forma legal. Repito: legal.

Dias depois de Donald Trump ter adiado a cimeira com o líder norte-coreano Kim Jong-un, foi a vez de Bashar al-Assad, líder da martirizada Síria, a anunciar que vai encontrar-se com o presidente da Coreia que de pária passou a diplomata num estranho piscar de olhos.

As autoridades britânicas atribuem ao estilo musical “drill” a responsabilidade pela onda de esfaqueamentos que matou dezenas de jovens em Londres e nos arredores. Nos vídeos publicados no youtube, os grupos deste estilo de rap “niilista” falam de, de facto, de esfaqueamentos, ataques, morte e outras liberdades criativas, mas dizem estar a ser usados como bodes expiatórios. Trinta vídeos foram retirados do youtube.

Miguel Oliveira venceu o Grande Prémio de Itália em Moto GP2. A notícia está na primeira página de praticamente todos os jornais de hoje. O melhor relato pode ser ouvido aqui. Obrigado, Brasil, por existires.

FRASES

“É preciso fazer voz grossa a Bruxelas”
Assunção Cristas, líder do PP, sobre o corte dos fundos comunitários a Portugal

“Mais do que voz grossa, é preciso argumentar”
Jerónimo de Sousa, líder comunista, sobre o mesmo corte.

“Tenho a esperança, mais, tenho a convicção de que estamos a fazer tudo para que não se repita o que aconteceu no ano passado”
Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, sobre a época dos fogos que se avizinha

“Olho para o sinal, está vermelho, não aparece nada”
Utente da CP há duas horas à espera do comboio que não aparecia

"A Itália e a Sicília não podem ser o campo de refugiados da Europa Os bons tempos para os clandestinos chegaram ao fim: preparem-se para fazer as malas"
Matteo Salvini, novo ministro do Interior italiano

O que eu ando a ler
“Ali. A Life”
Jonathan Eig

Muhammad Ali é o maior pugilista da história apesar de ter tido várias derrotas no currículo enquanto muitos lutadores que conseguiram acabar a carreira sem derrotas não passam de uma página no livro da história do boxe. É que há homens maiores do que a vida. Muhammad - cujo bisavô era escravo, o avô um assassino condenado e o pai um alcoólico que batia na mulher e chegou a atacar um dos filhos com uma faca – mudou de nome porque quis matar a herança de escravo (nasceu Cassius Marcellus Clay, já agora), recusou alistar-se no exército americano e a combater no Vietname porque “nunca nenhum vietcong me chamou preto” (tradução livre) e por causa disso perdeu o título mundial e foi proibido de combater durante vários anos. Além de ser um lutador transcendental, inventou o trash-talk - luta verbal pré-combate que consiste em perturbar e provocar o adversário o mais possível de preferência com piada. E Ali tinha. No fim da vida, minado pela doença de Parkinson, já era uma figura consensual quando acendeu a chama dos jogos olímpicos de Atalanta. Aos eleitos tudo se perdoa. O livro é escrito por Jonathan Eig que entrevistou mais de 500 pessoas para poder contar todos os combates de Ali. Dentro e fora do ringue.

O que eu ando a ver
“Ilha dos Cães”
Wes Anderson

Fábula no sentido literal de Wes Anderson (só entendemos o que os cães dizem porque os humanos falam em japonês que só é traduzido de vez em quando), o filme de animação non-stop (bonecos reais filmados e não desenhados) conta a história de Atari, o filho adotivo do presidente da Câmara ditador Kobayashi, que ordenou o exílio forçado de todos os cães da cidade de Megasaki a pretexto de uma gripe canina e do excesso de população. Atari é o único que não esquece o seu cão e parte para a ilha que dá título ao filme (na verdade é uma ilha de lixo) em busca de Spots. Outrora resignados, os cães veem no puto o exemplo que precisam para mudarem (ou tentarem que é o que realmente interessa) o destino malvado. Para além do argumento inteligente, e da pandilha de astros nas vozes (Edward Norton, Bryan Cranston, Bill Murray, Frances McDormand, Scarlett Joahansson, Yoko Ono, sim essa Yoko Ono) o filme é um regalo visual e cada plano é um quadro cuidadosamente pintado pelo cineasta a quem já me tinha rendido desde “Os Tenenbaums – uma Comédia Genial”. O filme deve estar quase a sair de cena. Tal como eu, pelo menos por agora.

Siga os próximos capítulos das nossas vidas em www.expresso.pt e no Expresso Diário, às seis em ponto da tarde.
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