terça-feira, 25 de março de 2025

Portugal | Herberto Helder em exposição inédita na Livraria Buchholz

Um homem habitado por palavras: Herberto Helder em exposição inédita na Livraria Buchholz

Luciana Leiderfarb, jornalista | Expresso

“1ª Edição - Uma autobibliografia” é o nome de uma exposição que assinala os 10 anos sobre a morte do poeta. Aberta até 21 de maio, baseia-se num núcleo de 60 títulos que pertence a um colecionador anónimo. Estão lá todas as primeiras edições, mesmo as de autor, assim como outras raridades, além de cartas e documentos

São 60 títulos, que deram à estampa entre 1958 e 2018. E isso, tratando-se de Herberto Helder, engloba tudo. Um colecionador anónimo procurou-os obsessivamente e coligiu-os, disponibilizando-os agora para a exposição “1ª Edição - Uma Autobibliografia”, que a Livraria Buchholz abriu ao público a partir de sexta-feira, e até 21 de maio. Trata-se de um “evento único”, como notou aquela casa livreira lisboeta num comunicado enviado às redações. Único porque mostra a “obra completa do poeta” de quem agora se cumprem os 10 anos da morte e inclui as primeiras edições de todos os seus livros, “muitos dos quais raras impressões independentes e de autor, com tiragens muito reduzidas”.

A própria Buchholz exemplifica com a primeira e única edição de “O Amor em Visita”, um folheto de 16 páginas, assinado e emendado pelo autor, e do qual foram publicados, em 1958 e clandestinamente, 500 exemplares sob a chancela da Contraponto, fundada por Luiz Pacheco. “Logo que lança este livro, que esgota rapidamente, as pessoas percebem que está ali uma voz fora do comum”, observa Joana Stichini Vilela, curadora da exposição, ao Expresso.

Organizada cronologicamente, e com direção de arte de Maria Manuel Lacerda, a mostra apresenta “todas as primeiras edições de livros e folhetos, assim como as subsequentes editadas ainda em vida de Herberto Helder”, muitas delas com dedicatórias do poeta, além das 11 edições de “Os Passos em Volta” lançadas em vida deste, a primeira das quais em 1963. Há também projetos póstumos, como o de “Poemas Canhotos” - o volume que o poeta “deixou pronto para sair” antes da morte -, “Letra Aberta” - uma seleção de poemas elaborada pela viúva - e “Em Minúsculas”, conjunto de reportagens e crónicas escritas em Angola entre abril de 1971 e junho de 1972, publicadas no “Notícia - Semanário Ilustrado”, e organizadas pelo filho, Daniel Oliveira.

“Poemacto”, lançado em 1961, quando Herberto trabalhava nas bibliotecas itinerantes em Santarém, é outra das paragens obrigatórias desta ‘viagem’ por uma obra em permanente transformação - nesse mesmo ano seria lançado “Colher na Boca” - e que tem como estação seguinte “Retrato em Movimento”, editado em 1967 pela Ulisseia, de Vítor Silva Tavares. Um ano depois surgiria “Apresentação do Rosto”, único livro censurado de Herberto Helder e mais tarde renegado – de que a exposição revela o relatório da comissão de censura. A partir daí, ele “cala-se e não escreve mais nada de original até 1977, quando edita ‘Cobra’”, explica Joana Stichini Vilela.

O ‘silêncio’ de Herberto não é literal, uma vez que, entretanto, aparecem outros livros, como “Fotomaton & Vox”, "Do Mundo" ou “Vocação Animal”. Em 1973, sai igualmente uma antologia sua, intitulada “Poesia Toda”. Até que, em 1977, “Cobra” assinala o regresso dos originais, num volume que põe em evidência a forte relação do poeta “com os elementos da natureza”. “O mundo era uma entidade só. E ele era muito único nesta mundividência”, diz a curadora.

Edições pirata e cartas

Em 1978, “O Corpo o Luxo a Obra” é lançado pela &etc, ao lado de Vítor Silva Tavares, naquele que assinala o início de uma coleção de poesia e ensaio de assinatura conjunta. E a esses 250 exemplares juntam-se os mil de uma edição pirata promovida pela Contraponto de Luiz Pacheco, que deixa Herberto Helder furioso. Na mostra, podem ver-se ambas as edições, iguais em quase tudo, menos no facto de uma ter inscrito o nome da Contraponto e se autodesignar de segunda edição. Outra raridade exposta é “Flash”, de 1980, uma edição de autor, fora de circulação, cujos 250 exemplares o poeta oferece a amigos e conhecidos.

Entre os documentos disponibilizados nas estantes da Buchholz, estão uma carta que Herberto Helder mandou a Sophia de Mello Breyner Andresen – diz-lhe que quase que o salvou – e duas do poeta ao filósofo Eduardo Lourenço, datadas dos anos 1970. Numa, Herberto agradece-lhe a ajuda para conseguir um subsídio da secretaria de Estado da Cultura, confessando: “Sabe como isto me dá jeito.” Noutra, fala-lhe da ideia do poema em flutuação e manda-lhe o livro “Cobra”, emendado à mão. Porque um poema deixava de ser o mesmo mal era fixado no papel.

Anónimo e obstinado

O conjunto exposto na Buchholz pertence a um leitor que quis manter o anonimato, mas que "estremece perante a estrutura mental do poeta", como explicou o mesmo numa nota escrita. O colecionador começou nos anos 1990 a "tentativa de bibliografia" que culminaria numa "busca dedicada, tendo chegado a ter uma renda na alfarrabista Gabriela Gouveia". "Com os anos 2000, a geografia abriu-se e a Internet deu uma ajuda", prossegue, contando que teria tido a possibilidade de conhecer Herberto Helder - mas recusou-a.

"Um dia, o alfarrabista disse-me: 'É um homem normal. Ainda ontem passei pela Mealhada e lhe trouxe um quarto de leitão. Ouça aqui esta mensagem que ele me deixou. Venha ver-me na quarta-feira que lho apresento.' Não fui. Nunca pensei em ir. E certo dia, em viagem, compreendi que periclitava no muro. Ultrapassando a ideia avassaladora, podia vislumbrar o mundo a seguir. Saía da obra e podia escrever. Eu, que queria a leitura da obra (que só em 2011 consegui arrumar na estante), nunca a lerei na totalidade, pois isso me estica a vida. A ideia de o ir revendo, lendo. Imaginando. Chegar, enquanto leitor, a essa ideia do livro todo – se é que era essa a ideia. Se um dia a casa arder, ponho-os num saco e, ao menos isso, vão comigo."

Escrever o universo

Joana Stichini Vilela sublinha a “intensidade avassaladora” de uma produção poética que tem como marca uma grande contemporaneidade: “Não são poemas minimamente datados. Escrevia com ousadia, com liberdade. Com imensas influências trazidas das suas viagens pela Europa e pelos EUA.” Quando deixou de poder viajar, continuou a fazê-lo pelos livros e pela poesia: “Encontrei uma nota dele para um alfarrabista a pedir uns livros de umas mulheres que eram aventureiras – uma delas, por exemplo, foi a primeira a escrever um romance lésbico. Isto mostra uma curiosidade imensa.”

O contacto próximo com este núcleo de 60 títulos levou-a a “compreender melhor essa ideia de poema contínuo” tão característica de Herberto: “Ele tinha essa liberdade de ir reescrevendo, de o poema ser a linguagem por excelência para descrever o universo e, por isso, estar sempre viva. Por outro lado, dá que pensar um homem estar 50 anos a olhar para os mesmos textos, que se vão transformando e regenerando, mas dos quais não se consegue libertar.” O nome da exposição, “1ª Edição - Uma Autobibliografia”, aponta para o modo como ele queria ser conhecido. “Ele era um homem habitado por palavras. E o poema era a forma de ele organizar o caos do mundo”, refere Joana.

* Herberto Helder de Oliveira foi um poeta português, considerado por alguns o "maior poeta português da segunda metade do século XX" e um dos mentores da Poesia Experimental Portuguesa. Wikipédia

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